[{"jcr:title":"Por que todas as empresas viraram techs"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"Por que todas as empresas viraram techs","jcr:description":"As startups invadiram e prometem transformar praticamente todos os setores da economia; as grandes empresas criam suas divisões tecnológicas. Ainda faz sentido falar em um setor de tecnologia?"},{"subtitle":"As startups invadiram e prometem transformar praticamente todos os setores da economia; as grandes empresas criam suas divisões tecnológicas. Ainda faz sentido falar em um setor de tecnologia?","author":"Ernesto Yoshida","title":"Por que todas as empresas viraram techs","content":"As startups invadiram e prometem transformar praticamente todos os setores da economia; as grandes empresas criam suas divisões tecnológicas. Ainda faz sentido falar em um setor de tecnologia?   David A. Cohen   Fintechs. Agrotechs. Contrutechs e proptechs. Insurtechs. Retailtechs. Edtechs. Martechs. Lawtechs. Das finanças à educação, do varejo ao direito, da construção aos seguros e marketing, parece não haver setor da economia hoje que não esteja sendo encampado pela tecnologia. Até grandes companhias tradicionais, como o banco de investimentos Goldman Sachs, se definem hoje como empresas de tecnologia (Lloyd Blankfein, executivo-chefe do banco até 2018, costumava dizer que empregava mais engenheiros do que o Facebook ou o Twitter). “Está ficando difícil encontrar empresas que não sejam do setor de tecnologia”, diz André Duarte, professor de gestão de operações e cadeia de suprimentos do Insper. “Daqui a pouco, o diferencial vai ser não ser tech”, brinca. Em parte, essa nomenclatura que se espraia por todos os setores da economia é também um esforço de marketing. “Muitas dessas empresas não estão necessariamente produzindo novos produtos ou serviços, mas usando novas tecnologia em suas atividades”, diz Duarte. E com esse pequeno acréscimo vem um rótulo novo, mais pomposo. “Antigamente havia empresas de entrega, depois elas viraram especialistas em logística, e agora é a vez das logtechs.” Os títulos não buscam apenas uma diferenciação, para comunicar maior importância estratégica. A ênfase no aspecto tecnológico — especialmente para as novas empresas que buscam crescimento acelerado (as startups) — se explica também pela atenção prioritária que os fundos de investimentos dão para o setor. “Então vestir-se como empresa de tecnologia é interessante para atrair dinheiro”, aponta Duarte. Para além do marketing e da busca de recursos, no entanto, há uma real expansão do setor de tecnologia. “A tecnologia está influenciando tantas verticais no mundo dos negócios que os processos e investimentos evoluíram de forma a borrar as fronteiras entre as indústrias”, afirma um relatório do ano passado da consultoria PwC sobre tendências das startups.   A expansão do conceito O processo pelo qual a tecnologia começou a se espraiar e dominar outras indústrias passa por uma mudança no próprio conceito do setor de tecnologia. Inicialmente, consideravam-se como empresas de tecnologia aquelas que produziam computadores, semicondutores e equipamentos de comunicação. Nas duas últimas décadas do milênio passado, o software passou a fazer parte desse grupo. Não é que não houvesse programação antes — mas os softwares vinham em segundo plano. A IBM, por exemplo, vendia computadores e embutia os programas gratuitamente. Hoje, a tendência é oposta: os equipamentos são mais ou menos commoditizados, os programas são valorizados. A partir daí, começou a expansão do setor de tecnologia. Ele passou a encampar as companhias de software e, em seguida, as ligadas à internet e à produção de conteúdo (quando usam códigos de programação para se diferenciar, como o YouTube ou a Netflix). Hoje o setor inclui empresas de e-commerce, redes sociais, economia colaborativa, armazenamento de dados em nuvem e, é claro, robótica e inteligência artificial, entre outras. Num segundo momento, todas essas atividades passaram a ganhar importância mesmo nas empresas em que elas não são a finalidade primária da companhia. Como dizia o relatório da PwC, as verticais de atuação de grandes companhias passaram a incorporar tecnologia. E as fronteiras começaram a ruir. Como diferenciar uma Amazon, que nasceu aplicando tecnologia ao comércio, de um Walmart, que transformou sua operação de lojas físicas para incorporar tecnologia? Ou uma Tesla, empresa de programação aprendendo a ser uma montadora, de uma Ford, montadora que está virando uma empresa de programação? “A tecnologia invadiu e está transformando muitos dos processos normais das empresas”, afirma Duarte, do Insper. “Desde o hardware, com robótica e impressoras 3D, até as atividades mais analíticas, com o Big Data e o aprendizado de máquinas, por exemplo.” Quando não é a empresa inteira que se transforma, ela em geral cria uma divisão de tecnologia. Que tende a crescer. Em 2020, a Ambev, típica representante de um setor fabril tradicional, tratou de criar a Ambev Tech, um hub de inovação e tecnologia, com potencial de revolucionar a empresa. A companhia tem agora uma plataforma de e-commerce e empresa SaaS (software como serviço), para ligar fornecedores diversos aos bares e restaurantes. A essência do negócio tende a migrar da fabricação de cervejas para a logística de distribuição e estoques. Isso implica uma reviravolta cultural: “A Ambev era conhecida por ser drástica na proibição de seus funcionários consumirem produtos de outras marcas; o Zé Delivery, criado pela companhia em 2016, comercializa e entrega produtos de parceiros e até de concorrentes sem problema nenhum”, lembra Duarte.   