[{"jcr:title":"As muitas formas de transformar os ideais em políticas públicas"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"As muitas formas de transformar os ideais em políticas públicas","jcr:description":"A economista Mariana Almeida, professora do PAGP do Insper, conta como se aproximou dos estudos e projetos em gestão pública"},{"subtitle":"A economista Mariana Almeida, professora do PAGP do Insper, conta como se aproximou dos estudos e projetos em gestão pública","author":"Ernesto Yoshida","title":"As muitas formas de transformar os ideais em políticas públicas","content":"A economista Mariana Almeida, professora do PAGP do Insper, conta como se aproximou dos estudos e projetos em gestão pública   Leandro Steiw   Era final da década de 1990, um momento de abertura da economia, da introdução de novas tecnologias e de fechamento de postos de trabalho. A paulistana [Mariana Almeida](https://www.insper.edu.br/pesquisa-e-conhecimento/docentes-pesquisadores/mariana-almeida/) escolheu a graduação em Economia — e, simultaneamente, em Relações Internacionais — motivada pela preocupação com o futuro do emprego no Brasil. “Eu queria entender o processo de produção e o que estava acontecendo com o emprego, mas também me interessava pela ciência política”, conta uma das primeiras docentes do [Programa Avançado em Gestão Pública](https://www.insper.edu.br/pos-graduacao/programas-avancados/pos-graduacao-em-gestao-publica/) (PAGP) do Insper. “De alguma maneira, portanto, os interesses foram conduzindo para a área de política pública.” Na faculdade, ela conheceu pessoas que trabalhavam com economia solidária e inclusão produtiva, basicamente de formação de pequenas cooperativas e empreendimentos sociais nas periferias, gestadas na prefeitura de São Paulo. Na época, as tentativas de microcrédito não deram muito certo, desvelando a dificuldade, até então desconhecida para ela, da implementação de políticas públicas. “Quando nos aproximamos do poder público, percebemos que o gestor não consegue fazer tudo”, diz Mariana. “É muito mais fácil criticar uma política pública do que fazer uma boa política pública.” Para contextualizar esses passos iniciais na carreira, 2001 foi o ano do primeiro Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre. “Fui a todos os Fóruns”, conta. “Era um momento de efervescência, de muita discussão, de um sentimento de que havia outras formas de fazer governo e política”, afirma Mariana. “A gente estudava e entendia que não se tratava de só melhorar as condições de vida nas periferias, mas de uma visão de mundo mesmo e, nesse sentido, havia uma ação política envolvida.” Foi a partir de um grupo de estudos em economia popular e solidária que Mariana passou uma semana na Venezuela, no auge da bonança dos lucros das exportações de petróleo sobre a economia e as políticas sociais do vizinho sul-americano. Acabou sendo convidada e ficando dois anos por lá para trabalhar no Ministério da Economia Popular, uma pasta recém-criada que tentava assimilar tecnologias de outros países em pequenos empreendimentos, e depois no Ministério da Agricultura. “Falava-se do socialismo do século 21, e eu estava curiosa para saber o que estava acontecendo de verdade”, afirma. Já formada em Economia pela Universidade de São Paulo e insatisfeita com o trabalho no Brasil, com exportações na área privada, aceitou o convite do governo Hugo Chávez (1954-2013). “O ministro falava para criarmos políticas públicas que ajudassem o país a começar a produzir alimentos”, recorda. “Foi uma fase estimulante de ver a política pública nascer quase do zero. E a gente errou muito, porque nem tudo dá certo. Mas foi interessante. É difícil falar dessa fase porque muitos têm muito preconceito em relação à Venezuela. Elas conhecem pouco do país e falam só na parte ruim.” Mariana comenta: “Com o tempo, percebi como é difícil fazer política pública. E me senti despreparada para fazer o que estava fazendo. Era muito jovem, estava com 23 ou 25 anos, criando políticas de subsídio e coisas assim. Eu não tinha estudado e não tinha as competências para aquilo. E senti falta de formação cultural também, porque existem coisas que são culturais na reação. Você tem que entender como a cultura local assimila determinadas fórmulas e demandas. Então, decidi voltar para o Brasil, terminar a minha faculdade de Relações Internacionais e fazer o mestrado em Economia [ambos na PUC de São Paulo]”. Nos anos seguintes, focou na atuação política. Foi candidata a vereadora pelo PSOL, em 2008, mas não se elegeu. A mídia, como era de se esperar, cobrou-a por ser filha de um diretor de banco privado e concorrer por um partido de esquerda. Trabalhou com o deputado Ivan Valente na Câmara dos Deputados, em Brasília, onde acompanhou a tramitação de projetos de lei e aprendeu sobre negociação. Em 2015, assumiu o cargo de chefe de gabinete da Secretaria Municipal de Saúde da capital paulista. Um ano depois, terminou o doutorado em Economia, pela FEA-USP. A atividade de professora não chegou a ser uma novidade. Nos