[{"jcr:title":"Como integrar os sistemas de transporte das regiões metropolitanas"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"Como integrar os sistemas de transporte das regiões metropolitanas","jcr:description":"Com duas palestras e um painel, encontro detalha as experiências bem-sucedidas de Nova York e de Goiânia e debate caminhos que podem ser seguidos por outras cidades"},{"subtitle":"Com duas palestras e um painel, encontro detalha as experiências bem-sucedidas de Nova York e de Goiânia e debate caminhos que podem ser seguidos por outras cidades","author":"Ernesto Yoshida","title":"Como integrar os sistemas de transporte das regiões metropolitanas","content":"Com duas palestras e um painel, encontro detalha as experiências bem-sucedidas de Nova York e de Goiânia e debate caminhos que podem ser seguidos por outras cidades     Tiago Cordeiro   Entre os especialistas não costuma haver dúvidas de que a gestão metropolitana representa o melhor caminho para levar eficiência e melhor atendimento para os sistemas de transporte público nas cidades. Não se trata de uma crença, por assim dizer, conceitual:  existem casos de sucesso que comprovam que essa é uma estratégia que tem tudo para dar certo. Foi o que se viu em Madri, por exemplo, nos anos 1980. Lá, a redução nos custos de produção do serviço chegou a 30%. Ainda assim, cidades como São Paulo não conseguem avançar nessa pauta. Prevalece no Brasil gestões estaduais e municipais da região metropolitana competindo entre si, com sistemas de pagamento diferentes, linhas sobrepostas e falta de eficiência na formação das equipes de colaboradores. O assunto, de inegável relevância, foi debatido no evento [Gestão metropolitana da mobilidade urbana: barreiras e passos para implementação](https://www.insper.edu.br/agenda-de-eventos/gestao-metropolitana-da-mobilidade-urbana-barreiras-e-passos-para-implementacao/?utm_smid=11249698-1-1) , que abordou  uma experiência internacional bem-sucedida, a de Nova York, e outra nacional, de Goiânia. O evento – o primeiro realizado pelo Observatório Nacional de Mobilidade Sustentável, uma parceria do Laboratório Arq.Futuro de Cidades do Insper com o Grupo CCR – reuniu lideranças em níveis municipal, estadual e federal, além de representantes do setor privado e de bancos de fomento. “Um cidadão que vive em Guarulhos precisa ter um cartão e vai pagar uma tarifa cheia do ônibus municipal para chegar até o terminal. Ali, vai pagar uma nova tarifa cheia para entrar em um ônibus estadual. Ao desembarcar em São Paulo capital, vai precisar utilizar um novo cartão, com uma terceira tarifa”, exemplificou o advogado Sérgio Avelleda, ex-secretário de Mobilidade e Transportes da capital paulista, ex-presidente do Metrô de São Paulo e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e coordenador do Núcleo de Mobilidade Urbana do Laboratório Arq.Futuro de Cidades do Insper, que abriga o Observatório em sua estrutura. “Com isso, o que estamos dizendo para este cidadão? Que ele não use o transporte público”, apontou Avelleda na abertura do encontro, no qual atuou como moderador. “Se fosse uma gestão metropolitana, esse cidadão teria um cartão, tarifas integradas com descontos, uma rede única, informações únicas, um único aplicativo. Entretanto, a integração não sai do papel. A pergunta central deste debate é: quais são as resistências, as barreiras que nós precisamos superar?”. Ainda na abertura do evento, realizado no dia 26 de abril, Tomas Alvim, coordenador-geral do Laboratório Arq.Futuro, destacou a importância de discutir a gestão metropolitana e pontuou: “Os problemas urbanos se tornaram complexos e demandam uma abordagem sistêmica, multidisciplinar. Por isso mesmo criamos um laboratório de cidades dentro de uma escola de negócios. Queremos pensar os desafios urbanos a partir de seus processos de transformação”.   