[{"jcr:title":"As lições da sucessão do bilionário Rupert Murdoch"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"As lições da sucessão do bilionário Rupert Murdoch","jcr:description":"A passagem do bastão do magnata da mídia para o filho Lachlan Murdoch está repleta de exemplos do que não fazer em uma empresa familiar"},{"subtitle":"A passagem do bastão do magnata da mídia para o filho Lachlan Murdoch está repleta de exemplos do que não fazer em uma empresa familiar","author":"Ernesto Yoshida","title":"As lições da sucessão do bilionário Rupert Murdoch","content":"A passagem do bastão do magnata da mídia para o filho Lachlan Murdoch está repleta de exemplos do que não fazer em uma empresa familiar Rupert Murdoch em foto de 2019 com a atriz e modelo Jerry Hall, sua quarta esposa, de quem se divorciou em 2022   David A. Cohen   Em 15 de novembro, após 71 anos de carreira e aos 92 anos de idade, o magnata da mídia Rupert Murdoch deixou o cargo de presidente da News Corp (dona de jornais como The Wall Street Journal , tabloides britânicos e a editora HarperCollins) e da Fox Corporation (proprietária dos canais de TV Fox). Dizer que ele tenha finalmente se aposentado, no entanto, é um exagero. A palavra aposentadoria não consta de nenhum dos comunicados desde setembro, quando Murdoch fez o anúncio de que passaria o bastão para o filho Lachlan Murdoch. Ao contrário, em nota aos empregados das duas companhias, ele afirmou que vai continuar a assistir às transmissões e ler os jornais, sites e livros com um olhar crítico, contatando-os “com pensamentos, ideias e conselhos”. Quando visitar os países e companhias onde as empresas operam, continuou, “vocês podem contar que me verão no escritório até tarde numa sexta-feira”. Ainda assim, o anúncio foi uma surpresa. Murdoch costumava dizer que jamais deixaria o comando de seu conglomerado. Em 1999, quando tinha 69 anos — idade em que a maior parte dos executivos já está abandonando os compromissos profissionais —, ele venceu um câncer de próstata e declarou: “Estou convencido da minha própria imortalidade”. “Essas pessoas que ficam no comando da empresa até os 90 e tantos anos são consideradas empreendedoras que não conseguem ver suas limitações”, afirma Aline Porto, sócia da Banyan Global, uma consultoria para negócios familiares, e coordenadora da plataforma de empresas familiares do Insper (que promove cursos para educação executiva, realiza eventos e organiza matérias sobre o assunto nos cursos de graduação). “Em geral amam os filhos, mas não acreditam que nenhum deles chegue perto do grau de competência deles próprios.” Mesmo pressionados pelos investidores ou criticados por ações que tenham tomado (ou deixado de tomar), esses empreendedores postergam ao máximo a transição de poder, diz Aline. Normalmente, a empresa sofre. “Quanto mais protela a sua saída, menos o sucessor fica preparado. Adultos aprendem fazendo. Um executivo só se cacifa de verdade quando se senta na cadeira de executivo-chefe e exerce autonomamente a função.”   Cada vez mais velhos Com o razoavelmente recente aumento na expectativa de vida, a presença de líderes bem mais velhos tem aumentado, tanto nas empresas quanto na vida pública. No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito com 77 anos; disse que seria seu último período no governo, mas já contempla concorrer à reeleição, com 81 anos. Nos Estados Unidos, Joe Biden deve ser candidato de novo, agora com 80 anos, provavelmente concorrendo com o ex-presidente Donald Trump, apenas três anos mais moço. No mundo dos negócios, o quase mítico investidor financeiro Warren Buffett, aos 93 anos, afirma que a passagem de bastão para um sucessor ainda está distante. E seu braço direito, Charlie Munger, era ainda mais velho que ele: morreu no final de novembro aos 99 anos. Não é um caso isolado: Michael Bloomberg, fundador da companhia de mídia financeira Bloomberg, comanda a empresa aos 81 anos; Larry Ellison, fundador da Oracle, está na ativa aos 78; Bob Iger, o presidente da Disney, se aposentou mas, ante o fracasso do sucessor, foi trazido de volta e dirige o grupo aos 72 anos. No Brasil, isso é um pouco mais raro. Muitas empresas têm aposentadoria compulsória a partir de alguma idade. A cultura empresarial também é distinta. “Aqui no Brasil temos muitos patriarcas esclarecidos”, constata Aline Porto. Ao ver situações como essa da Fox, afirma ela, pensam: “Não quero que aconteça isso na minha empresa”. Isso não quer dizer que se afastem completamente. Um exemplo é