[{"jcr:title":"Pelo empoderamento coletivo"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"Pelo empoderamento coletivo","jcr:description":"Cleide Alves, presidente da Unas e integrante do Núcleo Mulheres e Territórios do Laboratório Arq.Futuro de Cidades do Insper, fala da importância do trabalho conjunto entre lideranças  comunitárias e academia e diz que o país precisa de uma sociedade mais colaborativa"},{"subtitle":"Cleide Alves, presidente da Unas e integrante do Núcleo Mulheres e Territórios do Laboratório Arq.Futuro de Cidades do Insper, fala da importância do trabalho conjunto entre lideranças  comunitárias e academia e diz que o país precisa de uma sociedade mais colaborativa","author":"Marcio Martins Araujo","title":"Pelo empoderamento coletivo","content":"Cleide Alves, presidente da Unas e integrante do Núcleo Mulheres e Territórios do Laboratório Arq.Futuro de Cidades do Insper, fala da importância do trabalho conjunto entre lideranças  comunitárias e academia e diz que o país precisa de uma sociedade mais colaborativa   Tomas Alvim Coordenador do Laboratório Arq.Futuro de Cidades do Insper Rinaldo Gama Coordenador de Conteúdo Juliana Mitkiewicz Coordenadora do Núcleo Mulheres e Territórios   Oitocentos colaboradores, a maior parte contratada em regime CLT. Orçamento mensal de 3 milhões de reais, usados para gerenciar 52 projetos, que impactam diretamente cerca de 10 mil pessoas. Os números se referem à União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região (Unas) – e são, sem dúvida, impressionantes. O que, no entanto, chama ainda mais a atenção é saber que no comando dessa potência do movimento social de São Paulo está alguém que deixou sua cidade natal, no sertão cearense, com a família, aos 5 anos de idade, morou de favor na capital paulista, começou a trabalhar aos 9, engajou-se no movimento por habitação digna na adolescência e construiu sua casa com as próprias mãos em regime de mutirão. Cleide Alves, presidente da Unas e integrante do Núcleo Mulheres e Territórios do Laboratório   Aos 58 anos, formada em Ciências Contábeis e Psicologia, Antonia Cleide Alves, presidente da Unas, é uma das lideranças comunitárias de peso que integram o Núcleo Mulheres e Territórios do Laboratório Arq.Futuro de Cidades do Insper. Embora centrada na questão do necessário e urgente estabelecimento de políticas públicas consistentes que atendam ao direito fundamental – constitucional, aliás – a uma moradia digna, seu trabalho tem se alargado para outras frentes. Na Unas, a educação, a violência contra a mulher e “outras formas de violências, como o desemprego, o atendimento precário na saúde, a falta de creches etc.” também mobilizam as atenções de Cleide e de sua equipe. “Hoje em dia se usa muito o termo ‘empoderamento’, numa perspectiva individual. Eu, de minha parte, destaco o ‘empoderamento coletivo’. Nós temos essa experiência do trabalho na ponta com as comunidades socialmente vulneráveis, a ‘tecnologia social’. E vocês, do Insper, nos trazem a parte teórica, que é chave para a nossa luta”, diz a presidente da Unas. Quando confrontada com o fato de, apesar do extraordinário protagonismo feminino nos movimentos comunitários, as mulheres continuam sub-representadas na política, Cleide afirma que isso se deve ao machismo que segue preponderante no país e ressalta os esforços que a Unas faz para tentar transformar tal mentalidade nos meninos do território. “Nós acreditamos em uma sociedade de equilíbrio entre homens e mulheres. Não queremos inverter a coisa: ‘Ah, antes era o homem? Então vamos virar o jogo e a mulher é que vai passar a mandar’. Nada disso. Nosso trabalho pedagógico é no sentido de desconstruir essa lógica, todas as lógicas que coloquem homens e mulheres como inimigos. Nós precisamos de uma sociedade formada por seres humanos que colaborem entre si e sejam tolerantes”.   No início de 1970, seus pais tomaram a decisão de deixar Ibicuã, no município de Piquet Carneiro, no sertão do Ceará, com a senhora e mais quatro filho, em busca de melhores oportunidades. Depois de passar um período em Mato Grosso, vocês vieram para a capital paulista, enfrentando desde o início o desafio de encontrar um teto.  