[{"jcr:title":"O conto de fadas da Disney na Flórida está chegando ao fim?"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"O conto de fadas da Disney na Flórida está chegando ao fim?","jcr:description":"O conflito do gigante de entretenimento com o governo do estado onde fica seu maior parque temático é uma história que tem a ver com todas as grandes empresas no mundo atual"},{"subtitle":"O conflito do gigante de entretenimento com o governo do estado onde fica seu maior parque temático é uma história que tem a ver com todas as grandes empresas no mundo atual","author":"Ernesto Yoshida","title":"O conto de fadas da Disney na Flórida está chegando ao fim?","content":"O conflito do gigante de entretenimento com o governo do estado onde fica seu maior parque temático é uma história que tem a ver com todas as grandes empresas no mundo atual   David Cohen   Desde que foi criada, em 1923, a Disney é a representação por excelência do mundo da fantasia, aquele em que todos estão do mesmo lado contra alguma ameaça maléfica e no final sempre triunfam. Nos últimos quatro meses, porém, ela se tornou um grande exemplo da dura realidade com que as empresas têm de se bater hoje em dia. Há uma proliferação de conflitos e a tradicional estratégia de não tomar partido — porque os negócios são neutros e pretendem servir a todos — parece não ser mais aceita. O atual problema da Disney começou no final de fevereiro, quando o governo da Flórida discutia uma lei para impedir que as escolas tratassem de temas sexuais com crianças pequenas. Para dar uma ideia do quão controversa é essa lei, basta dizer como ela ficou conhecida: oficialmente, é o Decreto dos Direitos Parentais na Educação; seu apelido, para os progressistas em geral, é “Não Diga Gay”. O principal objetivo da lei é barrar discussões sobre orientação sexual ou identidade de gênero desde o jardim de infância até o terceiro ano do ensino fundamental. Nas séries seguintes, aulas sobre esses tópicos são proibidas, a não ser que sejam “apropriadas à idade e ao estágio de desenvolvimento” das crianças, uma fronteira bastante vaga. De acordo com a lei, os pais têm o direito de processar as escolas em casos de violação de seus termos. Apoiadores da lei afirmam que as crianças são sujeitas a excessos e doutrinação de gênero nas escolas desde a mais tenra idade. Seus opositores apontam que o texto é tão vago que abarca qualquer tipo de educação sexual e sobre identidade de gênero, abrindo caminho para inúmeros processos. A princípio, a Disney tomou o caminho tradicional das empresas: ficou quieta. Mas não demorou muito para que seu executivo-chefe, Bob Chapek, começasse a sentir a pressão interna. Entre seus 80.000 empregados no estado há um grande e influente grupo de profissionais progressistas, com posições firmes em prol da diversidade. Funcionários dos estúdios Lucasfilm, em São Francisco, e do parque de diversões Disney World, na Flórida, se queixaram aos gerentes. A Associação de Animadores qualificou o silêncio de Chapek como um “enorme passo em falso” (ainda mais ressaltado porque seu antecessor, Bob Iger, condenou a lei pelo Twitter). Uma coluna de opinião do jornal The Los Angeles Times considerou que a empresa “inaugurou um novo padrão para a covardia corporativa”. Em 9 de março, um dia depois de a Câmara dos Deputados da Flórida aprovar a lei, Chapek finalmente se manifestou. Em encontro virtual com acionistas, ele abordou o assunto somente após a apresentação dos resultados da companhia. Disse que a Disney foi contra o projeto de lei desde o início, mas não tinha se manifestado por acreditar que poderia ser mais eficiente trabalhando nos bastidores, diretamente com os legisladores. Uma vez que esse esforço falhou, Chapek disse ter telefonado para o governador Ron DeSantis “para expressar o desapontamento e a preocupação de que, se a lei for sancionada, poderia ser usada para injustamente atacar crianças e famílias gays, lésbicas, não-binárias e transgênero”. Chapek também prometeu doar 5 milhões de dólares para apoiar organizações LGBTQ, incluindo o grupo Campanha pelos Direitos Humanos, “para que estejam mais bem equipados para essas lutas”. A Campanha pelos Direitos Humanos rejeitou a doação, dizendo que a atitude da Disney era “apenas um primeiro passo” e que não aceitaria o dinheiro até que a companhia demonstrasse mais comprometimento com a causa.   