[{"jcr:title":"Livro traz propostas para reconstruir o Brasil sobre novos alicerces"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"Livro traz propostas para reconstruir o Brasil sobre novos alicerces","jcr:description":"A professora Laura Karpuska fala sobre “Reconstrução: o Brasil nos anos 20”, um convite à reflexão sobre políticas públicas em temas-chave na história recente do país"},{"subtitle":"A professora Laura Karpuska fala sobre “Reconstrução: o Brasil nos anos 20”, um convite à reflexão sobre políticas públicas em temas-chave na história recente do país","author":"Ernesto Yoshida","title":"Livro traz propostas para reconstruir o Brasil sobre novos alicerces","content":"A professora Laura Karpuska fala sobre “Reconstrução: o Brasil nos anos 20”, um convite à reflexão sobre políticas públicas em temas-chave na história recente do país   No texto de apresentação do livro Reconstrução: o Brasil nos anos 20 , os organizadores — os economistas Felipe Salto e Laura Karpuska e o jornalista e cientista político João Villaverde — fazem uma síntese do Brasil pós-redemocratização, em 1985. É o que eles chamam de período de construção do país. Entre alguns fatos importantes dessa época estão a promulgação da Constituição Cidadã (1988), a criação do Sistema Único de Saúde (1990), o anúncio do Plano Real (1994), o lançamento do programa Bolsa Família (2003) e a criação da lei de cotas raciais nas universidades (2012). Os organizadores do livro se dizem filhos desse período histórico. “Somos justamente da geração da construção: nascemos antes da Constituição de 1988, mas após o debacle do regime militar. Os problemas da ‘nossa turma’ não eram a luta pela redemocratização ou o enfrentamento da hiperinflação. Isso já tinha sido resolvido. Somos, portanto, gratos pela construção que nos antecedeu.” Esse período, no entanto, segundo os organizadores do livro, foi interrompido pelo governo de Jair Bolsonaro, que se opõe a “toda e qualquer reforma modernizante realizada no país”. O ponto alto da destruição bolsonarista, de acordo com eles, ocorreu durante a pandemia, quando o presidente sabotou a vacinação e “estimulou conflitos institucionais enquanto o país enterrava milhares de pessoas por dia”. Eis a razão do livro, segundo os organizadores: é preciso reconstruir o país. Não se trata de voltar ao estado de coisas pré-Bolsonaro, um ambiente tóxico o suficiente para ter gerado o bolsonarismo. “O país sofria com o encarceramento em massa de jovens negros e pobres e estava preso em uma ciranda de baixo crescimento econômico e elevada precariedade social. Problemas havia e muitos deles eram óbvios”, afirmam os organizadores do livro. A obra, composta por 20 capítulos, propõe a reconstrução do Brasil sobre novas base. E convida os leitores à reflexão em diferentes áreas: política econômica, meio ambiente, direitos humanos, sistema de governo, questão racial, educação básica, ensino superior e técnico, programas sociais, política tributária, papel do Estado, debate federativo, SUS, habitação, desenvolvimento econômico e seu financiamento. Os autores que colaboraram na obra fazem parte de um grupo de discussão que surgiu no fim de 2020 e que se reunia a distância para debater os temas do livro. Cada capítulo contém um diagnóstico do problema e também ideias de soluções. Na entrevista a seguir, uma das organizadores do livro, [Laura Karpuska](https://www.insper.edu.br/pesquisa-e-conhecimento/docentes-pesquisadores/laura-karpuska/) , professora do Insper, dá mais detalhes sobre a obra, que foi lançada no dia 22 de fevereiro.   Como surgiu a ideia desse livro? O livro nasceu de um grupo de discussões. O Felipe Salto e o João Villaverde, os outros dois organizadores, me chamaram para participar de um grupo de discussões em 2020, em um momento de muita indignação com a conjuntura política em que vivíamos, e ainda vivemos, e que foi escancarada pela pandemia. O grupo se reunia aos sábados, a cada 15 dias, para discutir temas relevantes para o Brasil. Cada pessoa convidava alguém de outra área para expandirmos os horizontes e não ficarmos numa bolha só de economistas e cientistas políticos. Fomos trocando ideias com pessoas diferentes, pertencentes a um amplo espectro político, que pensam as coisas de forma diferente. Sempre que nos reuníamos, alguém falava sobre um determinado tema. Por exemplo, falava sobre o meio ambiente, contextualizando o que aconteceu no Brasil desde a redemocratização, quais são as leis aplicáveis, qual a situação em que nos encontramos e o que poderíamos fazer de diferente para solucionar os problemas da área. Com o tempo, foi quase natural a decisão de fazermos um compilado das ideias que estavam sendo debatidas e publicar um livro.   