Exemplo norte-americano O encontro foi dividido em três momentos. Em primeiro lugar, a experiência de integração metropolitana realizada em Nova York foi apresentada por Brittany Montgomery, assessora sênior de projetos especiais e iniciativas da presidência da New York City Transit, a autoridade de trânsito da megalópole norte-americana. Na sequência, Miguel Angelo Pricinote, subsecretário de Cidades e Transporte do governo do estado de Goiás, apresentou os resultados das ações da capital, Goiânia. Por fim, um debate buscou refletir sobre os dados apresentados em busca de caminhos para implementar a gestão metropolitana em outros complexos urbanísticos, sobretudo em São Paulo. Montgomery apresentou detalhadamente as características da gestão metropolitana de Nova York, as dificuldades encontradas para fazer a integração ao longo das últimas décadas – e também as vantagens e as eficiências alcançadas com tal padrão de gestão. Lembrou que a área metropolitana de Nova York é mais de seis vezes superior à de São Paulo, com mais de 35 mil quilômetros quadrados, onde vivem aproximadamente 20 milhões de habitantes. Para integrar diferentes modais de forma eficiente, ela relatou, foi preciso integrar uma constelação de 21 atores, governamentais e não governamentais, em níveis local, estadual, regional e nacional. “Desde a década de 1960, o governo federal dos Estados Unidos começou a pensar no tema da gestão metropolitana. Foi quando construiu muitas estradas e criou e fortaleceu áreas administrativas, uma para cada área organizada e com acima de 50 mil moradores”, disse ela, que é engenheira e urbanista, reconhecida como uma liderança influente em desafios estratégicos, tecnológicos e operacionais no tema de cidades e mobilidade urbana. Montgomery veio ao Brasil para participar do evento do Insper e fez questão de se apresentar em português. “Quem deve estar no foco é sempre o cidadão. Em todo o nosso esforço de coordenar ações entre diferentes atores, não podemos perder de vista que o trabalho deve sempre manter as pessoas no centro das atenções”, sublinhou ela. A especialista também propôs um guia de reflexão para avançar nessa pauta, com perguntas que devem orientar a implementação de uma autoridade metropolitana de transportes: Quais são as metas na gestão metropolitana do transporte urbano? Quem deve participar e com qual capacidade? Quais são os poderes que devem atuar para o sucesso uma gestão metropolitana? De onde vem o dinheiro? Como será implementada a gestão metropolitana? “É preciso responder a cada uma delas de acordo com o contexto local. Não basta copiar uma experiência e replicar. Cada metrópole tem suas características próprias”, ela avaliou. De fato, sua apresentação foi seguida pelo relato de um caso de características muito diferentes: a região Metropolitana de Goiânia, que tem 2,6 milhões de habitantes, dez vezes menos do que Nova York.   Êxito no Centro-Oeste brasileiro Miguel Angelo Pricinote é coordenador nacional do Mova-se Fórum de Mobilidade e já foi diretor de Transporte do RedeMob Consórcio (GO), diretor-adjunto da Viação Reunidas (GO) e diretor-executivo da ReuMob. Na posição de subsecretário no governo goiano, ele trabalha para sustentar e ampliar o legado que, na avaliação de Sérgio Avelleda, configura a melhor experiência de gestão metropolitana de mobilidade urbana do Brasil. “A palavra forte é integração, determinada por lei estadual. Temos um sistema que abrange os 19 municípios, com tarifa única e ecossistema de acesso por aplicativo com 3,6 milhões de acessos mensais”, ele descreveu. O fato de a cidade, fundada em 1933, ter sido planejada, contribui para a gestão, observou Pricinote, assim como o porte da região metropolitana, com seus 21 municípios. Mas, para além das características locais, uma visão focada na gestão da região como um todo se mostrou decisiva. “Apenas dois municípios da região não aderiram ao sistema de gestão metropolitana, que foi implementado a partir dos anos 70”, Pricinote relatou. “Hoje, duas empresas são responsáveis por todas as linhas de todos os 19 municípios participantes, o que gera sinergia. Independentemente de onde você utiliza o sistema de transporte público da região, a tarifa é a mesma, o acesso é o mesmo, para 293 linhas, que atendem a 10 milhões de viagens por mês, com base em uma frota de 1.269 ônibus, 23 terminais e 19 estações.”   