[{"jcr:title":"“Fui picada pelo bichinho da gestão pública”"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"“Fui picada pelo bichinho da gestão pública”","jcr:description":"A jornada da professora Ana Diniz, que trocou a Biologia pela Administração e vem atuando para promover a igualdade de gênero no trabalho"},{"subtitle":"A jornada da professora Ana Diniz, que trocou a Biologia pela Administração e vem atuando para promover a igualdade de gênero no trabalho","author":"Ernesto Yoshida","title":"“Fui picada pelo bichinho da gestão pública”","content":"A jornada da professora Ana Diniz, que trocou a Biologia pela Administração e vem atuando para promover a igualdade de gênero no trabalho (foto: Taba Benedicto/Estadão)     Mineira de Sete Lagoas, cidade a 70 quilômetros de Belo Horizonte, a professora Ana Diniz está desde 2021 no Insper, onde coordena o Núcleo de Estudos de Diversidade e Inclusão no Trabalho, em parceria com o professor Fernando Ribeiro. Leciona disciplinas sobre globalização, sustentabilidade e gestão em ambientes interculturais e diversos. Suas áreas de pesquisa incluem temas como desigualdades no trabalho, políticas públicas de gênero e para mulheres, políticas de inclusão e estratégia de diversidade e inclusão. Antes de se dedicar a esses temas, a professora Ana — que acabou de ser anunciada como nova coordenadora do curso de graduação em Administração do Insper — enveredou por um caminho distinto. “Eu tinha por volta de 18 anos quando me mudei para Belo Horizonte. A primeira graduação em que entrei foi Ciências Biológicas. Eu queria trabalhar em laboratório, em particular com fármacos”, conta. Para se manter enquanto estudava, Ana começou a trabalhar em bares e restaurantes. Ela foi se envolvendo cada vez mais com o trabalho, e a Biologia foi perdendo sentido. Decidiu largar o curso e prestar vestibular novamente. “Nessa época, eu era gerente de um pequeno restaurante. Decidi estudar Administração porque queria ser gestora. Achava que um dia ia me tornar empresária e ter meus próprios bares e restaurantes.” Em 2005, entrou no curso de Administração da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Foi quando começou a se interessar pela parte acadêmica da Administração, algo que nem imaginava que existia. “Participei do Programa Educação Tutorial, o PET, que ajuda a inserir estudantes da graduação na vida acadêmica. Depois, comecei a trabalhar no Núcleo de Estudos Organizacionais e Sociedade da universidade. Foi quando comecei a ter mais contato com o tema das desigualdades no trabalho.” Depois de terminar a graduação, em 2009, emendou um curso de mestrado em Administração, também na UFMG. “Eu estava interessada em compreender as medidas que as organizações adotavam para lidar com as desigualdades de gênero. Mergulhei no universo das práticas de gestão das empresas privadas, no que se refere à maneira de combater as desigualdades de gênero e promover ambientes mais inclusivos e diversos.” Ao terminar o mestrado, em 2012, Ana diz que ficou “com uma pulga atrás da orelha”: estava cada vez mais claro para ela que não dava para discutir a questão da desigualdade sem considerar o papel do Estado. Nesse mesmo ano, recebeu um convite para trabalhar no governo de Minas Gerais, no Escritório de Prioridades Estratégicas, uma secretaria que prestava assessoria para outros órgãos do governo estadual. “Foi nessa época que fui picada pelo bichinho da gestão pública.”, conta. “Eu atuava em uma política específica chamada Gestão e Alocação de Empreendedores Públicos. Basicamente, o que fazíamos era estruturar um processo de recrutamento, seleção, alocação e, posteriormente, monitoramento e avaliação de profissionais designados para atuar em políticas estratégicas do governo.” Esse trabalho, segundo Ana, lhe permitiu ter uma visão mais ampla da atuação do governo. O “bichinho da gestão pública” mordia cada vez mais forte. Em 2014, ela mudou-se para São Paulo e passou a atuar na Nexo Investimento Social, prestando assessoria para organizações de terceiro setor na apresentação de projetos ao governo. Em 2015, iniciou o doutorado em Administração Pública e Governo na Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP). Em sua tese, analisou uma política pública na qual o Estado tentava induzir práticas de gestão inclusivas nas empresas. Concluiu o doutorado em 2019, incluindo um período sanduíche na Universidade de Aston, em Birmingham, no Reino Unido.   