[{"jcr:title":"As estratégias de um pesquisador para dominar o tempo"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"As estratégias de um pesquisador para dominar o tempo","jcr:description":"Sandro Cabral, professor de Estratégia e Gestão Pública do Insper, conta como futebol, literatura, música e cinema moldaram o futuro profissional da Administração"},{"subtitle":"Sandro Cabral, professor de Estratégia e Gestão Pública do Insper, conta como futebol, literatura, música e cinema moldaram o futuro profissional da Administração","author":"Ernesto Yoshida","title":"As estratégias de um pesquisador para dominar o tempo","content":"Sandro Cabral, professor de Estratégia e Gestão Pública do Insper, conta como futebol, literatura, música e cinema moldaram o futuro profissional da Administração   Leandro Steiw   Enquanto os ponteiros do relógio giram no final de uma sexta-feira, o professor Sandro Cabral fala animadamente sobre assuntos diversos com a mesma desenvoltura que pesquisa e ensina em cursos de estratégia. O tempo, para quem gosta de conversar, é uma dimensão a dominar. Professor titular de Estratégia e Gestão Pública do Insper e professor licenciado da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Sandro mora em Salvador e trabalha em São Paulo. Vive, portanto, em periódica ponte aérea. Criado na Zona Leste paulistana e egresso de escola pública estadual no período noturno, Sandro não reclama porque a corrida contra o tempo parece ser uma constante desde sempre. No final da década de 1980, na capital paulista, quando era comum cruzar com grupos de garotos pagando contas nos bancos e entregando documentos a pé ou de ônibus, Sandro foi um desses prestativos e céleres office boys. Tinha 14 anos e conciliava o expediente com as aulas noturnas do então chamado 2º grau. Os ponteiros corriam ainda mais rapidamente na primeira carreira que considerou: jogador de futebol. Torcedor do Palmeiras, atuou de meia na categoria de base do Corinthians e defendeu a equipe da cidade de São Carlos no campeonato paulista de futsal, atuando como ala, já cursando Engenharia de Produção na Universidade Federal de São Carlos. No fim das contas, a prática do esporte mais popular do Brasil aguçou ainda mais a percepção da realidade. “Naquela mistura de classes, vi como o futebol agregava as pessoas. Afinal, após os jogos, samba e cerveja uniam adversários, mas ao mesmo tempo o futebol explicitava certas tensões. Nas brigas nas quadras, nas ameaças de pessoas armadas em volta dos campos de várzea, a violência sempre esteve por perto e o brasileiro não parecia nada cordial”, recorda. “Na década de 1980, a realidade que me cercava era de pobreza e carência, com todos lutando para sobreviver. Por isso, sabia que teria que trabalhar logo também. Era um ambiente hostil no qual precisava me impor para ser legitimado.” Filho de operário da indústria têxtil, Sandro foi estudar Engenharia, que, em muitos casos, nem que seja no imaginário, acena com oportunidades promissoras. Mesmo em um curso basicamente dedicado à precisão dos números, aquelas antigas questões do mundo permaneceram vivas. “Após seis meses como office-boy, fui trabalhar como cronometrista na empresa em que meu pai trabalhava”, diz. “Escolhi Engenharia de Produção, mas cultivando aquela história de indignação com as desigualdades e as mazelas do mundo.” Além de gerenciar seu próprio tempo, Sandro se ocupava em definir a duração dos ciclos de trabalho dos operários, com quem, naturalmente, compartilhava as quadras de futsal antes de entrar na faculdade. A Engenharia até que deu certo. Formado há 26 anos, pouco depois mudou-se para a Bahia como funcionário de uma empresa multinacional no Polo Petroquímico de Camaçari.  