Esse é um enredo muito parecido com o que foi vivenciado por milhões de brasileiros – e, pior do que isso: passadas mais de cinco décadas, o problema ainda está longe de ser superado. Atualmente, o déficit habitacional no país é de cerca de 6 milhões de moradias, a imensa maioria concentrada entre os mais pobres. Qual deveria ser o primeiro passo mudar, definitivamente, essa realidade? Nós saímos do sertão porque fomos expulsos: perdemos nossa terra por causa de uma briga de família. Mas teve também a questão da seca no Nordeste naquele período. Faltou comida. Meu pai escolheu Mato Grosso porque tinha uma irmã dele morando lá. Ela falou que tinha encontrado uma botija de ouro – e que estava muito bem. Só que, quando chegamos, vimos que não era verdade. Fomos, então, para uma fazenda. Tudo o que produzíamos tínhamos depois de comprar do fazendeiro. Era uma vida dura. Podíamos ter voltado para o Nordeste, mas, e a vergonha? Meu pai achou melhor partirmos para São Paulo. Na viagem, conhecemos uma família, que nos acolheu. Não vou me estender nisso, mas como foi dito, tivemos que enfrentar de saída o problema da moradia. Meu grande sonho, naquele momento, com 5 anos de idade, era ter uma casa. Como minha família era formada por pessoas analfabetas, não demorou muito para eu atribuir a isso a situação em que nós nos encontrávamos. Comecei a trabalhar com 9 anos. Escola era difícil – naquele tempo um pobre não podia pensar em “direito à educação”. Isso, hoje, mudou, reconheço. Porém cresci acreditando que se eu estudasse muito iria conseguir ter uma casa. Eu simplificava as coisas desse jeito. Não querendo interrompê-la: o seu entendimento era o de que a educação poderia salvá-la, e a senhora reconhece que o Brasil avançou nessa área. No entanto, a questão habitacional segue gravíssima… Na verdade, o que eu quero frisar é o seguinte: a falta de estudo naquele tempo era uma forma de dizer que você não tinha as coisas porque não havia frequentado a escola. Eu ouvia: “Você vá para a escola, estude bastante que você vai ter um emprego e conseguirá comprar uma casa”. Só que as coisas não se davam dessa maneira. Para começar, pobres nem tinham o acesso que têm hoje ao ensino. A questão de fundo mesmo é que o nosso país não tem distribuição de renda. Conforme fui me tornando adulta, percebi que mesmo eu estudando, mesmo trabalhando muito, eu não ia conseguir ter minha casa se eu não me juntasse às outras pessoas em situação semelhante. Só a educação e o trabalho não mudariam a minha realidade nem a dos que me rodeavam se a gente não partisse para o mutirão. Veio, então, a “política dos mutirões”: a prefeitura entrava com o terreno e o governo estadual ou federal dava a verba para nós construirmos as moradias. Ficou claro que a gente precisava se juntar para poder garantir o direito à habitação. Mas respondendo mais diretamente: precisamos de políticas públicas nessa área principalmente para os mais pobres. Programas como foi o Minha Casa Minha Vida para a faixa 1, a faixa 2… Quantas famílias precisaram recorrer a isso! É fundamental ter esse tipo de subsídio. É necessário que todas as pessoas tenham acesso a políticas públicas pra alcançarem uma melhor condição de vida, e tudo começa com um teto. Eu, por exemplo, construí minha casa com minhas mãos, participando dos mutirões de 1990 e 1991. Quando eu falo do MCMV faixa 1 e 2 é pensando na necessidade dessas pessoas que não terão condições de comprar sua casa e precisam do subsídio do Estado. Ou seja, educação só não basta. Precisamos de políticas públicas consistentes em outros setores, sobretudo em habitação. Em 1971, a Prefeitura removeu os moradores da área onde a senhora e sua família estavam, em Vila Prudente, levando todos para um alojamento supostamente provisório localizado em um terreno do Instituto de Administração Financeira da Previdência e Assistência Social (Iapas). Naquele lugar, em fins dos anos 60, tinha começado a ocupação que mais tarde formaria a favela de Heliópolis. Esse alojamento está na origem da Unas, criada em 1978 com o objetivo negociar com o poder público o direito a uma habitação digna e à posse da terra. Como foi esse início de engajamento da senhora na causa da moradia? A