[{"jcr:title":"Sabe o que valorizou mais que o petróleo nos últimos tempos? O vento"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"Sabe o que valorizou mais que o petróleo nos últimos tempos? O vento","jcr:description":"Com avanços tecnológicos que permitem a instalação de turbinas em alto-mar, a energia eólica experimenta um boom — inclusive no Brasil. Mas nem todo mundo está feliz com esse avanço"},{"subtitle":"Com avanços tecnológicos que permitem a instalação de turbinas em alto-mar, a energia eólica experimenta um boom — inclusive no Brasil. Mas nem todo mundo está feliz com esse avanço","author":"Ernesto Yoshida","title":"Sabe o que valorizou mais que o petróleo nos últimos tempos? O vento","content":"Com avanços tecnológicos que permitem a instalação de turbinas em alto-mar, a energia eólica experimenta um boom — inclusive no Brasil. Mas nem todo mundo está feliz com esse avanço   David Cohen   Se você acha que o petróleo está sobrevalorizado, imagine o vento. No final de fevereiro, depois de um leilão que durou três dias, o governo americano arrecadou US$ 4,4 bilhões pelo arrendamento de uma área de quase 2 mil quilômetros quadrados no mar, em frente a Nova York e Nova Jersey, lugares onde serão instaladas turbinas eólicas. O leilão foi dividido em seis blocos, arrematados por grandes empresas internacionais — um consórcio entre a alemã RWE e a britânica National Grid, uma parceria entre a Shell e a empresa de energia francesa EDF, uma joint-venture da portuguesa EDP Renewables com a francesa Engie. “A venda deixa uma coisa muito clara: o entusiasmo pela energia limpa é inegável e veio para ficar”, afirmou a secretária do Interior dos Estados Unidos, Deb Haaland. Uma medida desse entusiasmo é a diferença entre o valor arrecadado agora e o preço obtido no leilão anterior feito pelos Estados Unidos. Por uma área cerca de 20% menor, na costa de Massachusetts, em 2018 o governo arrecadou US$ 405 milhões — menos de 10% do novo licenciamento. E vem mais por aí. De acordo com os planos, este foi o primeiro de sete leilões de áreas marítimas para instalação de turbinas de vento até o final de 2025. Os próximos, ainda neste ano, deverão ser nas costas das duas Carolinas e da Califórnia. A meta é instalar usinas com potência combinada de 30 gigawatts (GW) nas águas americanas até 2030, o suficiente para fornecer energia para 10 milhões de lares por ano. Os leilões se encaixam na estratégia do presidente Joe Biden de diminuir drasticamente a dependência do país de fontes de energia não renovável, com o duplo objetivo de atenuar as mudanças climáticas e criar empregos. O projeto Build Back Better (reconstruir melhor), com gastos sociais de US$ 2,2 trilhões, incluía reduções de impostos de US$ 320 bilhões para produtores e consumidores de energia eólica, solar e nuclear, mas está parado no Senado. A tática do governo será tratar de passar partes do projeto em separado – e as medidas em prol da energia limpa e da proteção ao meio ambiente têm boas chances.   Projetos pelo mundo Os Estados Unidos não estão sozinhos nessa corrida para capturar o vento. Nos últimos dois anos, a China, líder mundial em energia eólica, aumentou em cerca de 30% sua capacidade instalada: de 236 GW de potência em 2019, passou para quase 330 GW. Os Estados Unidos tiveram evolução percentual semelhante: foram de 105 GW para 135 GW em dois anos. A Índia ainda é o terceiro maior mercado da energia solar, com cerca de 40 GW (eram 38 GW em 2019). E o Brasil ultrapassou a França para ficar com o quarto posto: em 2019, tinha capacidade de 15,5 GW (ante 16,6 GW da França), em janeiro deste ano alcançou a marca de 21 GW (a França agora tem 19 GW). Atrás vêm Canadá, Suécia, Turquia, México e Austrália. Com a estigmatização da energia nuclear pelo temor de acidentes (o mais recente, em Fukushima, no Japão, em 2011, destroçou os projetos do setor na Europa), as principais apostas para substituir o carbono são a energia solar e eólica. A solar era vista como mais abundante e saiu na frente, especialmente graças aos subsídios e impulsos que começaram nas décadas de 1980 e 1990, Alemanha e Japão à frente. A China, que fabricava painéis solares para atender o mercado alemão, no início do milênio passou a fabricar também para o (gigantesco) mercado interno. Na última década, a demanda global contribuiu para ganhos de escala e avanços tecnológicos que derrubaram os preços da energia solar em 89%, de acordo com a consultoria financeira Lazard. A energia eólica teve menos adesão inicial, mas nas últimas duas décadas tem recebido investimentos crescentes. O mundo passou de uma capacidade total de 7,5 GW, em 1997, para 564 GW em 2018, quase 5% de toda a energia elétrica usada no planeta, de acordo com a Agência Internacional de Energia Renovável (Irena, na sigla em inglês). O maior avanço foi na última década, em que o preço da eletricidade gerada por ventos caiu 70%, de acordo com a Lazard — incluindo a construção das usinas e os custos de operação durante sua vida útil.   