O objetivo era fazer um livro que não se limitasse a fazer reflexões sobre os problemas, mas também apresentasse propostas para solucionar esses problemas? Sim, sem dúvida. Em uma democracia jovem como a brasileira, é comum personificar o debate eleitoral. E quando personificamos o debate eleitoral, fica muito fácil para os candidatos fomentarem propostas vazias. Estamos acostumados a ouvir platitudes como “a educação tem que melhorar”, “a saúde é um direito de todos”, e, obviamente, todos vão concordar com isso. Um ponto em comum entre os autores do livro é que pertencemos a uma geração que tomou como dado o fato de que as instituições brasileiras iriam resistir aos ciclos de altos e baixos que enfrentaríamos em nosso processo como país. A maior parte de nós nasceu já no período de decadência da ditadura militar. Crescemos num país que tinha uma nova Constituição, o Plano Real, que estabilizou a economia, a preocupação com cotas raciais, a criação do Prouni e do Ibama, entre outras coisas. De alguma forma, a acabamos tomando tudo isso como dado e, quando vimos que essas coisas poderiam de alguma forma ser frágeis no nosso ambiente, tornou-se inevitável que, na hora de discutir o país, pensássemos de forma propositiva. Para nossa geração, trabalhar com base em evidência e discutir políticas públicas, olhando para outros países e para o próprio Brasil, tornaram-se algo muito natural, independentemente da área de atuação de cada um. Acho que o pensamento propositivo do livro nasce daí, da história do nosso país e também da formação técnica dos autores.   A ideia é que as propostas apresentadas no livro possam de alguma forma servir de subsídio para os candidatos que vão disputar a eleição neste ano? Vocês lançaram o livro mirando a eleição de 2022? Não, o grupo pensou o livro como uma forma de tentar fazer algo útil diante da nossa indignação, sabendo que tínhamos o privilégio de ficar em casa trabalhando e observando tudo o que acontecia durante a pandemia. O livro veio como uma ideia de atingir pessoas que tenham interesse por políticas públicas, de uma forma muito ampla. Pensamos em alunos de administração pública, economistas, cientistas políticos, advogados, jornalistas, pessoas que estão no debate público ou que querem entrar no debate público. Mas, como Persio Arida disse de maneira muito feliz no prefácio, estamos em 2022 e em ano eleitoral cresce o interesse pelas políticas públicas. Então, embora a gente não tenha mirado isso, espero que o livro possa acrescentar algo para o debate de políticas públicas entre os candidatos. A nossa ideia não é discutir ideologias. É claro que todos temos as nossas preferências ideológicas, mas espero que possamos parametrizar essas discussões políticas de uma forma mais técnica.   Um dos capítulos, que você escreveu com Felipe Salto e Ricardo Barboza, traça a história recente da política econômica no Brasil. Vocês mostram que, entre 1980 e 2020, o PIB per capita do Brasil cresceu 24%, enquanto a média nos países emergentes foi bem maior: um aumento de 189%. Até mesmo os países ricos conseguiram avançar mais, com um crescimento de 86% no período. O que deu errado no Brasil? É muito difícil apontar o dedo somente para uma questão. Nesse capítulo, procuramos resumir em 10 pontos o que enxergamos como sendo os principais problemas do Brasil. Convido as pessoas a lerem o livro para conhecer esses 10 pontos, mas o que posso antecipar é que alguns deles já vêm sendo discutidos há algum tempo e há até mesmo projeto de lei tramitando no Congresso, como é o caso da proposta de reforma tributária. O Brasil tem um dos sistemas tributários mais complexos do mundo, e não estou falando nem do nível da carga tributária, mas da complexidade do sistema. Obviamente, isso não é bom nem para o empreendedorismo, nem para a atividade econômica. É preciso dizer também que é