O fim da autonomia? Já o governador DeSantis considerou o primeiro passo da Disney mais do que suficiente. “Se a Disney quer comprar uma briga, escolheram o sujeito errado”, escreveu em email de arrecadação de fundos para campanha. A retaliação veio rápida. O governador liderou a bancada republicana na aprovação de uma outra lei, no dia 22 de abril, para revogar a autonomia fiscal e regulatória da Disney, algo de que ela goza desde 1967. De acordo com a antiga lei, o parque Walt Disney World tem permissão para atuar praticamente como um governo. Na área de cerca de 100 quilômetros quadrados entre os condados de Orange e Osceola, estabelecida como um distrito chamado Reedy Creek, a empresa é dona de sua própria infraestrutura, cuida dos serviços de emergência (como o corpo de bombeiros, clínicas médicas, coleta de lixo), é responsável por seus próprios códigos de segurança e saúde. O distrito coleta seus próprios impostos e pode emitir permissões para que a Disney construa o que quiser. Se quiser erguer mais um hotel ou uma nova rodovia, ela não precisa passar pelos trâmites burocráticos do governo da Flórida. Tudo isso a nova lei vai revogar, a partir de junho de 2023. A não ser que, até lá, se chegue a um acordo. A revogação do status especial da Disney poderia sair cara para os cidadãos de Orange e Osceola, já que as dívidas do Reedy Creek recairiam sobre eles. Analistas calculam que os impostos teriam que subir cerca de 20%. DeSantis diz que não haveria prejuízo para os cidadãos, pois ele aumentaria os impostos da própria Disney. No limite, a situação poderia escalar até para uma realocação do parque. Aproveitando a crise, o governador do Colorado, Jared Polis, disse que os legisladores de seu estado “não se metem nos assuntos das empresas”. Várias outras localidades adorariam sediar um parque da Disney, com sua exuberante capacidade de atrair turistas e gerar empregos (ela é a companhia que mais emprega na Flórida). O mais provável, no entanto, é que se chegue a algum tipo de entendimento. A própria decisão de retirar o status especial da Disney como retaliação por opiniões de seus líderes é inconstitucional, diz Ian Millhiser, colunista de questões jurídicas no site de notícias Vox. De acordo com o advogado Jacob Schumer, em artigo no site da Boomblerg, o governo da Flórida não pode revogar o status especial da Disney porque prometeu aos investidores que compraram títulos de Reedy Creek (e financiam sua dívida) que não o faria. “Se Reedy Creek fosse algum dia dissolvido, o processo seria extremamente complicado mesmo em um prazo de vários anos, e mesmo assim a extinção teria que esperar até que todos os títulos tivessem sido pagos integralmente”, escreveu. A Disney não parece tão preocupada com a investida de DeSantis. Enviou uma nota a investidores dizendo-se confiante de que a tentativa de dissolver o distrito não tem apoio na lei.   Capitalismo woke De qualquer maneira, a posição em que a empresa foi colocada é incômoda. Na Fox News, o canal de TV mais identificado com os conservadores (e com o ex-presidente Donald Trump), os âncoras passaram a se referir à empresa como “Woke Disney”. O termo “woke”, com o sentido de “acordado”, originalmente significava “alerta para a discriminação racial” e depois adquiriu o sentido mais amplo de alerta para todas as desigualdades sociais, incluindo sexismo. Dependendo da posição ideológica de quem o utiliza, o termo pode ser pejorativo. Não é uma posição apenas da Disney. Grandes empresas são usualmente atacadas pelos candidatos do Partido Democrata. O Partido Republicano costumava ser aquele que as defendia. Uma das primeiras medidas do governo Trump, por exemplo, foi um grande corte nos impostos corporativos. Mas sua base de apoio é cada vez mais desconfiada de praticamente todas as instituições (com exceção, talvez, das religiosas e militares). E líderes populistas, como DeSantis, que almeja disputar a presidência do país, passaram a atacar as grandes companhias. Em parte, isso ocorre porque várias delas passaram a tomar posição em diversos assuntos. E, na maioria das vezes, essas posições são progressistas. Como o apoio à diversidade, por exemplo. Ou, no caso da pandemia, o apoio à vacinação. Uma rusga recente entre a