[{"jcr:title":"A racionalização da desonestidade dentro e fora da ficção"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"A racionalização da desonestidade dentro e fora da ficção","jcr:description":"O filme “Bad Education” (Má Educação) e a ética das nossas escolhas"},{"subtitle":"O filme “Bad Education” (Má Educação) e a ética das nossas escolhas","author":"Ernesto Yoshida","title":"A racionalização da desonestidade dentro e fora da ficção","content":"O filme “Bad Education” (Má Educação) e a ética das nossas escolhas   Maria Eduarda Arb Comparato   Baseado em um escândalo real, o filme “Bad Education” aborda a maior fraude já ocorrida em instituições do ensino público nos Estados Unidos. O ator Hugh Jackman interpreta o superintendente Frank Tassone, que juntamente à Pamela Gluckin, personificada por Allison Janney, inseriu uma escola da rede pública de Long Island na elite da educação do país. A determinação de Frank em elevar a reputação da “Roslyn High School” e de promover aceitações nas mais renomadas universidades estadunidenses conquistou a comunidade escolar. No entanto, todo o carisma e esforço do profissional mascaravam um homem manipulador e ganancioso. Nesse contexto, “Bad Education” pode ser correlacionado com o livro “Previsivelmente Irracional” de Dan Ariely, professor de Psicologia e Economia Comportamental. Nos capítulos intitulados “O contexto do nosso caráter”, ele aborda a existência de dois tipos de desonestidade: a descarada, presente por exemplo, em assaltantes de um banco, e uma mais sútil, presente em pessoas que se julgam boas e corretas, porém constantemente cometem delitos menores, como um indivíduo que utiliza o cartão empresarial para pagar uma refeição a lazer. Assim, o protagonista apresenta ambos os tipos de desonestidade, visto que o acúmulo de transgressões éticas consideradas pequenas, resultou no roubo de milhões de dólares do orçamento público. Notoriamente, a trajetória de Frank se relaciona com o fenômeno da ladeira escorregadia. Ele inicia seu comportamento antiético com pequenas fraudes, afirmando que merece pequenas recompensas devido a todo o seu esforço e que suas ações sempre buscam a melhoria de seu ambiente de trabalho. Conforme seus atos tomam maiores proporções, Tassone permanece justificando suas ações com o discurso de que está agindo em prol do bem-estar da comunidade escolar. Percebe-se assim, a ladeira escorregadia: o superintendente admite para si um comportamento a partir de uma justificativa pobre em evidências ou valor moral, tornando-se mais fácil a sucessão de outro comportamento ainda mais inadmissível. Como consequência, ocorre uma progressão desses eventos que levaram a uma consequência inesperada pelo protagonista (a descoberta de suas fraudes e seu consequente encarceramento). O fenômeno da ladeira escorregadia é comumente observado no cenário político brasileiro, marcado por práticas corruptas. Inúmeros políticos frequentemente adotam medidas sabidamente equivocadas, que por sua vez, geram uma série de eventos que transgridem a ética, tornando o cenário político deturpado e disfuncional Esse processo representa um grave problema para uma sociedade que “valoriza” a democracia, uma vez que o povo vota em candidatos que afirmam prezar pelo bem comum, porém na realidade, usufruem das brechas do sistema para seu próprio êxito e desestabilizam toda a credibilidade da política nacional. Além disso, outro fato explorado pelo livro é a racionalização da nossa desonestidade quando o sujeito se encontra “a um passo de distância do dinheiro”, ou seja, quando não lida com ele de forma concreta. É mais simples justificar um item para si mesmo como um uso legítimo de sua cota de despesas do que se apropriar diretamente do dinheiro físico do local onde um indivíduo trabalha. O autor afirma que transações eletrônicas poderiam facilitar a desonestidade das pessoas por afastá-las da troca monetária física. Tal fato expressa exatamente o que ocorre na obra cinematográfica: ao se distanciarem do dinheiro físico, mas terem acesso aos recursos financeiros do orçamento escolar, Pamela e Frank (que jamais cogitariam roubar um centavo de um aluno) conseguem justificar o uso desses fundos para viagens a trabalho na primeira classe, por exemplo. Dessarte, observa-se que a questão da ética, especialmente no universo profissional, é uma questão de poder e de como utilizá-lo. O poder absoluto pode corromper o indivíduo, que ao analisar um trade-off entre ética e resultado, prioriza o último. Fora da ficção, pode-se relacionar aspectos analisados no texto com o escândalo envolvendo a “Americanas”, que acumulava um rombo financeiro de aproximadamente 20 bilhões de reais devido a manobras contábeis possibilitadas pela falta de transparência. Esse caso evidencia a facilidade com que ações desonestas podem ocorrer em um mundo em que o dinheiro se movimenta por transações eletrônicas e no qual os valores morais recorrentemente são sufocados pelo interesse financeiro.   Referências Bibliográficas Makowsky, M. (Roteirista), & Finley, C. (Diretor). (2019). Bad Education [Filme]. HBO Films. ARIELY, Dan. Previsivelmente Irracional: As forças ocultas que nos levam a tomar decisões erradas. Rio de Janeiro: Sextante, 2020. Capítulos 13 e 14 – O Contexto de nosso caráter. Douglas Walton. Lógica Informal: manual de argumentação crítica. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012. Este texto foi escolhido pelo Prêmio Pensamento Crítico 2023"}]