Atualmente, todo o núcleo familiar — incluindo pai, mãe, irmão, sobrinhos, sua companheira, Renata, e suas filhas, Luiza e Letícia — mora em Salvador. “Adoto o argumento do tenista Fernando Meligeni para quem dizia que ele não era brasileiro, pois havia nascido na Argentina: sou mais daqui que muita gente, porque tive a opção de escolher”, afirma Sandro. Fato é que, no futebol, a camisa alviverde ainda é imponente, mas a tricolor do Bahia transformou-se numa espécie de agradável segunda pele. Na trajetória profissional, as políticas públicas tomaram lugar privilegiado depois do mestrado em Administração, ainda empregado no Polo Petroquímico. “Certo dia, resolvo largar tudo para fazer doutorado e dar aulas à noite, em faculdades privadas”, conta. “E precisava buscar um tema para a tese. Meu orientador, Marcos Alban, me repassou um artigo do jornalista Luis Nassif a respeito das primeiras terceirizações de presídios no Brasil e sugeriu que eu pensasse fora da caixa.” Quatro anos antes, Sandro lera Estação Carandiru , relato do período de voluntariado do médico Drauzio Varella na Casa de Detenção de São Paulo. Em 2003, ano do início de seu doutorado, o livro virou filme. “Vi a minha tese na frente da tela”, recorda. “Qual era a principal deficiência das prisões? Era gestão. Então, me enveredei nessa pesquisa. De repente, faço um ano de sanduíche na França, na Universidade de Paris 1, Panthéon-Sorbonne, entro em um grupo que trabalhava com questões de desempenho no setor público e me vejo a estudar parcerias público-privadas, uma lei que havia sido aprovada recentemente no Brasil.” A virada definitiva surgiu de conversas regadas a cerveja, na Córsega, em 2006, com o professor e pesquisador Sérgio Lazzarini, outro engenheiro que elegeu a pós-graduação em Administração. Lazzarini insistiu que o trabalho de Sandro se encaixava na área de estratégia e ia além da gestão pública. “Foi uma das pessoas que mais viram valor em mim, muito mais do que eu mesmo via e vejo até hoje”, diz. “E acabei me direcionando para a estratégia ligada ao setor público, sempre em questões que me permitam pensar em melhorias na vida das pessoas por meio da organização de governos.”   Nos intervalos Conheça um pouco mais sobre as atividades de Sandro Cabral fora da sala de aula   Muito do sucesso no futebol vem da estratégia em campo. No caso de Sandro, identificar relações com caminhos profissionais futuros é uma dessas curiosidades da vida. Aquela indignação com as desigualdades escoada na Administração, complementada pela perspectiva do engenheiro que tudo quer consertar, decorre de diversas experiências pessoais e culturais. Cinema, música e literatura, por exemplo. Instigado pelo repórter, o professor encontra tempo para rememorar e listar algumas das preferências que moldaram a individualidade do jovem office boy, praticante de futsal, estudante universitário e garoto da periferia na procura da transformação das velhas formas do viver.   Hobby “Eu operei o joelho em 2003, após uma lesão num jogo com operários do Polo Petroquímico. Recuperado, voltei a jogar futebol e futsal, duas a três vezes por semana, inclusive participando de campeonatos amadores aqui em Salvador. Mas, oito anos depois, tive que fazer uma cirurgia de quadril e parar de vez. Não posso correr, sob o risco de ter que colocar uma prótese. Então, já que não podia mais jogar, passei a gostar ainda mais de assistir aos jogos em estádios. Tenho prazer de ver futebol no estádio, de ouvir o canto das torcidas, de observar a catarse de quem está ao lado, e, claro, do pré-jogo, seja no Dique do Tororó ou na Rua Caraíbas, quando estou em São Paulo. O fato de ter jogado um pouquinho de bola na vida me permite olhar o jogo e ver beleza em certas coisas, como o movimento dos atletas sem a bola.”   