Miguel Setas, Denis Andia, Tomas Alvim e Sérgio Avelleda durante o debate Debate aberto O evento foi finalizado com um debate que envolveu o mediador, os dois palestrantes e outros seis participantes: Miguel Setas, CEO do Grupo CCR, Gilmar Miranda, secretário de Mobilidade de São Paulo, Manuel Botelho, secretário-executivo dos Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo, Denis Andia, secretário nacional de Mobilidade Urbana, Luciana Costa, diretora de Investimentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e Ana Beatriz Monteiro, especialista-líder em Transportes e coordenadora dos Projetos de Transportes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) Brasil. “São Paulo é a quinta maior metrópole do mundo. Atenta às complexidades desta e de outras metrópole, a CCR, que é a sétima maior empresa privada de mobilidade do mundo, tem um plano de investimento de 33 bilhões de reais para fazer nos próximos anos no Brasil”, comentou Setas. “Estamos todos juntos diante do mesmo desafio: integrar alternativas para a população, reunindo atores envolvidos com esta prestação de serviços. É inquestionável que o transporte público é um vetor de desenvolvimento econômico.” Miranda, por sua vez, apresentou o ponto de vista da gestão municipal da capital paulista, que gerencia mais de 13 mil ônibus e atrai moradores de todos os demais municípios da região metropolitana. “O primeiro ponto a ser analisado quando pensamos no desenvolvimento do transporte coletivo é focar no planejamento conjunto, seja a distribuição de cada um dos municípios, seja a questão do suporte do estado, quando uma prefeitura não teria condição de tocar sozinha uma determinada obra de infraestrutura. Temos 39 municípios autônomos entre si, mais um governo estadual, ou seja, são 40 entes, cada um com uma estruturação ideológica e jurídica.” Botelho, por sua vez, apresentou a visão do governo estadual de São Paulo. “Quem usa o transporte público beneficia não a si próprio, beneficia toda a sociedade. Mas, depois da pandemia, estamos perdendo usuários no sistema de transporte. O custo da produção de serviços não consegue mais ser coberto pela tarifa. A sociedade não admite mais pagar por todo o custo do transporte e é justo que a sociedade contribua com subsídio”, ele argumentou. Um caminho possível para a integração, apontou, é a integração entre o ABC paulista e a capital utilizando um sistema de BRT de frota inteiramente elétrica, [construído](https://agenciadenoticias.bndes.gov.br/detalhe/noticia/Primeiro-BRT-com-frota-100-eletrica-ligara-Sao-Bernardo-a-capital-em-ate-40-minutos/#:~:text=Integra%C3%A7%C3%A3o%20com%20metr%C3%B4%20e%20trem,Companhia%20Paulista%20de%20Trens%20Metropolitanos.) com apoio do BNDES. “É um caminho, quando um novo sistema é construído do zero e já nasce integrado.”   Foco na inclusão Já Andia, falando em nome da Secretaria Nacional de Mobilidade Urbana, comentou o esforço do governo federal em liderar a construção de uma agenda focada na gestão metropolitana. “O que leva um prefeito a pensar em termos metropolitanos é a necessidade. Sem isso, ele sempre vai preferir conduzir a gestão sob seu controle, dentro dos limites de seu município. A necessidade leva a uma mudança de postura, e ela precisa ser induzida, não apenas para o transporte, mas também para outras demandas, como a saúde.” Costa, do BNDES, reforçou o empenho do banco em impulsionar ações com foco para a gestão metropolitana. “O BNDES está conduzindo um estudo inédito, que vai investigar, num nível de detalhe nunca antes visto, a tipologia característica de todas as regiões metropolitanas do Brasil em termos de mobilidade urbana. Ao final desse processo, chegaremos a um diagnóstico, o que elas precisam e que tipo de projeto será necessário para alcançar cada uma delas. Vai ficar muito mais fácil financiar, agregar.” Como lembrou, o transporte é um dos fatores que mais contribuem para a democracia de um país. “Ele é inclusive agente de igualdade social e de gênero.” Por fim, Monteiro, do BID Brasil, concordou. “Hoje, no país, quem dá preferência ao sistema de transporte coletivo são as mulheres. Quem pode, busca automóveis ou motos. Investir em ações integradas representa, então, uma pauta importante de inclusão. O BID tem buscado integrar atores, e neste sentido, a solução encontrada pela região metropolitana de Goiânia é exemplar.” Fazendo um balanço do evento, Avelleda disse que ele alcançou todos os objetivos. “A ideia era reunir as principais autoridades brasileiras, especialmente da região metropolitana de São Paulo, bancos de fomento, a academia, representada pelo Insper, e o setor privado, representado pela CCR, para uma mesa de debate franco e direto sobre as dificuldades e quais os passos que devemos seguir para a implementação da gestão metropolitana da mobilidade urbana. Cada um expôs a necessidade de avançarmos na gestão metropolitana, bem como as dificuldades e as contribuições que cada setor pode dar.”  "}]