[{"jcr:title":"Um inteligente e generoso legado para o país"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"Um inteligente e generoso legado para o país","jcr:description":"“Gregori Warchavchik – A chegada do moderno” traça um cuidadoso panorama do trabalho do ucraniano que viveu no Brasil e se tornou uma incontornável referência na arquitetura"},{"subtitle":"“Gregori Warchavchik – A chegada do moderno” traça um cuidadoso panorama do trabalho do ucraniano que viveu no Brasil e se tornou uma incontornável referência na arquitetura","author":"Ernesto Yoshida","title":"Um inteligente e generoso legado para o país","content":"“Gregori Warchavchik – A chegada do moderno” traça um cuidadoso panorama do trabalho do ucraniano que viveu no Brasil e se tornou uma incontornável referência na arquitetura  Gregori Warchavchik (Acervo da Biblioteca FAUUSP)   Laura Janka*   “Portador de notícias inteligentes”. Essa era a frase por meio da qual Paulo Mendes da Rocha (1928-1921), arquiteto capixaba e ganhador do Prêmio Pritzker de 2006, se referia a Gregori Warchavchik (1896-1972), ucraniano naturalizado brasileiro, que seria um dos porta-vozes e nome de proa da arquitetura modernista no Brasil. Pois o livro Gregori Warchavchik – A chegada do moderno , recém-lançado pela BEĨ Editora, é, também ele, um “portador de notícias inteligentes”, já que nos abre, de maneira ímpar, uma janela para valorizarmos a sofisticação, a diversidade e a relevância da produção de alguém que se tornaria um marco da arquitetura moderna no contexto do desenvolvimento urbano da cidade de São Paulo — e do país. A obra é resultado de uma causalidade. Procurada, em 1990, por um marchand interessado em apresentar o trabalho de Warchavchik em Nova York, a arquiteta Silvia Segall se deu conta da pouquíssima informação disponível capaz de abarcar a contento o perfil biográfico e a trajetória intelectual do ucraniano-brasileiro. Diante dessa constatação, Silvia abraçou a tarefa de coordenar uma publicação a respeito de Warchavchik, reunindo vozes diferentes para discorrer sobre ele e organizando uma cuidadosa seleção de fotos dos seus projetos, construídos ou não — colocando à disposição do público em geral uma mirada mais sucinta de um criador icônico, a partir de um olhar contemporâneo. Mas, afinal, quem foi o profissional que, com notável entusiasmo, fez do Brasil um terreno fértil para uma proposta arquitetônica modernista? Nascido em Odessa, numa família judaica, Warchavchik era um indivíduo que, nas palavras de seu neto Carlos, que seguiu sua profissão e é um dos autores do livro, podia ser considerado “um arquiteto entre dois mundos”. Na juventude, Warchavchik migrou para a Itália, onde estudou arquitetura na Escola de Belas Artes. Formado, veio para o Brasil ao aceitar um convite de trabalho da Companhia Construtora de Santos. Quando? No auge do modernismo, em 1923 — exatamente há um século. Apenas dois anos após a sua chegada ao país, Warchavchik publicou no jornal Correio da Manhã , do Rio de Janeiro, o texto intitulado “Acerca da arquitetura moderna”, um manifesto no qual advoga para a sua área uma produção funcionalista, sem adornos, que respondesse às necessidades do “novo homem”. Naquele mesmo ano, instalado na capital paulista e casado com Mina Klabin — uma mulher inserida na elite cultural brasileira, que acompanharia sua obra com o desenho paisagístico —, Warchavichik iniciou a construção da primeira edificação modernista do Brasil: a casa da Rua Santa Cruz [ [1] ](#_ftn1) . Defensor de uma arquitetura de linhas retas, purista no uso dos materiais, ele desenhou o lar em que viveria com Mina por várias décadas.   [ ](/content/dam/insper-portal/legacy-media/2023/01/Arq06_382__Casa.Rua.Santa.Cruz_Casa.Modernista_Acervo-da-Colecao-Gregori-Warchavchik-2.tiff) Casa da Rua Santa Cruz (Acervo da Coleção Gregori Warchavchi)   Com essa obra, Warchavchik propôs um novo paradigma da casa moderna — ou, como ele preferia, usando o conceito do Le Corbusier (1887-1965) [ [2] ](#_ftn2) , “a máquina de morar”. Confrontou-se, então, com os padrões em vigor na época: um período efervescente em São Paulo, cujo cenário era marcado pelos casarões de ricos fazendeiros e industriais, o que resultava numa paisagem  repleta de adornos rebuscados, pertencentes a uma arquitetura academicista, da qual, na opinião de Warchavchik — como sublinham os autores do livro —, a sociedade devia se libertar. Para dimensionar a polêmica ao redor da casa, discutida em vários momentos da obra, basta atentar para uma verdadeira anedota. O arquiteto desenhou duas versões da residência. Em um projeto ele colocava os adornos e condicionantes da identidade requerida pela prefeitura — característicos da arquitetura neoclássica e eclética dos inícios do século XX — e no