[{"jcr:title":"Por que um grupo de cientistas resolveu reanimar patas de aranhas mortas"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"Por que um grupo de cientistas resolveu reanimar patas de aranhas mortas","jcr:description":"Aplicada a estruturas sofisticadas da natureza, a “necrobótica” pode oferecer uma série de usos práticos. O aproveitamento de partes de animais mortos como peças de um robô, porém, causa polêmica"},{"subtitle":"Aplicada a estruturas sofisticadas da natureza, a “necrobótica” pode oferecer uma série de usos práticos. O aproveitamento de partes de animais mortos como peças de um robô, porém, causa polêmica","author":"Ernesto Yoshida","title":"Por que um grupo de cientistas resolveu reanimar patas de aranhas mortas","content":"Aplicada a estruturas sofisticadas da natureza, a “necrobótica” pode oferecer uma série de usos práticos. O aproveitamento de partes de animais mortos como peças de um robô, porém, causa polêmica   Tiago Cordeiro   É comum que a natureza inspire o desenvolvimento de soluções para demandas da humanidade. Engenheiros da Universidade Kansai, no Japão, desenvolveram agulhas menos invasivas e dolorosas depois de observar a eficiência dos mosquitos em sugar sangue de outros animais. A capacidade dos vagalumes de gerar luz em grande quantidade, a partir de uma área pequena, foi a inspiração para um projeto de pesquisadores da Penn State, na Pensilvânia, em busca de lâmpadas LED mais eficientes. A eficiência da pele dos tubarões em evitar a penetração de invasores como vírus e bactérias levou o empreendedor americano Tony Brennan a propor uma cobertura microscópica inviolável para cateteres. Um dos adesivos mais poderosos do mercado é resultado de um polímero que imita o mecanismo de aderência de uma espécie de molusco. O mecanismo de voo dos beija-flores já foi utilizado para melhorar a eficiência dos helicópteros. Mas um time de pesquisadores da Universidade Rice, em Houston, Texas, acaba de dar um passo diferente, ainda que na mesma direção: em vez de identificar mecanismos naturais e reproduzi-los de forma sintética, por que não simplesmente se apropriar de soluções que já existem prontas na natureza?   Injeção de ar A resposta foi traduzida em garras de aranhas mortas, reativadas para funcionar com o objetivo de manipular equipamentos e componentes pequenos com precisão e eficiência — exatamente como um animal vivo faria, mas com utilizações práticas para os humanos, como a atuação na linha de montagem de aparelhos compostos por microcomponentes eletrônicos. “As aranhas mexem suas patas utilizando pressão hidráulica, movimentada por uma câmara específica”, explica, no [vídeo oficial](https://www.youtube.com/watch?v=1JOS6hMHIUM&t=100s) que apresenta o estudo, o engenheiro mecânico e professor Daniel Preston. É diferente dos humanos e de boa parte dos mamíferos, que movimentam os membros (no caso das pessoas, braços e pernas) usando uma combinação de músculos opostos e sincronizados. Assim que morrem, as aranhas ainda preservam esse mecanismo. Ele pode ser estimulado por uma agulha, acoplada a um sistema de injeção de ar, que permite expandir e retrair todas as patas simultaneamente, de forma a carregar pesos maiores que o do próprio corpo dos animais. Preston propõe que essa estratégia seja conhecida como “necrobótica” (ou “necrorrobótica”) — o radical grego “necro” significa morte ou cadáver. E defende o uso do animal morto simplesmente porque sua estrutura corpórea está pronta e não precisa ser replicada com desperdício de componentes.   Zumbis modernos Como Preston explica para o [site](https://news.rice.edu/news/2022/rice-engineers-get-grip-necrobotic-spiders) da universidade, esse laboratório da Universidade Rice é dedicado a buscar novos materiais, para além de plástico, metal e silício. E utilizar estruturas que já existem na natureza é uma das linhas de pesquisa do grupo. Com relação às aranhas, o próximo passo, como descrito no [artigo acadêmico](https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/advs.202201174) que apresenta em detalhes a experiência, é testar o mecanismo com outras espécies. À primeira vista, quanto maior o animal, menos peso ele consegue levantar proporcionalmente ao seu tamanho. As aranhas mortas testadas no Texas conseguem repetir o mesmo procedimento por mil vezes, até a degradação das articulações. Nesse caso, precisariam ser substituídas. A proposta não é livre de polêmica. Florian Pestoni, cofundador e CEO da InOrbit, uma companhia da Califórnia especializada em melhorar a performance de robôs, sobretudo para tarefas repetitivas, controladas a distância, rapidamente se [manifestou](https://www.therobotreport.com/why-im-saying-no-to-necrobotics/) contrário à “necrobótica”, que ele considerou cruel. “A necromancia, ou seja, o uso de bruxaria para reanimar seres mortos, agora é aplicada com o uso da ciência e da engenharia”, afirmou. “Essa prática distópica é baseada em seres mortos, tornados vivos artificialmente e utilizados como marionetes de carne que mais se assemelham a zumbis”."}]