[{"jcr:title":"Um cientista político e professor que quer traduzir o mundo"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"Um cientista político e professor que quer traduzir o mundo","jcr:description":"“Formei muita gente, mas também aprendi muito na escola”, diz Carlos Melo, que dá aulas no Insper há 25 anos"},{"subtitle":"“Formei muita gente, mas também aprendi muito na escola”, diz Carlos Melo, que dá aulas no Insper há 25 anos","author":"Ernesto Yoshida","title":"Um cientista político e professor que quer traduzir o mundo","content":"“Formei muita gente, mas também aprendi muito na escola”, diz Carlos Melo, que dá aulas no Insper há 25 anos   Nascido e criado na periferia de São Paulo, o cientista político Carlos Melo é filho de imigrantes portugueses e foi a primeira pessoa em sua família a ingressar em uma universidade. Sempre gostou de escrever e pensou em ser jornalista, mas acabou optando por estudar Ciências Sociais. Formou-se na PUC de São Paulo, onde também fez o mestrado e o doutorado. Embora não tenha cursado jornalismo, Melo se tornou um colaborador regular de vários importantes veículos de comunicação. Como analista político, ele tem se dedicado a contribuir para o debate político, econômico e social do Brasil por meio de análises imparciais da conjuntura do país. É professor no Insper desde 1999. Como docente, busca não apenas transmitir conhecimento, mas também estimular o pensamento crítico e a reflexão em seus alunos. “Quando jovem, eu queria transformar o mundo”, diz Melo. “Fiz faculdade de Ciências Sociais, me meti com política, mas com o tempo percebi que minha verdadeira contribuição para mudar o mundo estava na educação.” A seguir, conheça mais sobre a trajetória do professor Carlos Melo.   Primeira escola, primeiro emprego Sou o quinto filho de um casal de portugueses açorianos analfabetos que veio para o Brasil com três filhos e teve aqui mais dois filhos. Os meus irmãos fizeram só o ensino primário. Fui a primeira pessoa na família a entrar em uma universidade. Nasci na Vila dos Remédios, um bairro no extremo oeste de São Paulo, na divisa com Osasco. Pela proximidade geográfica, fiz o colégio na Fundação Bradesco (sou técnico em administração de empresas) e trabalhei no Bradesco. Comecei no banco como contínuo, aos 14 anos, na Cidade de Deus. Parecia que eu teria uma carreira de bancário, mas logo percebi que não era o que queria. Embora não tenha permanecido no Bradesco, sou muito grato pela qualidade da formação que recebi. Além disso, trabalhar no banco me ensinou a ter seriedade e disciplina com horários e tarefas — algo muito importante para um garoto. Essa experiência me treinou para enfrentar desafios.   Escolha da carreira Nascido e criado na periferia de São Paulo, compreendi desde cedo que, para ser respeitado naquela realidade, era necessário ter um mínimo de inteligência. E a inteligência, aprendi, não é inata, mas conquistada. Assim, dediquei-me aos estudos com o objetivo inicial de me tornar um jornalista. Desde jovem aprendi a gostar de ler jornais e tinha a pretensão de achar que sabia escrever. Nos anos 1980, no final da ditadura militar, o Brasil enfrentou uma de suas maiores crises econômicas. Foi um período marcado pela intensa mobilização em prol das eleições diretas. Em maio de 1984, fui ao Vale do Anhangabaú para participar da manifestação das Diretas Já, algo absolutamente arrebatador. Eu tinha entre 18 e 19 anos. Foi durante a campanha das Diretas Já que conheci minha esposa, Rosana. Estamos juntos a vida toda. Nessa época, começou a se discutir o fim da obrigatoriedade do diploma para exercer o jornalismo. Então pensei comigo: vou estudar ciências sociais. Prestei vestibular e entrei exatamente onde queria — a PUC de São Paulo, um núcleo de grande efervescência política, muito mais do que a USP na época. Como não tinha condições de pagar a faculdade — eu trabalhava, mas tinha que ajudar no sustento da família —, decidi escrever uma carta para o chanceler da PUC, o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, uma figura importantíssima na história do Brasil. Graças à carta, consegui uma bolsa de 85% do valor da mensalidade e pude estudar e me formar na PUC. Não fiz jornalismo, mas saber escrever sempre se mostrou valioso para mim.   Estreia como analista político Após concluir a graduação, senti necessidade de aprofundar minha formação e obtive uma bolsa para realizar o mestrado na PUC. Nessa época, eu atuava como assessor parlamentar do PT. Cheguei a ser presidente de um diretório do partido e, provavelmente, se tivesse permanecido ali, eu teria seguido um caminho na política. Mas eu não queria isso e achava que o partido cometia uma série de equívocos. Em 1998, por exemplo, o PT insistia na crítica ao Plano Real. Eu achava isso um absurdo, porque controlar a inflação é algo fundamental. Eu me afastei da militância partidária e resolvi procurar um emprego. Acabei indo trabalhar em uma grande consultoria, a MCM, como analista político no mercado financeiro. O mestrado me proporcionou um conhecimento mais profundo e me preparou para essa função. Era um universo até então desconhecido, permeado por estranhamentos e preconceitos mútuos entre a política e o mercado financeiro. Percebi a necessidade de mediação entre esses dois mundos e me vi em condições de desempenhar esse papel de mediador.   