outro, deixava-se guiar pelo partido das linhas retas e dos materiais puros que promulgava. Naturalmente, foi aprovado o primeiro projeto e a casa até começou a ser construída, entretanto, foi o segundo que terminou vingando — com Warchavichik alegando simplesmente que faltara verba para a finalização dos detalhes rococós exigidos! Os projetos iniciais do arquiteto atiçaram tanta curiosidade que viraram mostruários do modernismo, recebendo visitas na escala das multidões, o que deu enorme visibilidade à figura daquele que trouxe ideias radicais do “Velho Mundo” para uma nova cultura social. Com isso, Warchavchik começou uma bem-sucedida carreira de desenho e construção de casas, de prédios residenciais, de usos mistos, de projetos habitacionais em massa, de clubes esportivos, de móveis etc. As imagens selecionadas para o livro e os relatos dos autores permitem navegar pela grande variedade de trabalhos do arquiteto. É possível ainda flagrar — a partir dos traços, das estruturas, dos acabamentos, dos detalhamentos dos móveis — uma busca constante por cimentar uma “nova modernidade”.   Edifício Barão de Limeira (Studio Zanella-Acervo da Biblioteca FAUUSP)   ***   “Uns me chamam de pioneiro. Pioneiro sou, sim, de pés no chão. Outros me tacham de visionário. Visionário sou, sim, também, de pés na Lua.” Com essa citação de Warchavchik, aparecida no jornal A Tribuna , em 1947, o texto do arquiteto Ivo Giroto, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), conduz o leitor em visitas a projetos seus erguidos em diferentes bairros de São Paulo e Rio de Janeiro. Também relata as parcerias de Warchavchik com Lúcio Costa, que desenhou o Plano Piloto de Brasília, e suas relações com monumentos arquitetônicos, digamos desse modo, como os citados Le Corbusier e Frank Lloyd Wright (1867-1959) — trazendo para mais perto aquele pioneiro e visionário. Já o estudo de Maria Cecília Loschiavo, também da FAU-USP, ajuda a compreender o trabalho integral de Warchavchik, com seu comprometimento em relação ao ambiente arquitetônico como um todo. De acordo com ela, o arquiteto “participou da fase heroica da gênese e da implantação da arquitetura e do design de mobiliário moderno no Brasil”. O adjetivo “heroica” corresponde ao esforço que Warchavchik e outros talentos da época desenvolveram para formar uma prática de design que fugia do trabalho do marceneiro ou do decorador, imaginando um tipo de mão de obra que pudesse dar resposta às “novas” lógicas de desenho e da construção. Essa “integralidade” também alcançou o trabalho artístico de amigos como Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Sérgio Milliet, Geraldo Ferraz, Flávio de Carvalho e outros. Para Carlos Warchavchik, o diálogo entre essas personalidades igualmente pioneiras na ideação de uma modernidade nacional foi fundamental para criar uma conjuntura de rompimento com o academicismo, para apresentar à sociedade uma outra maneira de habitar e pensar a cultura. Carlos reflete detidamente sobre a trajetória de seu avô, contextualizando as diversas fases de sua biografia, em especial o impacto que a ruptura com a Europa e o encontro com um novo país teve no ofício que o consagrou e na vida pessoal. Em seu texto, que encerra o livro, Carlos compartilha uma frase de Warchavchik que resume a convicção do arquiteto e o legado que deixou para as futuras gerações: “Minha mensagem está dada; a juventude se encarregará agora de continuar”. Ressalte-se que não poderia haver melhor momento para a obra chegar às livrarias. Lançada no fim de 2022, ela certamente encontra lugar de destaque nas comemorações do centenário da Semana de Arte Moderna. Ao mesmo tempo, chama a atenção, como foi observado no princípio desta resenha, para o portfólio de um nome-chave da arquitetura realizada no Brasil ainda pouco estudado. Por fim, os olhos do planeta estão voltados para a Ucrânia natal de Warchavchik, infelizmente, em razão da invasão russa. O livro, porém, reitere-se, traz notícias boas: não em razão apenas da inteligência de seu protagonista, como também por sua generosidade em desembarcar no país e aqui deixar sua extraordinária herança arquitetônica. *Laura Janka , arquiteta e urbanista, é coordenadora do Núcleo Arquitetura e Cidade do Laboratório Arq.Futuro de Cidades do Insper.   Gregori Warchavchik – A chegada do moderno Silvia Segall (org.) BEĨ Editora, 256 páginas, R$ 120,00   [1] A Casa Modernista da Rua Santa Cruz pertence ao Museu da Cidade de São Paulo e é aberta ao público. [2] Suíço naturalizado francês, foi um dos maiores expoentes da arquitetura moderna (junto com Frank Lloyd Wright, Oscar Niemeyer, Walter Gropius, Hugo Alvar Henrik Aalto, Richard Neutra, Ludwig Mies van der Rohe e Theo van Doesburg), exercendo larga influência ao longo do século XX."}]