Até 250 metros de altura Nos últimos quatro anos, o ritmo de adoção da energia eólica aumentou ainda mais, tanto para cumprir metas globais de mitigação das mudanças climáticas como pelo avanço da tecnologia, que trouxe ganhos de eficiência extraordinários. A engenharia evoluiu de tal forma que elas estão maiores e melhores — as duas qualidades andam juntas: quanto maior o diâmetro das pás, mais vento as atinge e mais rápidas elas ficam. As turbinas modernas começam a gerar eletricidade quando os ventos que as atingem chegam a 10 km/h. Em teoria, quando a velocidade do vento dobra, o potencial energético é multiplicado por oito. Se o vento passar dos 90 km/h, a turbina desliga, para evitar danos ao equipamento. Hoje em dia, as turbinas conseguem gerar quantidades razoáveis de energia mais de 90% do tempo. Em 1990, uma torre com as pás para capturar a energia dos ventos tinha em média 30 metros, com potência de 0,2 MW. Dez anos depois, a altura havia dobrado e a capacidade média saltou para 0,9 MW. Em 2010, a altura média das novas torres passou para 80 metros, com potência de 1,8 MW. Hoje elas têm altura média de 90 metros com 3 MW de potência. Isso as turbinas colocadas em terra. O novo salto está se dando na tecnologia para colocar turbinas no mar, mais longe da costa ( offshore ) — como as da área leiloada em Nova York. Não é que já não haja turbinas no mar. Há, mas até pouquíssimo tempo atrás elas estavam restritas a águas pouco profundas (no máximo 60 metros) e perto da costa (para facilitar a transmissão da energia). As vantagens de construir no mar são evidentes. Lá estão alguns dos locais de ventos mais fortes, não obstruídos por montanhas nem prédios. Ocorre que 80% dos locais com melhores ventos têm profundidades maiores que 60 metros. Não só isso, no mar as estruturas podem ser maiores: hoje as turbinas marítimas têm em média 100 metros de altura — o diâmetro das pás chega a 150 metros —, com potência de 6 MW. Estima-se que em 2035 elas tenham 150 metros de altura, com diâmetro das pás de 250 metros, gerando 17 MW de potência. Colocá-las de pé, em águas profundas, é um desafio e tanto, que começou a ser vencido apenas na última década. Pesquisadores e engenheiros testaram diversos protótipos de plataformas para instalar turbinas gigantes e chegaram a algumas soluções, essencialmente quatro, que combinam um fio preso ao fundo do mar com plataformas que se equilibram para manter a torre de pé. A mais comum é uma plataforma semi-submersível.   O futuro está no mar Vencidas as limitações técnicas, e pressionados pelas mudanças climáticas, vários países entraram na febre dos ventos — tanto a onshore (em terra), que já estava em curso, como a offshore (as fixas, a menos de 60 metros de profundidade, e as flutuantes, em alto-mar). Segundo um relatório da Agência Internacional de Energia, em 2020 a geração de energia eólica onshore aumentou 11% em relação ao ano anterior. O crescimento da offshore foi quase o triplo, 29% — embora isso se deva ao fato de a base de cálculo ser menor; em números absolutos, o onshore subiu 144 TWh (terawatts-hora), o offshore subiu 25 TWh. De qualquer forma, é aí que estão as grandes apostas. Em julho do ano passado, a Shell, uma companhia de óleo e gás, e a Scottish Power, do grupo espanhol Iberdrola, propuseram ao governo britânico a construção da primeira leva de turbinas flutuantes em grande escala do mundo, na costa da Escócia. Até agora, a maior dessas usinas em alto-mar fica no Mar do Norte e tem potência de 50 MW; o novo projeto, dizem as duas empresas, terá um potência da ordem dos giga, não dos megawatts (com potência entre cem e mil vezes maior). Um outro novo projeto no Mar do Norte, da empresa espanhola Equinor, está em construção, com previsão de entregar uma potência de 88 MW. Em frente à costa da Coreia do Sul, no ano que vem devem ser iniciadas obras de instalação de um outro projeto de