primeira luta foi para saber quem era, de fato, o dono da terra – havia muito grileiro – e focar a pressão junto à Prefeitura, que podia nos garantir o direito a ela e o direito de morar. Nossa comissão de moradores sempre lutou pelo direito à terra com a regularização fundiária. A gente costumava falar: “Se o joão-de-barro tem a sua casa, por que nós não podemos ter?” Como comentei, eu entendi que o trabalho precisava ser coletivo – e as pessoas pensavam assim também. Nesse sentido, foi “fácil”; tudo “conspirou” a nosso favor, porque aquela era uma vontade de todo mundo. Em 1984, a área em que nós estávamos instalados foi transferida do Iapas para o Banco Nacional de Habitação, o BNH, com vistas à organização de um programa de moradia Apesar disso, o medo de ser despejado ainda era grande na comunidade. Mas em 1993 conseguimos vencer uma ação de despejo e isso fortaleceu o movimento. Por muitos anos, essa vontade de ter um pedaço de chão nos mobilizou muito. Contudo, chegou uma hora em que a gente se deu conta de que o tempo da política, o tempo do poder público, é bem diferente do tempo da realidade. É como se um andasse de avião e o outro, sei lá, nem andasse. Mesmo com o Estatuto da Cidade, que é de 2001, a coisa ficou quase impraticável e, por isso, deixou de ser nossa prioridade. A gente entendeu que ia receber um papel que não resolveria a questão. A favela seguiu crescendo e se verticalizou; a documentação ficou inviável. Nós perdemos a luta de ter a escritura, mas, de qualquer forma, foi um vitória poder continuar naquele território. Como o movimento comandado pela Unas teve sequência? Nós começamos a olhar o dia a dia, em si, das pessoas, com especial atenção para a questão da violência. A violência como causa e não consequência, entende? Ou seja, o trabalho, então, se alargou, na linha do que Carmen Silva, líder do MSTC – Movimento Sem-Teto do Centro, costuma dizer: “A habitação é apenas a porta de entrada para outros direitos sociais”. Foi isso? Exatamente. Nesse aspecto, houve um “ponto de virada”: a Caminhada pela Paz, realizada em 1999. Naquele ano, uma adolescente de 15 anos chamada Leonarda, que vivia na comunidade, foi morta pelo namorado. Levou quatro tiros.  O crime mexeu com toda a população. O território, naquela época, vivia sob toque de recolher, por causa do tráfico. Nossos jovens já estavam morrendo em função das drogas e o caso da Leonarda escancarou outro problema: o da mulher, vítima frequente do machismo. Mas a Caminhada nasceu com o propósito de combater outras formas de violência também: do desemprego, do atendimento precário na saúde, da falta de creches etc. (nem preciso falar de novo da falta de moradia digna). E chegamos na questão da educação. Aqui eu gostaria de destacar o trabalho excepcional do Braz Nogueira, diretor da Unas, que em 1995 assumiu o comando da Escola Municipal de Ensino Fundamental Campos Sales. Lá ele teve uma atuação importantíssima, fazendo com que a escola se aproximasse da comunidade e vice-versa, dando base ao que nós passamos a chamar de “bairro educador”. Uma parceria entre a Unas, o governo do Estado, a prefeitura e o arquiteto Ruy Ohtake pôs de pé o Ceu Heliópolis Professora Arlete Persoli, inaugurado em 2015 – houve uma primeira fase, que começou em 2009, como Centro de Convivência Educacional e Cultural de Heliópolis. O Ceu foi derrubando muitos muros – tanto na relação entre escola e comunidade, conforme frisei antes, como também no próprio sentido da função de “educar”, que não se restringe à instituição oficial de ensino. “Derrubou o muro” também do ponto de vista da gestão, pois a direção do Ceu foi escolhida pela comunidade, em um modelo de governança de baixo para cima.   