[{"jcr:title":"“O deficiente tem uma grande cortina de fumaça à sua frente”"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"“O deficiente tem uma grande cortina de fumaça à sua frente”","jcr:description":"Rithiele Souza Silva, estudante de medicina com paralisia hemiplégica cerebral, fala sobre a incerteza de seu futuro profissional em um mercado que carece de políticas de inclusão"},{"subtitle":"Rithiele Souza Silva, estudante de medicina com paralisia hemiplégica cerebral, fala sobre a incerteza de seu futuro profissional em um mercado que carece de políticas de inclusão","author":"Ernesto Yoshida","title":"“O deficiente tem uma grande cortina de fumaça à sua frente”","content":"Rithiele Souza Silva, estudante de medicina com paralisia hemiplégica cerebral, fala sobre a incerteza de seu futuro profissional em um mercado que carece de políticas de inclusão   Bárbara Nór   “Até hoje a ficha não caiu.” É com essas palavras que Rithiele Souza Silva relata a sensação de estudar medicina na Universidade de Brasília (UnB). Hoje no nono semestre, ela lembra que nem chegava a cogitar que iria passar na instituição federal de ensino. “A UnB era uma coisa muito grande para mim, mas acho que sempre me subestimei”, diz. Agora, quando se formar no primeiro semestre de 2025, Rithiele deve ser a primeira médica negra com paralisia hemiplégica cerebral do Brasil. A escolha pela carreira veio justamente pelo fato de, desde que nasceu, frequentar o hospital para tratamento e acompanhamento de sua paralisia, que compromete os movimentos de um dos lados do corpo. “Passei os 28 anos de minha vida vendo as enfermeiras e neurocirurgiões que me avaliavam, andando de lá pra cá”, conta. De tanto acompanhar de perto essa rotina e perceber a sua importância para pessoas como ela, nasceu o sonho de se tornar médica. Mas não foi um caminho fácil para chegar até a faculdade — ainda mais em um dos cursos mais concorridos do Brasil. Na verdade, Rithiele chegou a abandonar os estudos ainda no Ensino Médio. “A paralisia trouxe uma série de questões, como dificuldade de adaptação, principalmente na infância.” Ao mesmo tempo, quando ela ainda estava na escola, sua mãe acabou se envolvendo em um relacionamento abusivo. Rithiele entrou em depressão, o que foi um dos motivos para ela parar de estudar. Houve ainda um segundo motivo: sua mãe engravidara e era preciso ajudar nas contas de casa. Assim, durante dez anos, Rithiele trabalhou como atendente em uma loja de roupas, longe da sala de aula. Nesse período, ela também se casou. Foi seu hoje ex-marido quem a incentivou a voltar aos estudos por meio do EJA (programa público de educação voltado para jovens e adultos). “Terminei o Ensino Médio só em 2015, depois de todo aquele tempo fora da escola”, diz. O próximo passo era passar no vestibular. “Realmente, tive que recomeçar tudo do zero, desde a tabuada.” O plano era passar na universidade estadual: Rithiele nem sabia onde ficava a UnB, de tanto que considerava a instituição como fora do alcance. No momento, ela se prepara para o último ano da faculdade, quando deverá decidir em qual área se especializar depois de formada. “Meu sonho de infância era a neurocirurgia, que é a área justamente que trata pessoas com o meu tipo de paralisia.” No entanto, é por conta também de sua deficiência que ela pensa não ser possível atuar na área, que exige controle preciso dos movimentos das mãos. “Meu plano é testar nos internatos no ano que vem e ver em quais áreas me adapto melhor”, diz. Por outro lado, o fato de desde pequena conviver com sua deficiência também traz vantagens, como mais sensibilidade na abordagem com o paciente, acredita Rithiele. “Logo na minha primeira experiência com atendimento, eu vi que conseguia falar melhor com o paciente, de uma maneira mais próxima”, diz. “Com a minha vivência, consigo transmitir algumas coisas com muito mais facilidade.” Mas, como pessoa com deficiência, ela admite que sua entrada no mercado profissional é uma de suas preocupações. “Como estudante, acabamos sendo amparados de diversas formas, mas depois é cada um por só”, diz. Afinal, como ela lembra, se desde 2017 a lei brasileira prevê cotas para o acesso de deficientes físicos nas universidades, isso não se refletiu em uma discussão, necessariamente, de como será a inclusão desses profissionais no mercado. Rithiele, por exemplo, só consegue digitar com uma mão e precisa fazer boa parte de seus atendimentos sentada. Além disso, ela também precisa de adaptações para poder realizar o exame físico nos pacientes. Questões como essas, relata, não são pensadas no dia a dia de clínicas e hospitais no Brasil. Mesmo na faculdade isso nem sempre é fácil. “Em muitos casos, a gente ainda não tem a adaptação correta, são poucos professores que têm essa visão”, diz. Segundo ela, fica claro também que, com frequência, faltam orientação e qualificação dos professores para lidar com essas questões. É por isso que essa é uma pauta que Rithiele diz tentar abordar sempre que possível. Em sua última conversa com o Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina da UnB, por exemplo, ela questionou qual seria a proposta do órgão para os internos com deficiência. “Eu gosto bastante de relatar a importância das cotas sociais e da inclusão, mas não adianta abrir cota se você não abraça essas pessoas dentro do curso”, afirma. “A gente vê essas pessoas passando, entrando, mas não conseguindo ficar por falta de amparo.” E isso, ela diz, tanto no aspecto financeiro quanto emocional. Ela mesma teve que vender marmitas em um período da faculdade para conseguir se manter nos estudos. Por outro lado, o acolhimento é tão ou mais importante quanto as condições econômicas. “Nesses cursos tradicionais, como medicina, engenharia e enfermagem, tem uma galera que precisa muito de apoio psicológico e social”, diz. “Às vezes, quem vem de uma base ruim precisa ouvir que consegue, que dá conta.” Prestes a se formar, Rithiele espera também ouvir um pronunciamento do CRM, o conselho de classe dos médicos no Brasil. “Não vai ser só eu, mas uma série de novos médicos com deficiência no mercado nos próximos anos”, diz. “Está havendo muita qualificação, mas não adaptação.” Por enquanto, ela diz, não há respaldo para esses futuros médicos. “O conselho nunca deu sequer um parecer a respeito desse tema”, afirma. Para ela, é preciso definir temas como o suporte que as empresas terão que oferecer para receber os médicos com deficiência, se haverá algum tipo de incentivo fiscal e como será feita a fiscalização dessas adaptações. “No caso da acessibilidade para a pessoa com deficiência, a palavra-chave é vigilância”, diz. “É comum ver um elevador de acessibilidade quebrado, por exemplo, mas a deficiência nunca para.” Além disso, ela acrescenta, falta falar sobre acolhimento e inclusão na sociedade como um todo. “Sempre existiu médico com deficiência, mas não estou falando de um médico para cada milhão de pessoas — agora serão muito mais”, diz. “E tudo isso vai mexer muito com o padrão. Isso é algo que precisa ser abordado.”  "}]