muito difícil discutir economia hoje sem discutir outras questões sociais. Não podemos falar de economia sem falar, por exemplo, de desigualdade. Não existe mais aquele debate que houve no passado de que precisamos esperar o bolo crescer para repartir. Na verdade, a desigualdade é um fator que breca o crescimento econômico. Há evidências disso no mundo inteiro. Acreditamos também que políticas públicas que ajudem a reduzir a desigualdade são bem-vindas para estimular o crescimento econômico. E quando falamos de desigualdade, não estamos nos referindo somente à desigualdade de renda, mas também de acesso à educação, à saúde, ao sistema jurídico. Ela tem um caráter multidimensional.   Ainda no capítulo sobre a história da política econômica no Brasil, vocês citam o episódio do impeachment da presidente Dilma Rousseff e afirmam que, a partir de então, a política tomou o centro do palco brasileiro, onde permanece até hoje. Esse papel preponderante da política no Brasil é muito diferente do que acontece em outros países? Eu acho que não. No mundo inteiro, a política nos últimos anos ficou um pouco mais em evidência. Todos nós temos conhecidos que não tinham ideia do candidato em quem tinham votado para prefeito, muito menos para deputado, mas nos últimos dois ou três anos eles estão superconectados com tudo. Têm muitas opiniões sobre políticas públicas, meio ambiente, vacinação, a participação do Brasil nas relações internacionais globais. A política realmente tomou conta, e o Brasil não é uma exceção. Morei nos Estados Unidos entre 2013 e 2019, e lá também foi nítida essa mudança. Há um contexto global para isso. O fato de estarmos vivendo uma piora na economia acaba exacerbando o conflito entre pessoas que pensam de forma diferente. No Brasil, nós citamos no livro que, no dia 17 de julho de 2015, o então presidente da Câmara, Eduardo da Cunha, anunciou que passaria a ser oposição ao governo, um episódio que culminaria no impeachment da presidente Dilma. Ao relermos os jornais da época, ficou muito nítido que, a partir daquele dia, as discussões mudaram de rumo no país. A preocupação com a economia era muito marcante naquele tempo, a gente vivia uma situação econômica já preocupante, mas a partir daquele momento a economia ficou vinculada a uma discussão política. Ainda hoje temos discussões primariamente políticas que mostram que, de fato, estamos presos nessa bolha da discussão política que acaba sendo muito personalista e ideológica.   Em outro capítulo do livro, você e Vandson Lima escrevem sobre o papel da imprensa e das redes sociais no processo de accountability político. Vocês citam um dado que chama bastante atenção: no Brasil, 3.487 das 5.570 cidades, ou 63%, não têm nenhum veículo jornalístico. Em tempos de redes sociais, qual é a importância de ter um jornal mesmo em pequenas cidades? Esse ponto foi trazido pelo coautor desse capítulo, o Vandson, um excelente jornalista, muito preocupado com a atuação das mídias locais no debate público. Nessas cidades sem nenhum veículo local, não há ninguém noticiando as atividades dos prefeitos e de dezenas de milhares de vereadores. O jornalista tem esse papel muito importante de ir atrás das informações. Para ele, pode ser uma notícia de capa, mas para a comunidade vai ser o accountability . Acho que a mídia local tem um papel importante no monitoramento dos governos. Além disso, ela ajuda a criar um senso de coletividade no entorno. Eu brinco que há pessoas que moram em bairros de elite de São Paulo que estão por dentro das notícias de Paris e não sabem o que está acontecendo a dois quarteirões de suas casas. É importante saber o que acontece na vizinhança, fazer parte do coletivo. E nosso coletivo é aqui, não é em outro lugar. Mas existe um desafio maior, que diz respeito às redes sociais. Nesse ambiente, a gente já observou quão difusa é a informação e quão fácil é cair em fake news . Ter uma mídia local atuante, que faça jornalismo investigativo e ajude a promover esse senso de coletividade, tornou-se ainda mais importante hoje em dia. O leitor que não enxerga o próprio mundo contemplado no noticiário fica mais vulnerável a fake news .   Reconstrução: o Brasil nos anos 20 Organizadores: Felipe Salto, João Villaverde e Laura Karpuska Editora Saraiva Jur, 488 páginas    "}]