Isso mesmo. Foi extraordinário. Era uma gestão que incluía as pessoas, um projeto coletivo. Nós ficamos à frente dele até 2021, quando, em plena pandemia, perdemos a direção do Ceu – perdemos na arena da política, por causa da politicagem. Voltando ao bairro educador… Para mim, o que a ideia do bairro educador trouxe foi um “pacto civilizatório’’. A escola se tornou um centro de liderança desse “pacto”, não apenas no que dizia respeito à educação stricto sensu – imprescindível, claro, até porque, a grande maioria da diretoria da Unas naquele momento era analfabeta ou semianalfabeta – mas também em relação às questões sociais (da família, da criança, do idoso etc.). A senhora faz parte do Núcleo Mulheres e Territórios do Laboratório Arq.Futuro de Cidades do Insper. Como a aproximação com a academia se articula com o seu trabalho na Unas? Aqui dentro estou abordando principalmente a situação da moradia, que é muito precária em nosso território. As casas foram sendo construídas sem ventilação, sem luz, umas por cima das outras, com 20 metros quadrados para quatro pessoas. Quarenta por cento da comunidade pagam aluguel. E há gente aguardando o bolsa aluguel, porque suas casas foram removidas para melhorar o sistema viário. Temos ainda um movimento de sem-teto. Os investimentos que existiam antes em nível municipal, estadual e federal para projetos habitacionais desapareceram. Como estabelecer, concretamente, políticas públicas que atendam a esse direito fundamental que é a moradia? É sobretudo esse debate que estou articulando com o Laboratório. Está na nossa essência, quero dizer, na essência da nossa organização buscar soluções e parceiros que nos ajudem na transformação da realidade das comunidades. É esse sentido que a iniciativa do Laboratório Arq.Futuro de Cidades do Insper de criar um núcleo voltado para mulheres e territórios vulneráveis veio ao encontro do trabalho que todas nós – eu, Carmen Silva [MSTC], Eliana Sousa Silva [Redes da Maré], Ester Carro [Projeto Fazendinhando], Evaniza Rodrigues [União dos Movimentos de Moradia] – estamos desenvolvendo junto às nossas comunidades. Hoje em dia se usa muito o termo “empoderamento”, numa perspectiva individual. Eu, de minha parte, destaco o “empoderamento coletivo”. Nós temos essa experiência do trabalho na ponta com as comunidades socialmente vulneráveis, a “tecnologia social”. E vocês, do Insper, nos trazem a parte teórica, que é chave para a nossa luta. Acredito que seja fundamental essa colaboração entre comunidades e academia, além de governos e iniciativa privada, para a solução das principais questões sociais do Brasil. Essa “tecnologia social” que a senhora sublinha, que busca resolver questões em relação às quais o Estado é falho ou mesmo ausente levou a Unas a montar o Observatório De Olho na Quebrada. A senhora poderia falar um pouco dele? É preciso conhecer a realidade concretamente se, de fato, houver intenção de transformá-la. Sem dados não se faz boa política pública. Com esse pensamento, o apoio do Instituto Construção, da ActionAid Brasil, e o financiamento da Open Society Foundation criamos o Observatório de Olho na Quebrada, que teve um papel muito importante na pandemia. Ele nos ajudou a mapear os impactos da doença em nosso território, fazendo pesquisas que mostraram a realidade da crise sanitária no território. Nossa população é de 200 mil habitantes – 68% deles perderam renda, 20% não ficaram sem renda alguma e 42% não faziam três refeições por dia durante o surto de covid-19. Com informações como essas, foi possível trabalhar ao lado de diversos parceiros da sociedade civil para mitigar os impactos da pandemia no território – nós chegamos a distribuir, por exemplo, mais de 60 mil cestas básicas, mais de 200 mil itens de higiene e mais de 390 mil máscaras.. Quando se olha para os movimentos comunitários – os de moradia e tantos outros – chama a atenção o fato de que, via de regra, eles são comandados por mulheres (basta notar o grupo de colegas do Laboratório que a senhora citou). Duas questões: 1) Ao que a senhora atribuiria isso? 2) Apesar dessa constatação, e também do fato de as mulheres representarem a maioria do eleitorado brasileiro, elas permanecem sub-representadas na política. Por quê? Na verdade, é a mulherada que toca o dia a dia – em todos os locais. Mas não podemos esquecer que o Brasil é um país machista. Então, a gente luta, luta, e na hora da representação política vem à tona a raiz machista. Eu tenho 58 anos e apanhava da minha mãe porque queria ir para a escola à noite (já que trabalhava de dia). Ela dizia que mulher tinha que aprender a cozinhar, passar, costurar; tinha arrumar um homem. Isso ainda está impregnado na nossa