E veio a pandemia Logo depois de terminar o doutorado, surgiu a oportunidade para Ana lecionar na Universidade de Essex, que fica na cidade de Colchester, também no Reino Unido. Lá foi ela com o marido, Amon Barros, também professor (é docente na FGV-EAESP) e com a filha Iara, ainda bebê (hoje está com 4 anos). “Fomos sem a passagem de volta, pois a intenção era mesmo de nos estabelecer por lá”, diz Ana. Era sua primeira experiência efetivamente como docente. Mas um acontecimento de repercussão global acabou alterando seus planos: a crise da covid-19. “Com a pandemia, veio a impossibilidade de voltarmos ao Brasil nas férias. Isso nos levou a refletir sobre a importância dos laços familiares. Em certa medida, iríamos privar a Iara de criar laços afetivos que consideramos fundamentais, especialmente com os avós, tios e primos.” E a oportunidade de retorno veio com o Insper. Enquanto estava no Brasil, ela já havia tido alguns contatos com a escola, participando de eventos para coletar dados para sua tese. “Um dia visitei o Insper e fiquei impressionada com o ambiente. Eu pensei: que lugar legal, quero trabalhar aqui um dia. Tempos depois, até encaminhei meu currículo.” No Reino Unido em plena pandemia, Ana, o marido e a filha enfrentavam as dificuldades do isolamento social. “A pandemia mudou nossas prioridades e decidi bater à porta do Insper novamente. Participei de um processo seletivo e fiz uma aula-teste, tudo virtualmente, e a mudança que começou como algo mais pessoal rapidamente se tornou uma grande oportunidade profissional. Em 2021, comecei a trabalhar no Insper.” No início, Ana precisou encarar o desafio de dar aulas remotamente. “Nesse momento de transição, eu contei com o grande apoio da área de Desenvolvimento de Ensino e Aprendizagem (DEA) do Insper, que me orientou e auxiliou na adaptação”, lembra. Hoje, passados pouco mais de dois anos, ela acredita ter sido possível criar um espaço importante para diálogo, tanto dentro quanto fora do Insper, com o propósito de gerar pesquisas, dados, produtos e ideias relacionados à participação das mulheres no mercado de trabalho. “Esse engajamento ativo em debates sobre diversidade e inclusão tem sido uma realidade para mim desde o segundo semestre do ano passado e, obviamente, não sou a única envolvida nesse processo. Diversas pessoas dentro da escola estão promovendo essa agenda, incluindo a Comissão de Diversidade e Inclusão, o grupo Women in Tech, os cursos no âmbito do Centro de Gestão e Políticas Públicas e os cursos voltados para o setor privado na área de Educação Executiva.” Sobre a questão da desigualdade de gênero no Brasil, a professora afirma que ainda há muito a ser feito. “Embora tenhamos obtido avanços em algumas áreas, como na saúde e na educação, a desigualdade persiste e afeta de forma desproporcional mulheres negras, periféricas, pobres e as que vivem nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país.” Além disso, ressalta, é importante entender que os avanços na igualdade de gênero não costumam ocorrer de forma linear, mas de maneira oscilante. “Nos últimos anos, vimos a desestruturação de políticas que haviam sido implementadas, o que teve impactos negativos em nossos resultados atuais. A pandemia também representou um desafio significativo, especialmente porque o isolamento social levou as mulheres a assumirem uma carga ainda maior de trabalho doméstico e de cuidados, devido ao fechamento de escolas e creches. Também enfrentamos retrocessos devido a crises econômicas, que tendem a afetar mais severamente os grupos desprivilegiados, entre eles as mulheres”, afirma.   Ana Diniz com o marido, Amon Barros, e a filha, Iara, na Inglaterra   Nos intervalos Conheça um pouco mais sobre as atividades de Ana Diniz fora da sala de aula   Um hobby “Em Minas Gerais, tudo gira em torno de comida. Sem comida, não tem festa”, diz a professora Ana. “Eu tenho um grande prazer em cozinhar, receber pessoas em minha casa e explorar novos lugares para comer. Essa é uma coisa que realmente me encanta.” Diante das atribulações do dia a dia, sobra tempo para cozinhar somente nos fins de semana. O que a professora gosta de preparar? Comida mineira, claro. “Trabalhei por um bom tempo em restaurantes, incluindo um bistrô refinado. No entanto, venho de uma cidade do interior de Minas, onde a culinária é bem diferente. Na época, minha cidade era pequena, quase uma área rural, sem asfalto nas ruas, e meus pais vêm de uma região ainda mais remota, o sertão de Minas”, diz. “Isso significa que minha referência alimentar inclui coisas como frango, feijão preparado de várias maneiras, pequi e carne de sol. Cresci com esses sabores e tento manter as conexões com a culinária do interior mineiro.”   