[{"jcr:title":"Dois desafios para o SUS: o envelhecimento da população e a falta de financiamento"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"Dois desafios para o SUS: o envelhecimento da população e a falta de financiamento","jcr:description":"As políticas públicas de saúde e assistência precisam se preparar para atender um Brasil com mais idosos do que crianças e adolescentes"},{"subtitle":"As políticas públicas de saúde e assistência precisam se preparar para atender um Brasil com mais idosos do que crianças e adolescentes","author":"Ernesto Yoshida","title":"Dois desafios para o SUS: o envelhecimento da população e a falta de financiamento","content":"As políticas públicas de saúde e assistência precisam se preparar para atender um Brasil com mais idosos do que crianças e adolescentes   Leandro Steiw   A pandemia da covid-19 evidenciou a resiliência do Sistema Único de Saúde (SUS). Contabiliza-se que 80% dos brasileiros tenham recebido mais de uma dose da vacina contra o coronavírus SARS-CoV-2 desde janeiro de 2021. O desempenho robusto dos profissionais de saúde, porém, não esconde os problemas e os novos desafios, como o envelhecimento da população, a fragmentação e o subfinanciamento do sistema. O painel “SUS: desafios e oportunidades”, parte das comemorações dos cinco anos do Centro de Gestão e Políticas Públicas (CGPP) do Insper, apresentou dados e opiniões sobre os caminhos a seguir. Participaram do debate Letícia Nunes (professora do Insper), Cassio Turra (professor da Universidade Federal de Minas Gerais), Alexandre Kalache (presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil) e Ricardo de Oliveira (secretário estadual de saúde do Espírito Santo de 2015 a 2018). A mediação foi de André Lahóz, coordenador executivo de Marketing e Comunicação do Insper. O país está ficando mais velho rapidamente. Hoje, 15% dos brasileiros têm mais de 60 anos, e 20%, de zero a 14 anos. Em 20 anos, essa proporção deverá se inverter: 30% e 15%. É uma projeção dramática se quisermos envelhecer com qualidade. Na França, o número de idosos passou de 10% para 20% da população em um período de 145 anos. “Aqui será em menos de 20 anos. Então temos pouco espaço para erros e falta de ações”, disse a professora Letícia Nunes. Como se sabe da literatura, uma população mais velha precisa de atendimento de saúde e assistência, mas menos de 1% dos médicos se especializa em geriatria e gerontologia. Também faltam leitos hospitalares de longa permanência, normalmente ocupados por pessoas com mais de 65 anos com doenças crônicas e cuidados por limitações em atividades da vida diária. Apenas 36% dos municípios têm instituições de longa permanência, em sua ampla maioria de administração privada. Segundo Letícia, a fragmentação do SUS reflete a descentralização do serviço de saúde para os municípios, instituída pela Constituição de 1988, que enfraqueceu os estados como planejadores e articuladores regionais do SUS. Os municípios não conseguem arcar com o custo de todos os serviços. Além disso, a estrutura é pequena nessas cidades: em média, os hospitais maiores têm 50 leitos. A distribuição dos recursos não ajuda. Embora os gastos com saúde representem 9,6% do Produto Interno Bruto, cerca de 710 bilhões de reais em 2019, somente 3,8% do PIB corresponde ao sistema público. Os 5,8% restantes são de planos de saúde privados, um privilégio de menos de um em cada quatro brasileiros. Letícia acrescenta o peso da pandemia da covid-19. O represamento de consultas não realizadas em 2020 e 2021 aumentou a demanda do SUS nos últimos meses. Há ainda os problemas crônicos de saúde oriundos da doença.   Revolução da longevidade Para o médico e gerontólogo Alexandre Kalache, o Brasil está envelhecendo precocemente e mal. Ele citou a baixa proporção de geriatras mostrada por Letícia e afirmou que a solução não depende, necessariamente, da formação de médicos especializados. “Quero que todos os profissionais de saúde aprendam sobre envelhecimento, que a revolução da longevidade seja acompanhada pela revolução da educação”, disse. Essa é uma condição incontornável. Se há cem anos a expectativa de vida na Alemanha era de 45 anos, hoje vive-se mais até nos países pobres, argumentou. “A diferença é que os países ricos primeiro enriqueceram para depois envelhecerem”, disse. Além da saúde, Kalache apontou mais três pilares para vencer os desafios do envelhecimento: educação ao longo da vida em busca de um fim de ciclo saudável; respeito aos direitos das pessoas idosas; e segurança e proteção, que incluem um teto e uma renda mínima, por exemplo. A perspectiva de atendimento talvez não seja tão otimista por causa do congelamento dos gastos públicos por 20 anos, que também atingiu os investimentos em saúde a partir de 2017, disse Kalache. Conforme o engenheiro de produção Ricardo de Oliveira, a situação do SUS tem diagnóstico e proposta de solução, então a questão torna-se implantá-la. “Devemos sentar à mesa, conversar, negociar. Estamos perdendo tempo e desperdiçando energia”, afirmou. Ele acredita que o desempenho da saúde pública durante a pandemia contribuiu para uma imagem positiva do SUS, logo, esse momento deve ser aproveitado para investir nas melhorias. “É uma falácia que, quanto mais dinheiro for para o setor privado, melhor, porque a maioria das pessoas não tem renda para pagar”, disse. Os problemas do SUS passam por continuidade administrativa, expectativa de atendimento com conjunto de soluções de longo prazo, excesso de interferência na gestão e falta de pessoal, resumiu Oliveira. O envelhecimento da população brasileira estava identificado desde a década de 1970 devido à queda da fecundidade das mulheres na época, observou o economista Cassio Turra. Na década seguinte, trabalhou-se sobre as consequências do envelhecimento nas políticas públicas e, nos anos 1990, os desafios do SUS já eram bem conhecidos. “Mas o tempo demográfico é diferente do tempo político”, disse. O estrangulamento do SUS vai gerar queda na qualidade do atendimento, cujos efeitos são difíceis de perceber para apontar soluções de longo prazo. Segundo Turra, serão necessários 2% do PIB para dar assistência adequada aos idosos. O debate também tratou de questões de gênero. Como os núcleos familiares são menores, porque os casais têm menos filhos, as pessoas idosas dependem de cuidadoras — em sua maioria, mulheres de fora da família. “Atualmente, quem tem filhos são mulheres com menos de cinco anos de educação formal, que dependem de ensino público para os filhos”, disse Kalache. São brasileiras e brasileiros que não participam da chamada revolução digital, trabalham em condições precárias e sofrem de subnutrição ou supernutrição, por falta de alimentação adequada. Esse é o perfil das cuidadoras contratadas pelas famílias que tiverem renda para assistir os seus idosos no futuro.   LEIA TAMBÉM: [SUS: desafios e oportunidades](/content/dam/insper-portal/legacy-media/2022/07/SUS-desafios-e-oportunidades-Leticia-Nunes.pdf)"}]