O início no Insper Foi nessa época, em 1999, que surgiu o IBMEC [antecessor do Insper]. Claudio Haddad estava montando uma escola de graduação onde cada aluno teria um computador. Na época, um notebook custava cerca de 4 mil dólares, o equivalente hoje a 20 mil reais. Quem poderia ter acesso a isso? Apenas os filhos daquelas pessoas que eram meus clientes no mercado financeiro e que eu achava que precisavam compreender um pouco melhor o mundo. Na época, eu já havia decidido fazer o doutorado e vi a oportunidade de ingressar no mundo acadêmico. Meu currículo foi analisado por um coordenador, que achou interessante minha trajetória: um sociólogo com experiência no mercado financeiro. Dei uma aula-teste e fui aprovado. Quem bateu o martelo da minha contratação foi uma pessoa que se tornaria muito importante na minha vida: Eduardo Giannetti da Fonseca, hoje imortal da Academia Brasileira de Letras. Ele conversou comigo para entender meu nível de conhecimento e minhas habilidades. Ao final da conversa, me disse: “Carlos, você tem o perfil que buscamos. Seja bem-vindo”. Saí da MCM e comecei a trabalhar no IBMEC. Quando fui à escola pela primeira vez, confesso que tive a seguinte impressão: “Que festa estranha com gente esquisita”. Achei que não duraria mais do que seis meses, mas já estou na escola há 25 anos.   O papel da educação Quando jovem, eu queria transformar o mundo. Tentei de várias maneiras. Fiz faculdade de Ciências Sociais, me meti com política, mas com o tempo percebi que minha verdadeira contribuição para mudar o mundo estava na educação. Uma das coisas que mais me dão alegria é ser reconhecido por ex-alunos. Digo aos meus alunos atuais que não me interessa o julgamento que farão de mim no final do semestre. O que me interessa é saber como me julgarão daqui a 10 anos. Quando um ex-aluno, formado há 10 ou 20 anos, me diz que fui importante para sua formação, isso é o ouro da nossa profissão. Em sala de aula, nunca revelei em quem voto — a única confissão que me permito fazer é que tenho o defeito de torcer para o Corinthians. Durante as aulas, discuto uma possibilidade de compreender o mundo. Eu não tento fazer a cabeça de ninguém, mas procuro ajudar os alunos a pensar. Não transmito meus valores políticos, mas meus valores em relação ao conhecimento. Cabe a cada aluno, não a mim, decidir quanto isso é importante para transformar o mundo.   Realidade complexa Em sala de aula, principalmente no mestrado de políticas públicas, eu discuto muito sobre o mundo atual, que está muito complicado. Vivemos uma revolução tecnológica que impactou profundamente a economia e desajustou a sociedade. Há muitas pessoas da sociedade analógica que não se adaptaram e não fizeram a transição para a sociedade digital. Não estou me referindo somente à tecnologia. Estou falando da mentalidade, da forma de ver o mundo. Eu gosto de exibir para os alunos um filmaço dos anos 1990 chamado Um Dia de Fúria . Quem conhece o filme sabe que a situação do sujeito interpretado por Michael Douglas é de total desolação. As pessoas ficam desoladas, e o Estado não consegue dar respostas. A democracia tem um tempo muito mais lento que a economia e a tecnologia. Com isso, há um descompasso. As pessoas começam a questionar a democracia e a procurar ajuda em outras coisas. E aí surgem o que meu amigo Sérgio Abranches [cientista político] chamou de governantes incidentais. Há uma crítica tonitruante e raivosa de que tudo está ruim. De fato, há um grande mal-estar, e as pessoas não conseguem enxergar o futuro, somente o passado. Zygmunt Bauman [sociólogo e filósofo polonês] chama isso de retrotopia. Podemos dizer que é uma utopia regressiva — no passado que tudo era pretensamente melhor. E aí se questionam todos os avanços dos últimos 50 anos, a liberação feminina, a liberdade sexual, a inclusão social. E assim temos uma grande crise que vai bater na democracia e que permite a ascensão de governantes autocráticos, pretensos salvadores da pátria, em vários lugares do mundo. Isso ocorreu também no Brasil, que tem todos os problemas do mundo, agravados por problemas que lhe são próprios.   