Um empurrão mundial Algumas macrotendências estão empurrando as companhias a se tornarem empresas de tecnologia, afirma o Thomson Reuters Institute, site de debates e análise do conglomerado de mídia Thomson Reuters. As principais são: ⇒ 1. um mundo muito mais conectado. O avanço da globalização criou uma cultura em que os consumidores esperam serviços e produtos de qualquer lugar a qualquer hora. Para atender essa demanda, é preciso transformar o atendimento ao consumidor e o relacionamento com clientes; ⇒ 2. a internet das coisas. A possibilidade de conectar aparelhos entre si oferece enormes oportunidades de coleta de dados e compreensão de comportamentos, além de melhoras na manutenção de serviços. ⇒ 3. ênfase na inovação. Ficou mais difícil prever de onde surgirá a nova “grande coisa” no seu negócio. Por isso as grandes empresas estão abrindo seus processos de pesquisa e desenvolvimento, incluindo apostas em startups mais ágeis e menos custosas. “Em resumo, as empresas precisam de tecnologia para entender melhor o consumidor, para lidar com a multicanalidade (a possibilidade de atendê-lo de diversas formas) e a customização”, diz Duarte. “Esses fenômenos deixaram a operação muito complexa.” Essas demandas explicam o crescimento vertiginoso do número de startups. Entre 2015 e 2019, essas empresas mais do que triplicaram no Brasil, de acordo com a Associação Brasileira de Startups, de 4.151 para 12.727. É daí que nascem tantas fintechs, construtechs e o-que-quer-que-seja-techs: tanto para resolver problemas das grandes empresas como para, em alguns casos, suplantá-las e criar um novo modelo de negócios. No setor imobiliário, há por exemplo startups que incorporam tecnologia para facilitar o processo de aluguel ou compra de imóveis, as proptechs (como o Quinto Andar); e há aquelas que almejam revolucionar o método de construção — neste segundo caso estão a Brasil ao Cubo, com seus projetos de construção modular, e a Tecverde, com o modelo de construção industrializada em woodframe (madeira). Para dar uma ideia da agilidade que a tecnologia pode conferir a um setor, durante a pandemia foi possível construir 100 leitos de hospital em apenas 33 dias, numa associação da siderúrgica Gerdau (que forneceu o aço), da Brasil ao Cubo, da Ambev (que ajudou a planejar o processo da obra) e do Hospital Albert Einstein (com a gestão da saúde). As oportunidades de aplicação de tecnologia são imensas. Em Mogi das Cruzes (SP), a transformação para o formato digital de todos os processos da Secretaria Municipal de Planejamento e Urbanismo, feita pela startup Aprova Digital, reduziu o tempo de licenciamento de obras de 6 meses para 10 dias, com considerável barateamento dos custos (a burocracia pode elevar o preço de uma obra em mais de 10%, de acordo com a consultoria Strategy&). Avanços nesse setor são mais que bem-vindos. Segundo a consultoria McKinsey, a produtividade na construção cresceu apenas 1% nas duas primeiras décadas do milênio. O Brasil aparentemente tem consciência das necessidades: segundo o mapa feito pela empresa de investimentos Terracotta Ventures, o país tem 955 construtechs e proptechs, a maior parte nascida nos últimos dois anos. No varejo, as retailtechs se dedicam a coletar e analisar dados para personalizar ofertas, unificar canais de venda ou trazer mais eficiência a processos. De acordo com análise da consultoria Deloitte feita no ano passado, 29% dos investimentos no setor visam melhorias em manutenção de estoques, administração de lojas e pagamento automático. Outros 16% vão para a montagem dos sistemas de coleta e análise de dados em si. Para a McKinsey, soluções com as etiquetas eletrônicas (RFID) podem elevar a acurácia da administração de estoques em 25%, diminuir o trabalho relacionado a estoques em 10% a 15% e, graças a esses e outros ganhos de eficiência, elevar os lucros em cerca de 1,5%. Iniciativas como a adoção do blockchain podem permitir aos consumidores rastrear produtos (seja para saber a origem de uma peça ou para certificar-se de que a carne na gôndola não vem de uma área desmatada). Outros avanços incluem produção de pequenos lotes em impressoras 3D e experimentação a distância com realidade virtual. Na agricultura, as soluções tecnológicas vão desde o uso da robótica para baratear os custos de mão de obra até coleta de dados por drones ou controle biológico das lavouras, com uso de organismos vivos para combater pragas. Os satélites e softwares de gestão agrícola auxiliam no monitoramento da qualidade das safras; a inteligência artificial ajuda a diminuir a quantidade de agrotóxicos. O Brasil tem um polo dinâmico de startups do setor em Piracicaba (SP).   Setores contaminados Em nenhum desses casos a tecnologia chega a dominar completamente um setor. Mas uma pesquisa feita pela Fundera, uma plataforma de finanças para pequenas empresas, publicada pela revista Forbes, ajuda a entender por que todo mundo quer ser tech. Entre os dez melhores setores para iniciar um negócio nos Estados Unidos, diz a pesquisa, o primeiro, não surpreendentemente, é a o de tecnologia. O segundo é saúde — mas com um detalhe: enquanto os hospitais e clínicas enfrentam dificuldades para manter a rentabilidade, o setor é impulsionado pelas áreas de biotecnologia, gestão de dados de saúde e soluções customizadas. Ou seja, pela parte tech da saúde. A mesma coisa acontece com o terceiro melhor setor, de energia, que vive uma transformação gigantesca rumo a fontes mais sustentáveis. Varejo, construção e finanças vão na mesma linha. Talvez não dure tanto a onda de nomear com tech as startups de qualquer setor. Mas não porque a tecnologia vá perder importância, e sim porque não será difícil encontrar empresas não-tech."}]