José Isaac Peres, que no início deste ano deixou o cargo de diretor-presidente da Multiplan, companhia responsável pela construção de shopping centers. Aos 83 anos, passou o comando para seu filho, Eduardo K. Peres — mas se mantém por perto, como presidente do Conselho de Administração. Essa transição suave é o caminho recomendado por especialistas. “É importante lembrar que a sucessão é um processo, não um evento”, aponta Aline. Não se pode esquecer, no entanto, que a idade também traz vantagens para o exercício da liderança. “Quando se fala que pessoas mais velhas são menos competentes”, afirmou Mo Wang, professor da Escola de Negócios Warrington, da Universidade da Flórida, à revista Fortune , “trata-se de um estereótipo que não corresponde à verdade”. Ao contrário, diz ele: “Envelhecer na verdade traz mais condições para uma boa liderança”. O argumento é que as pessoas mais velhas tendem a ser mais acolhedoras e empáticas do que as mais jovens. E estão em geral mais satisfeitas com sua vida, o que lhes dá mais estabilidade emocional. Além disso, líderes que já passaram por muitas situações diversas têm mais recursos para enfrentar surpresas. O americano Chip Conley, autor do livro Wisdom at Work: The Making of a Modern Elder (Sabedoria no trabalho: a criação do idoso moderno, em tradução livre), classifica os profissionais mais velhos como “trabalhadores da sabedoria”, um nível acima dos “trabalhadores do conhecimento”. Também é verdade, porém, que a partir dos 45 anos a memória e a capacidade de processar informações começam a decair. O ideal é provavelmente mesclar pessoas de variadas idades nos postos-chave da empresa. No caso das sucessões, há inúmeras formas de fazer isso, aponta Aline. “Em nossa consultoria, tentamos sempre mostrar que existem mecanismos de aprendizagem que podem ser usados para que o patriarca envolva mais os filhos sem perder o poder.” Ela cita como exemplo o conselho de sócios, nos quais todos tenham o direito de voz. “A ideia é treinar os filhos a tomar decisão, fazer boas perguntas, questionar executivos, interpretar informações, trabalhar coletivamente.” Há quem defenda que o melhor caminho para as empresas seja a profissionalização, significando a saída da família. “A escola de pensamento do Insper não é essa”, esclarece Aline. “Não achamos que a solução seja sempre tirar a família. Ao contrário. Ter pessoas da família bem preparadas traz muita riqueza para a companhia: elas vão ter visão de mais longo prazo, não apenas as que atendam as pressões em geral trimestrais do mercado financeiro —e que podem garantir bônus aos executivos.”   Personagens de  Succession , série de TV inspirada na família Murdoch Rivalidade dos filhos A sucessão de Murdoch é, para muitos especialistas, uma demonstração potente do que não fazer. Não à toa, a história da família inspirou a série Succession , transmitida pelo canal HBO Max. Na ficção, o patriarca joga os filhos uns contra os outros na disputa para sucedê-lo no comando de um império de mídia. Dos seis filhos de Murdoch, os quatro primeiros (de dois casamentos) são os herdeiros que ele apontou, com direitos iguais na estrutura de planejamento patrimonial (chamada de trust) que tem maioria das ações de suas empresas — isso após a morte do pai; até lá, ele continua detendo o poder de decisão na entidade e, portanto, sobre as empresas. De acordo com um biógrafo não autorizado de Murdoch, Michael Wolff, sua filha mais velha, Prudence, jamais foi considerada uma potencial sucessora, e Elisabeth, uma filha do segundo casamento, decidiu fazer carreira própria. A partir daí, a disputa se concentrou nos dois filhos homens, James e Lachlan, também do segundo casamento. Era um embate equilibrado, ainda segundo Wolff: Lachlan tinha peso por ser o mais velho, James era considerado o mais esperto. Ambos trabalharam durante anos em empresas da família. Em 2005, entretanto, Lachlan sentiu que o pai o preteria na Fox em relação ao executivo Roger Ailes e pediu demissão. Ailes foi então nomeado presidente da Fox. E James parecia em vantagem para assumir o lugar do pai no futuro. Dez anos depois, Rupert Murdoch chamou Lachlan de volta e ele se mudou da Austrália para os Estados Unidos, para trabalhar ao lado do pai. A balança voltava a pender para seu lado, especialmente porque Lachlan tem posições políticas similares às do pai (segundo alguns, ele está ainda mais à direita no espectro), enquanto James é mais liberal. Em 2019, quando a parte de entretenimento da 21th Century Fox passou para a Disney, num negócio de 71 bilhões de dólares, James, então executivo-chefe da divisão, optou por deixar as empresas. No ano seguinte, ele saiu também do conselho de diretores da News Corp, afirmando discordar do conteúdo editorial e de algumas decisões estratégicas do grupo. James e sua mulher, Kathryn, criticam principalmente o negacionismo climático nos órgãos de mídia controlados pela família. Em 2021, em entrevista ao jornal Financial Times , ele também relacionou o ataque antidemocrático ao Congresso americano, após a derrota de Donald Trump nas eleições presidenciais, a “órgãos que propagam mentiras ao público, liberando forças insidiosas e incontroláveis”.   