Traduzir o mundo Tenho conversado muito com um grande amigo no Insper, Sandro Cabral. Digo a ele que, junto com outros colegas, temos a importante missão de fazer a tradução entre diferentes mundos. Nosso objetivo é que os conservadores compreendam os progressistas e que os progressistas compreendam os conservadores. É fazer com que os pobres compreendam os ricos, e vice-versa. Não se trata de estabelecer uma conciliação, pois o conflito sempre vai existir. Mas, em vez de um estranhamento mútuo, buscamos criar a possibilidade de compreensão, que talvez possibilite um diálogo. Acredito que esse é um papel crucial em uma sociedade tão dividida e polarizada, onde ninguém escuta o outro e todos se comportam como leões em redes sociais. É fundamental realizarmos essas traduções e mediações. O Insper não é uma escola sem fins lucrativos com uma missão à toa. Levamos a sério a missão de promover a transformação do Brasil por meio da formação de líderes. Aprendi muito no Insper e, como costumo dizer, formei muita gente, mas também fui formado ao longo do tempo pela instituição. É impossível negar a importância que Claudio Haddad teve nesse processo. Ele nos ensinou sobre questões e valores inegociáveis, como ética e honestidade intelectual. De certa forma, ele foi um professor dos professores.   Alguns motivos de orgulho Tenho alguns momentos de orgulho em minha trajetória. Há alguns anos, a diretoria do Bradesco me convidou para dar uma palestra para a alta gestão, na Cidade de Deus. Ao fim da palestra, fui convidado para um almoço no local. Perguntei aos presentes onde seria o almoço: no bandejão, no prédio ao lado, ou no restaurante da diretoria, no prédio em frente? Responderam que seria no restaurante da diretoria. Então perguntei: “Vamos lá por cima, caminhando pelo asfalto, ou vamos pelo túnel?”. Eles não sabiam que eu havia trabalhado ali como contínuo. Voltar ao banco, cerca de 30 anos depois, para falar com a alta direção foi um momento simbólico muito importante na minha vida. Outro momento marcante foi com Fernando Henrique Cardoso, um sociólogo sofisticado que sempre admirei. Eu lia seus artigos antes de me tornar estudante de Ciências Sociais. Fernando Henrique virou ministro, conduziu o Plano Real, depois se tornou presidente da República. Um dia, li um artigo no Estadão em que ele me citava. Isso foi importantíssimo para mim. Também tenho muito orgulho de ter dado uma palestra na Universidade de Coimbra, em Portugal, de onde meus pais imigraram para o Brasil analfabetos.   Sorte e perseverança Não me considero uma pessoa especial, mas, do ponto de vista estatístico, sei que minha trajetória, infelizmente, é uma raridade.  Sou obrigado a reconhecer que, apesar das dificuldades que enfrentei, a sociedade assimila melhor um branco do que um negro. Reconheço vários colegas pretos e pardos no Insper, e também mulheres, que chegaram a um ponto bastante elevado depois de superar muito mais dificuldades do que eu. Também não podemos desconsiderar o fator sorte. Nelson Rodrigues, um dos meus escritores prediletos, dizia que precisamos de sorte para tudo na vida. Se você abrir um Chicabon e ele não estiver em perfeitas condições, pode cair no seu pé. Até para chupar um sorvete precisamos de sorte. No Insper, costumo dizer aos meus alunos bolsistas: “Não olhe para o chão, por dois motivos. Primeiro, porque você precisa andar de cabeça erguida. Segundo, o tênis da moçada nunca vai ser igual ao seu. Mas, se tudo correr bem, o seu filho terá o que você não consegue ter agora. É preciso perseverar para que tudo corra bem”.   De pai para filho Meu filho Francisco, de 18 anos, estuda Ciências Sociais na USP. Ele passou também em Direito no Insper, mas não dava para conciliar as duas coisas e acabou optando pelas Ciências Sociais. Acredito que não tive nenhuma influência na escolha da carreira do meu filho. Na verdade, eu o desestimulei o quanto pude. Mas a pandemia marcou muito a geração do meu filho, que teve a oportunidade de conviver comigo em casa por dois anos e pouco. Eu trabalhava no escritório, e ele ficava no quarto ao lado. Às vezes, eu dava aulas online e ele ficava sentado atrás da escada, ouvindo. Eu dizia para ele: “Pô, vai fazer outra coisa, vai jogar bola!”. E ele respondia: “Não, pai, deixa eu ouvir”. No final, ele fez a sua escolha. Sempre tentei dar as condições para que o meu filho pudesse fazer as melhores escolhas. O que ele vai ser de sua vida vai depender dele mesmo, mas espero que ele tenha acesso e condições melhores do que eu tive. A realização na vida, no fim das contas, é você conseguir passar para o seu filho, além de valores importantes, condições melhores do que você mesmo teve. Meu pai, certamente, me deu condições muito melhores do que ele teve. Espero que meu filho dê condições ainda melhores para os filhos dele, para que possam ir mais longe e fazer mais. Meu filho quis estudar Ciências Sociais porque quer compreender o mundo. Que ele possa compreendê-lo melhor do que eu e que também possa explicá-lo melhor do que eu. Bom mestre, melhor discípulo.  "}]