Disney e DeSantis ocorreu no final de 2021. A empresa havia exigido que os seus empregados apresentassem certificados de vacinação para comparecer ao local de trabalho. Em novembro, o governador sancionou uma lei restringindo esse tipo de exigência. De acordo com o decreto, os funcionários podem não se vacinar caso já tenham se recuperado de uma infecção de covid-19; caso prefiram usar equipamentos de proteção (fornecidos pelo empregador); caso aceitem fazer testes regulares para detectar o vírus; caso digam (no caso de mulheres) que planejam engravidar…   A nova postura das empresas Até pouco tempo atrás, as empresas adotavam a posição que ficou definida nos Estados Unidos por um comentário do astro do basquete Michael Jordan. Em 1990, quando lhe pediram que apoiasse um candidato negro da Carolina do Norte ao Senado, pelo Partido Democrata, ele respondeu: “os republicanos também compram tênis” (dos quais ele fazia propaganda). Num documentário sobre ele exibido em 2020, Jordan disse que deu contribuições à campanha do democrata, mas não falaria por “alguém que não conheço”. Essa era a posição considerada sensata para a maior parte das empresas. Neste novo milênio, especialmente de uma década para cá, não é mais. O consenso entre grandes empresários agora — explícito, por exemplo, nos últimos quatro anos no Fórum Mundial de Davos, na Suíça — é que as companhias devem se preocupar não apenas com seus acionistas, mas com os empregados, consumidores, fornecedores, a comunidade, o meio ambiente… com tudo. O caso da Disney é exemplar. Bob Iger, o antecessor de Chapek, presidiu durante 15 uma senhora de uma adequação da companhia aos novos tempos. Em 2009, a Disney lançou sua primeira princesa negra (Tiana, da animação A Princesa e o Sapo ). A franquia Star Wars foi remodelada em torno de personagens femininos. Os desenhos passaram a mostrar uma variedade de etnias e culturas: Moana (polinésia), Coco (mexicano), Soul (negro), Encanto (Colômbia), Raya e o Último Dragão (Sudeste Asiático). Iger impulsionou também o filme do super-herói Pantera Negra, lançado em 2018, com elenco quase totalmente negro. Eternos, um filme de 2021, trazia um super-herói gay que beijava seu marido. Grupos conservadores fizeram campanha de críticas negativas, com centenas de avaliações de apenas uma estrela no site de resenhas IMDB. Claro, esse caminho é repleto de obstáculos. Em janeiro, o ator Peter Dinklage, que tem nanismo, criticou a Disney por planejar fazer um filme da Branca de Neve e os Sete Anões. “Vão fazer de novo aquela porcaria de história de sete anões morando numa caverna juntos”, disse, ao ser entrevistado em um podcast. Pouco depois foi revelado que a companhia planejava substituir os anões por criaturas mágicas, criadas digitalmente. E aí surgiram queixas sobre “apagar” as figuras com nanismo. Quando iniciou seu serviço de streaming, em 2019, a Disney incluiu advertências no início de vários programas que traziam impressões negativas ou tratamento prejudicial a pessoas ou culturas. A advertência afirma: “Esses estereótipos eram errados na época e são errados agora”. Com a saída de Iger (para um cargo de presidente do conselho, ainda supervisionando Chapek até o início deste ano), a Disney manteve a tendência de abraçar a diversidade. No ano passado, o parque abandonou a maneira antiga de apresentar suas atrações. Em vez de “senhoras e senhores, meninos e meninas”, agora o anúncio é: “sonhadores de todas as idades”. O filme Lightyear, que deve estrear em junho, é estrelado por um casal de lésbicas. De acordo com The New York Times , na última reunião com investidores, em abril, Chapek foi confrontado por acionistas de esquerda e direita. Primeiro, um acionista reclamou que a Disney dá contribuições a legisladores que apoiam leis para restringir a facilidade de votar e os direitos reprodutivos das mulheres. Chapek respondeu que a política da empresa era apoiar financeiramente “os dois lados”. Um representante de um grupo de acionistas então falou ao microfone que a Disney sempre foi um refúgio para as crianças e pediu que a companhia “largasse a politização e a ideologia de gênero”. Chapek espondeu, notando as diferenças entre os dois comentários: “Acho que todos aqui podem ver o quão difícil é se equilibrar entre os pontos de vistas tão polarizados”."}]