tempos da faculdade, já participava de cursos de Economia em escolas públicas. No Insper, ministra aulas no PAGP e na educação executiva. Ainda acumula o cargo de diretora executiva da Fundação Tide Setubal, onde está engajada nas ações no Jardim Lapena, um bairro no distrito de São Miguel Paulista, na cidade de São Paulo. “Acredito que está se formando uma rede de gestores com vontade de fazer diferença na gestão pública brasileira e também quero participar deste movimento positivamente”, diz Mariana. Na citação de suas preferências, vai ficando nítida a curiosidade de Mariana pela maneira como as pessoas são moldadas por sua época e como são capazes de, ao mesmo tempo, fazer a diferença na história e na política. Como se percebe abaixo, o valor dos ideais que movem as pessoas transparece nas citações de projetos, livros, filmes e personalidades. Nos intervalos Conheça um pouco sobre como Mariana Almeida ocupa seu tempo fora da sala de aula   Hobby “Eu sou mãe, e isso ocupa um espaço grande da vida (risos) . Mas eu ando de bicicleta. Também nisso o Insper me ajudou, porque a escola está no caminho da ciclovia da Avenida Faria Lima, e isso me levou de volta para a bicicleta, que é uma coisa de que gosto bastante.”   Livros “Para além da economia, gosto muito da literatura escrita por mulheres e que contam fatos históricos, que me aproximam de culturas a partir do olhar de escritoras. Entre as africanas, descobri a moçambicana Paulina Chiziane e a nigeriana Buchi Emecheta (1944-2017). Gosto da chilena Marcela Serrano, que tem um livro bonito em espanhol, Nosotras que nos queremos tanto (1991), um encontro de mulheres que viveram histórias distintas na época da ditadura no Chile e no pós-ditadura, buscando essa identidade de mulher, mãe, ativista, cada uma de um lugar e classe social diferente. Recomendo um livro bonito do angolano Pepetela, chamado A Geração da Utopia (1992), sobre as fases da vida das pessoas e como essa questão da sociedade e dos movimentos políticos mexem nas identidades. Acho superinteressante pensar que a História é também a forma como as pessoas interagiram e puderam interagir dentro de uma determinada perspectiva. Maurício Rosencof e Eleutério Fernández Huidobro escreveram um livro lindo chamado Memórias do Calabouço (2020), sobre o tempo em que ficaram presos e incomunicáveis pela ditadura no Uruguai. Ele também fala no Pepe Mujica na prisão. Como é que uma pessoa passa por aquilo por 11 anos e resolve ainda ser ministro da Economia e, depois, presidente. É incrível como cada pessoa processa o que vive.”   Cinema “Assisti recentemente ao filme Argentina, 1985 (2022), do diretor Santiago Mitre. Aquele processo de formação dos jovens advogados é legal, quando o promotor está fazendo a seleção da equipe. Era por falta de opção, mas tinha estratégia naquilo. Acho superinteressante como a História e a política são feitas por indivíduos. Perceber que o esforço pessoal faz diferença. Fiquei curiosa em saber quem são essas pessoas hoje em dia, como está a vida delas.”   Personalidade que admira “Eu citaria duas. Admiro muito a minha chefe na Fundação Tide Setubal, a Neca Setubal. Poder ter uma liderança mulher próxima faz muita diferença. Ela vem de uma família super-rica, só de homens, irmãos homens, perdeu a mãe, e ela mantém esse lugar, esse olhar do feminino, que é o feminino que agrega, que dá o maior potencial para os outros. Mãe que quer olhar o filho e ver o melhor, empurrá-lo para cima. Ela tem esse olhar não só com os filhos dela, mas com quem passa pela vida dela. Tem uma personalidade pública que eu também acho fundamental neste momento histórico, que é o Nelson Mandela. É meio batido, mas não acho que seja trivial. Quando você pensa nessa possibilidade do indivíduo e da diferença na História, o Mandela é um caso de resistência, de quem passa pelo pior que o mundo pode fazer alguém passar, em alguma medida, de novo da prisão. E é capaz de ressignificar a sua própria raiva, o seu sentimento, e construir, em outras bases, alternativas para as pessoas. Então, como a questão racial é um tema muito importante para nós, acho que o Mandela é uma liderança e uma personalidade que me inspira bastante.”   Planos para o futuro “A Fundação Tide Setubal tem uma relação de confiança com a comunidade do Jardim Lapena há mais de 15 anos. É um bairro bem delimitado, com várias vulnerabilidades e, quando cheguei à Fundação, há quatro anos, me perguntei se conseguiríamos fazer as coisas darem certo. Tenho um longo histórico de frustrações em tentativas de gerar desenvolvimento e apoiar empreendimentos sociais. Nesse bairro, temos trabalhado para dar certo. Fizemos o material da mudança junto com o Insper. O primeiro objetivo é acabar com os alagamentos, que enchem as casas de água e afetam a dignidade das pessoas, por meio de um projeto de engenharia que discutimos e doamos para a prefeitura e que, talvez, seja construído até janeiro de 2025. Profissionalmente, espero muito o momento de conseguir virar o jogo do desenvolvimento desse bairro.”  "}]