Livros “Dois livros determinaram um pouco da minha personalidade e das minhas escolhas. Um foi Feliz Ano Velho , do Marcelo Rubens Paiva, que li aos 14 anos de idade, quando era office boy. Aquele livro caiu na minha mão e após lê-lo decidi que queria morar em uma república. Outro foi O Lobo da Estepe , do Hermann Hesse (1877-1962). Dele, li antes Demian , mas O Lobo da Estepe foi o definitivo, de me permitir identificação com aquele personagem. Tempos depois li O Estrangeiro e A Peste , do Albert Camus (1913-1960), que foram perturbadores, mas moldaram meu caráter. Recentemente, li Jules e Jim , romance do Henri-Pierre Roché (1879-1959), que virou roteiro do filme do François Truffaut (1932-1984). Uma amiga me deu o livro no ano passado, porque sabe que sou fanático pelo longa-metragem. O filme foi transformador para mim. Engraçado que foi transformador para Milton Nascimento e Márcio Borges, de quem gosto muito na música. E o último que li foi Povo de Deus , do antropólogo Juliano Spyer, uma etnografia interessantíssima feita numa comunidade de evangélicos.”   Cinema “ O Poderoso Chefão , do diretor Francis Ford Coppola, eu devo ter visto umas 38 vezes. Conheço as falas do filme. É o melhor filme de todos os tempos. E Jules e Jim , claro.”   Música “Nasci em dezembro de 1974. Fui criado com o rock nacional dos anos 80, pós-ditadura. Todo adolescente ouvia rock. Línguas estranhas não faziam muito a minha cabeça e, naquela época, a única banda internacional que escutava era U2. Mas, com 14 para 15 anos, comprei com o meu dinheiro o disco Alucinação , do Belchior (1946-2017). Escutar aquilo foi outra transformação da minha vida. Tinha a coisa da indignação da periferia, da revolta com as desigualdades, da relação com a família, do desespero e dos sonhos juvenis. Então, comecei a escutar tudo que se possa imaginar das nossas referências musicais: Gil, Caetano, Chico Buarque, todos os compositores de Minas Gerais — principalmente Beto Guedes —, Oswaldo Montenegro e a sua questão lúdica da arte, do teatro. Acho que a música é uma grande encruzilhada. Gosto de ouvir podcasts e ler livros de história da música, que contam as minúcias da produção de discos e artistas. Sou louco por carnaval, mais precisamente pelo carnaval de Salvador. Foi no carnaval que conheci Renata, é nas ruas do carnaval que pessoas dos mais diferentes estilos se misturam. O carnaval foi fonte de inspiração para trabalhos científicos também. A partir do carnaval de Salvador, desenvolvi com um coautor reflexões sobre como governos e órgãos públicos que rivalizam podem colaborar. Ainda na linha de tentar domar o tempo, conciliar trabalho e lazer é possível. Sou testemunha.”   Personalidades que admira “Uma pessoa que admiro demais, apesar de eu ser palmeirense, é Sócrates (1954-2011), devido à trajetória que ele teve no futebol, na universidade e na política brasileira. Mas a minha personalidade preferida é Gilberto Gil, um gênio musical, uma entidade. Tenho uma ligação particular porque ele foi das primeiras turmas da Escola de Administração da UFBA, que é a minha alma mater , onde fiz mestrado e doutorado. E Gil foi orador da turma dele. Preto e orador da turma de Administração nos anos 1960. Filho de médico, neto de escravizado, Gilberto Gil cresceu neste microcosmo de Salvador, bem preconceituoso, ‘no tempo que preto não entrava no Bahiano’, como ele canta na música Tradição , numa referência ao tradicional Clube Bahiano de Tênis, no bairro da Graça, onde morei e moram meus pais. Gil rompeu barreiras, um cara que é admirado mundialmente. Tive a oportunidade de ver Bono, do U2, babando em Gil em pleno carnaval de Salvador, ao reconhecer tamanha genialidade. Gil, assim como Caetano, faz uma ode ao tempo, esse senhor tão bonito, que tento inutilmente dominar.”  "}]