[{"jcr:title":"Trama urbana"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"Trama urbana","jcr:description":"Em “Metrópole”, o inglês Ben Wilson entrelaça passado, presente e futuro para tecer a história daquelas que são consideradas a maior invenção da humanidade: as cidades"},{"subtitle":"Em “Metrópole”, o inglês Ben Wilson entrelaça passado, presente e futuro para tecer a história daquelas que são consideradas a maior invenção da humanidade: as cidades","author":"Ernesto Yoshida","title":"Trama urbana","content":"Em “Metrópole”, o inglês Ben Wilson entrelaça passado, presente e futuro para tecer a história daquelas que são consideradas a maior invenção da humanidade: as cidades Movimento de carros e pessoas em Lagos, na Nigéria, uma das cidades descritas na obra   Heloisa Loureiro Escudeiro*   Como contar a história de nossas cidades partindo, claro, de fatos passados, mas, sobretudo, mirando na construção de um futuro urbano – e metropolitano? Esse foi o desafio encarado pelo historiador inglês Ben Wilson no livro Metrópole: A história das cidades, a maior invenção humana , publicado internacionalmente em 2020 e que acaba de sair no Brasil. Utilizando uma “construção” – com o perdão da palavra, um “trocadilho de imagem” – de narrativas urbanas como principal recurso, Wilson percorre a história da humanidade pela pista das urbes. Nessa trajetória, monta uma linha do tempo fundada numa extensa pesquisa bibliográfica, incluída nas notas do estudo, complementada de maneira extraordinária pelas visitas que realizou ao longo do desenvolvimento da obra. O livro se divide em 14 capítulos, cada qual dedicado mais profundamente a uma cidade, com um intervalo total compreendido entre os anos de 4000 a.C. e 2020 d.C. Autores de diferentes áreas já propuseram suas versões para a história das cidades e metrópoles globais. Entretanto, o que há de peculiar na proposta de Wilson? Um primeiro ponto que diferencia o trabalho monumental do pesquisador inglês é apresentar a história de uma determinada cidade estabelecendo comparações entre os fatos passados dela com outras urbes contemporâneas, situando vínculos e levantando, inclusive, projeções futuras. Como resultado, os capítulos têm uma estrutura marcada entre história passada e história presente, intercalando localizações temporais e espaciais da humanidade. Outro elemento sublinhado pelo autor é a demonstração da capacidade de adaptação das cidades – seja frente a crises sanitárias e guerras, seja quanto a aspectos econômicos e socioambientais. “’ Mas a história da urbanização é, em grande parte, a história da adaptação dos humanos ao meio ambiente variável, bem como da adaptação que os humanos impõem ao meio ambiente para atender às suas necessidades”, anota Wilson. Foi assim que, segundo ele, as cidades conseguiram viver para além de suas primeiras populações, evoluindo e mudando de forma. Isso ocorre porque, de acordo com o historiador, embora a estrutura física construída possa entrar em ruínas, não é ela que define uma autêntica urbe: “Uma cidade nunca é apenas uma coleção de construções: não é tanto sua fisicalidade que a diferencia de outros assentamentos, mas as atividades humanas que ela incuba.”  Essa característica nos leva a mais um fundamental aspecto do estudo apresentado por Wilson: diferentemente de outros autores, para ele as construções são importantes e auxiliam na construção histórica das cidades, evidentemente, porém sua essência sempre estará no ser humano que nelas vive e experiencia.   O historiador Ben Wilson (crédito foto: divulgação/Liz Seabrook)   Lendo Metrópole , é impossível não realizar uma conexão direta do livro com os trabalhos de placemaking [[1]](#_ftn1) e a compreensão do ambiente urbano nas dimensões de (i) habitabilidade, (ii) atividades, (iii) acessibilidade e (iv) equidade e sociabilidade. Ainda que não utilize essas categorias como instrumento declarado de análise, ao descrever as cidades apresentadas na obra, o historiador flagra como os cidadãos de cada época viviam e vivem, trazendo com precisão para o leitor diversas facetas do cotidiano da população.  Em mais de uma situação, Wilson chega a descrever os tempos e os modos de deslocamento entre as atividades desempenhadas pelos habitantes de uma urbe, em especial para terem acesso aos templos de sua era, com indicativos até mesmo de sensações de barulho ou odor lá presentes. As atividades econômicas, como não poderia ser diferente, aparecem com destaque no decorrer das páginas do livro, não apenas do ponto de vista de sua importância local como também da maneira pela qual a distribuição da produção impactou enormemente regiões longínquas umas das outras – com ampla profusão de experiências entre as mais diversas civilizações. Socialmente, o autor destaca ainda as desigualdades entre homens e mulheres, até mesmo no que diz respeito à sexualidade. Embora seja escrita por um historiador, a obra vai além de uma visão purista de fatos distribuídos pelos milênios que percorre, trazendo à tona aspectos de geografia, sociologia, arquitetura, arte, religião etc., mergulhando o leitor naquele cenário com todos os seus sentidos. Por fim, é preciso fazer uma ressalva: ainda que Tenochtitlán (México) receba destaque em um dos capítulos, as grandes cidades das Américas Central e do Sul são mencionadas apenas em recortes comparativos, sem aprofundamento. Isso, todavia, não reduz a importância, tampouco a potência de Metrópole, na medida que, mesmo considerando o tamanho do desafio que Wilson se impôs, o livro consegue ser bastante assertivo e inovador. O triunfo de sua narrativa faz lembrar o que escreveu certa vez Eric Hobsbawm (1917-2012), britânico nascido no Egito e que foi provavelmente o maior historiador do século XX: “A história não pode se esquivar do futuro”. * Heloisa Loureiro Escudeiro é coordenadora-adjunta do Núcleo Arquitetura e Cidade   METRÓPOLE: A HISTÓRIA DAS CIDADES, A MAIOR INVENÇÃO HUMANA, de Ben Wilson Tradução de Odorico Leal Companhia das Letras Disponível nas versões impressa (496 páginas, R$ 127,84) e digital (R$ 49,90) [1] Para conhecer mais sobre esse tema, leia: [FOCO NA QUALIDADE E NO USO COLETIVO DOS ESPAÇOS PÚBLICOS](https://www.insper.edu.br/noticias/foco-na-qualidade-e-no-uso-coletivo-dos-espacos-publicos/) e [VÃO LIVRE DO MASP REPRESENTA OPORTUNIDADE DE USO DEMOCRÁTICO DA METRÓPOLE](https://www.insper.edu.br/noticias/vao-livre-do-masp-representa-oportunidade-de-uso-democratico-da-metropole/) . Ainda a respeito desse assunto, outra sugestão: o arquiteto dinamarquês Jan Gehl desenvolveu e aplica o placemaking em seu trabalho; a resenha de seu livro Cidades para pessoas , um clássico, está aqui: [https://www.insper.edu.br/noticias/humanas-demasiado-humanas/](https://www.insper.edu.br/noticias/humanas-demasiado-humanas/) Por falar em clássico, a abordagem de Ben Wilson remete muitas vezes a outra obra essencial, Morte e vida nas grandes cidades , da norte-americana Jane Jacobs, resenhada na edição de estreia da newsletter InsperCidades : [https://www.insper.edu.br/noticias/paginas-de-ativismo-urbano/](https://www.insper.edu.br/noticias/paginas-de-ativismo-urbano/)  "}]