Os desafios de Lachlan Lachlan já era presidente das duas organizações — a News Corp e a Fox. O que ele conseguiu agora foi tirar o prefixo “co” dos dois cargos: deixou de dividi-los com o pai. Mas ainda há muita desconfiança em relação a sua capacidade — ou vontade — de assumir a direção. Para começar, Lachlan gosta de viver em Sydney, na Austrália, muitas horas (e muitos fusos) distante das sedes das companhias. Ele tem se apoiado no diretor jurídico da Fox, Viet Dinh, mas este já anunciou que vai deixar a empresa no final do ano. Embora Murdoch tenha frisado, ao assumir o título de presidente emérito das suas empresas, que elas estão em ótimo estado, tendo apresentado os maiores lucros de sua história nos últimos três anos, os desafios para Lachlan são imensos. Afinal de contas, o império que herda está calcado na mídia impressa e nos canais de TV a cabo, meios em declínio ante a ascensão do streaming, das assinaturas de canais digitais e do abandono constante dos jornais impressos pelo público leitor. Talvez por saberem disso, os aliados de Murdoch não se cansam de lembrar de casos que apontam para as habilidades do sucessor. O principal deles foi o investimento de 11 milhões de dólares que a News Corp fez no grupo REA, uma companhia de informações imobiliárias da Austrália. A REA vale hoje 8 bilhões de dólares, e a News Corp tem 61% de participação em seu capital. Em 2020, Lachlan também capitaneou a compra do Tubi, um serviço de streaming, por 440 milhões de dólares. De acordo com a revista Bloomberg, Murdoch já recusou ofertas para vender o Tubi por 2 bilhões de dólares. Por mais impressionantes que sejam os exemplos, os desafios na Fox são de outra monta. Envolvem principalmente o posicionamento político e os riscos de sua linha editorial, que flerta com notícias falsas e tom estridente. Foi isso que lhe rendeu um processo da empresa Dominion Voting Systems, acusada em um dos programas da Fox de ter fraudado votos em favor de Joe Biden nas eleições presidenciais. A calúnia lhe custou um acordo de 787,5 milhões de dólares. Lachlan foi ungido sucessor porque Murdoch identifica nele a posição política mais próxima da sua. “Lachlan é um líder de princípios, um crente no propósito social do jornalismo”, disse Murdoch ao entregar-lhe o comando. “É o mesmo senso de propósito que tinha Keith Murdoch”, continuou, referindo-se a seu pai (avô de Lachlan), que iniciou o negócio com uma cadeia de jornais de Austrália — a qual Rupert Murdoch transformou num império com bases em três continentes a partir de 1954, quando tomou o controle. Foi uma situação praticamente inversa da atual. Murdoch assumiu os negócios com 20 e poucos anos, após a morte do pai, aos 67 anos. Lachlan tem 52 anos, e o pai ainda está vivo — e com vontade e condições de manter sua influência nas empresas da família.   A ameaça interna De todas as dificuldades que Lachlan deverá enfrentar daqui para a frente, a maior é a ameaça interna. Murdoch estipulou há vários anos que, quando morrer, os quatro filhos mais velhos deverão entrar em um acordo no trust que controla as empresas da família. Segundo o jornal The New York Times , pessoas próximas a James Murdoch, hoje um investidor em mídia e tecnologia, tem levantado a hipótese de que ele pode se unir às duas irmãs para arrebatar o controle da companhia das mãos de Lachlan. Não é certo que ele queira ou, se quiser, que consiga promover a reviravolta. Mas Elisabeth, pelo menos, hoje presidente executiva do estúdio de entretenimento Sister, já deu sinais de não ser fã da linha editorial da Fox News. Como lembra Aline Porto, do Insper, quando um pai usa a sucessão como instrumento de poder, colocando os filhos em disputa pelo “trono”, tende a acirrar uma natural rivalidade entre irmãos. “Ele esquece que no futuro os filhos vão ter que tomar decisões em conjunto.”"}]