Séries de TV Ana Diniz diz ser “absolutamente viciada” em séries de TV. “Eu adoro. Às vezes, tenho que me controlar um pouco. Também costumava ir bastante ao cinema, mas a pandemia desorganizou um pouco essa rotina.” Entre as séries que viu recentemente, ela recomenda Mrs. America , estrelada por Cate Blanchett, sobre as lutas feministas nos anos 1970. “É uma série curta, que aborda a emergência de lideranças políticas à direita nos Estados Unidos e como elas mobilizam donas de casa para participar da vida política. Achei essa série muito bem-feita e relevante para refletir sobre questões do feminismo tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil.” Outra produção que Ana recomenda é The Wire , uma série policial da TV norte-americana. “A série, criada por um jornalista [David Simon] que cobria assuntos policiais em Baltimore, é densa e nos faz refletir muito”, diz Ana. “Essa é a minha favorita. Meus alunos do PAGP (Programa Avançado em Gestão Pública) são obrigados a me ouvir falar sobre essa série todos os semestres”, brinca.   Podcasts Sempre que pode, Ana Diniz está com um fone ouvindo algum podcast. Um dos que causaram mais impacto nela é “ [Praia dos Ossos](https://radionovelo.com.br/originais/praiadosossos/) ”, produzido pela Rádio Novelo e conduzido por Branca Vianna. Trata-se de uma série que aborda o assassinato da socialite Ângela Diniz, morta em 1976 numa casa na Praia dos Ossos, em Búzios (RJ), com quatro tiros disparados por seu então namorado, Doca Street. “O podcast narra o processo judicial e as consequências do assassinato de Ângela Diniz, explorando detalhes e reflexões fascinantes sobre o crime e o julgamento da época. Isso é especialmente relevante para repensar o combate à violência doméstica e à violência contra as mulheres no Brasil”, diz Ana. A professora está agora explorando o tema do punitivismo e antipunitivismo em uma série chamada “ [Crime e Castigo](https://radionovelo.com.br/originais/crimeecastigo/) ”, também produzida pela Rádio Novelo. “A série discute como podemos abordar o crime de maneira mais eficaz por meio de políticas públicas e ações alternativas. Esses podcasts têm sido os mais marcantes para mim entre todos que ouvi.”   Livros Com as atividades acadêmicas tomando o dia a dia, Ana Diniz tem dedicado menos tempo do que gostaria à leitura de obras literárias. “No entanto, eu realmente gosto de ler e tenho alguns livros que me marcaram muito. Meio Sol Amarelo , da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, é um livro maravilhoso. Adoro romances históricos, e este livro, além de ser envolvente, também nos ensina muito sobre o contexto em que se passa. Recomendo fortemente.” Outro livro que a deixou impressionada foi Clarice: uma biografia , de Benjamin Moser. “A biografia é muito bem-escrita e traça um panorama histórico fascinante da vida de Clarice Lispector”, diz Ana. Mas o livro que mais mexeu com a professora foi Por Quem os Sinos Dobram , escrito pelo norte-americano Ernest Hemingway em 1940. “Foi o livro que mais me impactou. Claro, há diferentes interpretações e debates sobre a obra, pois algumas pessoas amam e outras odeiam. O que mais me intrigou foi que toda a trama se passa em apenas três dias e retrata de forma absurda os horrores da guerra. Fiquei perturbada ao pensar em como chegamos a esse ponto e como naturalizamos tais atrocidades. Para mim, a obra trouxe uma reflexão poderosa sobre a insanidade da guerra.”   Um propósito “Na minha jornada, a minha energia tem sido canalizada para a busca da promoção da autonomia das mulheres e da superação das desigualdades de gênero. É isso que me move há muito tempo”, diz a professora Ana, ao ser questionada se teria um projeto de vida ou algo que ainda pretende alcançar em sua trajetória. “Eu considero que minha contribuição nisso é pequena, quase irrisória, mas eu diria que esse é o meu projeto de vida. É um trabalho de formiguinha, mas quero lutar para que as mulheres possam ser o que quiserem.”   Ana Diniz e Iara na cidade inglesa de Colchester  "}]