cultura, inclusive no meio feminino. Persiste a ideia de que o homem é que tem de ir na frente, o homem é que tem de falar, o homem é que tem de estar na direção. Em todos os movimentos que existem dentro da Unas – LGBTQIA+, de negros etc. – são as mulheres que encabeçam. Apesar disso, na hora em que estamos em um encontro, se a gente não se policiar acaba colocando o homem lá na frente para falar. Nós aqui na Unas ficamos o tempo todo tomando cuidado para isso não acontecer, porque é algo muito enraizado. Esse machismo se reflete de modo incontestável no alto número de feminicídios, no crescimento de ocorrências de estupros nas quais as vítimas são do gênero feminino. Há, por meio da Unas, algum trabalho pedagógicos com relação aos meninos, em uma tentativa de alterar esse quadro no futuro? Sim, temos, porque nós acreditamos em uma sociedade de equilíbrio entre homens e mulheres. Não queremos inverter a coisa: “Ah, antes era o homem? Então vamos virar o jogo e a mulher é que vai passar a mandar”. Nada disso. Nosso trabalho pedagógico é no sentido de desconstruir essa lógica, todas as lógicas que coloquem homens e mulheres como inimigos. Nós precisamos de uma sociedade formada por seres humanos que colaborem entre si e sejam tolerantes. A gente fala para as mães que os meninos podem, sim, brincar de boneca e as meninas, de carrinho. Não é isso que vai fazer com que se tornem homossexuais. E a comunidade LGBTQIA+ precisa ser integrada, acolhida. O garoto, por sua vez, passa por grande sofrimento ao ser colocado na posição de que homem tem de mandar em mulher. Ao mesmo tempo, como disse antes, não ficamos pregando o oposto, fortalecendo as meninas para se sentirem mandonas. Não é essa a sociedade, dividida, em que acreditamos. Sempre que pensamos em um movimento social, vem à mente um modelo de gestão voltado para o espírito coletivo, comunitário. A senhora gerencia 800 pessoas, grande parte delas contratada em regime CLT, outras como PJ. Ou seja: a senhora é uma autêntica CEO; uma gestora que está o tempo inteiro agindo na administração do território e, simultaneamente, vivenciando suas vulnerabilidades. Estamos aqui dentro de uma escola que é referência na formação de profissionais para o mundo dos negócios. A senhora poderia falar um pouco dessa experiência que tem como gestora? Estou na condição de gestora, mas não atuo sozinha. Temos uma diretoria formada por 33 integrantes. Nela, há uma grande variedade de pessoas, de todas as idades, profissões etc. Nossa preocupação é fazermos uma gestão democrática e comunitária. Também cultivamos um ambiente de trabalho sadio, afinal, passamos a maior parte do tempo juntos. Outro aspecto relevante: a transparência. Ela é fundamental para mim. Quanto é o orçamento que temos, quanto vamos gastar comprando isso ou aquilo, por que estamos comprando. Nosso volume de recursos mensais é de 3 milhões de reais, usados para a gestão de 52 projetos sociais que impactam a vida de cerca de 10 mil pessoas todos os meses. Estou convencida de que os problemas encontrarão sua solução a partir do debate com todos. Tenho como plataforma de gestão não centralizar o poder. Por essa razão eu posso estar aqui agora, dando esta entrevista, porque sei que tem uma Solange Agda Cruz, por exemplo, diretora de comunicação e que atua fortemente na área da criança e do adolescente, que, se for chamada para falar, será levada em consideração – não precisa ser eu a estar lá tratando do assunto. Outro ponto: planejamento. Temos um planejamento para os quatro anos do meu mandato. Ele é periodicamente analisado. Todo ano fazemos uma assembleia geral, com quase mil pessoas. Nela, nós, da diretoria, prestamos nossas contas. A diretoria, aliás, se reúne uma vez por mês para tratar do andamento de tudo. A Executiva, um coletivo estatutário de sete membros, se reúne quinzenalmente. Em resumo: tenho ao meu lado dezenas de pessoas ajudando a gerenciar os recursos, a fazer o que é preciso, a cuidar do dia a dia da comunidade – ver o que está faltando, quem está precisando de uma atenção especial etc. Diálogo e confiança: em sua opinião, esse seria o caminho para uma governança bem-sucedida? Sem dúvida. Foi o que nos trouxe até aqui."}]