turbinas flutuantes, para entregar uma potência de 500 MW. Os Estados Unidos, que só têm cinco instalações offshore (ante mais de 4.000 da Europa) têm a meta descrita acima de chegar a 30 MW nos próximos anos com as turbinas offshore — ainda bem abaixo dos 124 GW de turbinas onshore , mas com enorme potencial de alcançá-las no futuro. No Japão, o Parlamento aprovou neste ano uma nova lei para permitir áreas de desenvolvimento energético com grandes projetos. Em fevereiro, o presidente da França, Emmanuel Macron, anunciou que o país vai construir 50 usinas eólicas, com uma capacidade combinada de pelo menos 40 GW. A Alemanha, uma das pioneiras em projetos de energia limpa, tem agora um governo de coalizão unido especialmente em torno do objetivo de tornar o país neutro em carbono até 2045. Para atingir a meta de suprir 80% da eletricidade consumida no país por meio de fontes renováveis (quase o dobro dos 42% de hoje), o governo planeja instalar mais de 100 GW de energia eólica ( onshore ) até o fim da década.   O avanço brasileiro O Brasil não fica atrás. De acordo com um relatório do Banco Mundial, o país tem potencial de instalação de 480 GW offshore com turbinas fixas e mais 748 GW com turbinas flutuantes. Além de compensar a diminuição relativa das hidrelétricas em sua matriz energética (que sofreram recuos por causa de questões ambientais), a energia eólica tem a vantagem de fornecer empregos. Como aponta a economista Julia Fonteles, que faz mestrado em Energia e Meio Ambiente na universidade americana Johns Hopkins, em artigo para o site Poder 360, as plataformas de turbinas flutuantes podem aproveitar mão de obra do setor da indústria fóssil, e o Brasil é uma das grandes forças mundiais em plataformas marítimas, tendo desenvolvido bastante tecnologia para a exploração do petróleo em áreas de pré-sal. “As plataformas, os cabos de conexão e conhecimento marinho e técnico são muito parecidos, tornando a transição energética mais justa e menos danosa para os trabalhadores”, escreveu Julia. Para aproveitar esse potencial todo, o governo editou no final de janeiro um decreto para regular a geração de energia elétrica offshore . E os projetos estão se multiplicando. Em julho do ano passado, o Ibama contabilizava projetos de energia eólica que prometiam a instalação de 42 GW de potência. No final de janeiro, eles já somavam 80 GW. E, em março, a Shell anunciou um pedido de licenciamento de mais seis projetos offshore — em Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul —, com previsão de entrega de 17 MW. Quer dizer, os projetos já somam 97 MW, quase cinco vezes a capacidade atual no Brasil (de 21W). Essa potência toda não vai chegar já, mas as estimativas são alvissareiras. O país levou 20 anos para chegar à marca dos 20 GW; em metade desse tempo, deverá atingir o triplo da potência. Calcula-se que, em 2030, a capacidade instalada onshore salte para 40 GW e a offshore seja de 20 GW.   Verdes contra verdes Nem todo mundo fica tão satisfeito com esse avanço. Pescadores reclamam que os projetos têm o potencial de prejudicar seu sustento, alterando a vida marítima local, e desvalorizar suas propriedades. Embora forneçam energia renovável, as turbinas têm seu impacto: produzem poluição sonora e alteram a paisagem. Esse tipo de preocupação faz com que muita gente seja favorável à energia eólica… mas longe. Os americanos têm uma sigla para definir esse problema: Nimby, acrônimo para not in my backyard ( não no meu quintal). O ex-presidente americano Donald Trump, por exemplo, gastou uma pequena fortuna tentando evitar a instalação de turbinas que atrapalhariam a vista em seu clube de golfe na Escócia. Caso volte à presidência, é possível que as políticas de incentivo à energia eólica nos Estados Unidos sofram algum recuo — embora estados usualmente identificados com seu Partido Republicano, como o Texas, estejam abraçando a nova indústria com ímpeto. Tanto a questão da vista como a da poluição sonora são amenizadas com as usinas offshore . Com o avanço da tecnologia, as turbinas ficaram maiores e mais eficientes — e pode haver menos delas, a uma distância maior da costa. Uma outra objeção é mais difícil de rebater: suas pás podem ferir ou matar pássaros e morcegos. A construção também pode perturbar a vida em ecossistemas marítimos. O avanço da energia eólica, portanto, tende a criar uma tensão curiosa dentro do movimento verde, entre os ativistas do clima e os conservacionistas."}]