[{"jcr:title":"A Spotify se equilibra entre a segurança dos ouvintes e a liberdade dos criadores"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"A Spotify se equilibra entre a segurança dos ouvintes e a liberdade dos criadores","jcr:description":"O desafio do serviço de streaming é aproveitar a popularidade de Joe Rogan, sua maior estrela, e conter os riscos de seus polêmicos programas"},{"subtitle":"O desafio do serviço de streaming é aproveitar a popularidade de Joe Rogan, sua maior estrela, e conter os riscos de seus polêmicos programas","author":"Ernesto Yoshida","title":"A Spotify se equilibra entre a segurança dos ouvintes e a liberdade dos criadores","content":"O desafio do serviço de streaming é aproveitar a popularidade de Joe Rogan, sua maior estrela, e conter os riscos de seus polêmicos programas Joe Rogan: contrato com a Spotify estimado em mais de 200 milhões de dólares   David Cohen   É difícil classificar Joe Rogan. Em seu podcast, ele amplifica o alcance de teorias da conspiração, faz piadas machistas, deu espaço e instigou dúvidas sobre a eficácia das vacinas no combate à covid-19 (e disse ter se tratado com ivermectina, uma droga contra parasitas, quando testou positivo para a doença), corteja figuras inspiradoras de movimentos supremacistas brancos e, em sua mais recente polêmica, pediu contritas desculpas quando foi divulgado um vídeo com todas as 24 vezes em que falou a palavra nigger (considerada um xingamento racista da pior espécie nos Estados Unidos) nos 12 anos de seu programa. Por outro lado, diz considerar Barack Obama (o primeiro negro a chegar à Casa Branca) o melhor presidente que sua geração de americanos já viu, apoia políticas progressistas como um programa de saúde gratuito para todos os cidadãos e endossou a candidatura do senador Bernie Sanders (um democrata com visão socialista) na campanha presidencial de 2020. A tarefa de classificá-lo fica ainda mais prejudicada quando ele se autodenomina um comediante, diz que discorda de si mesmo inúmeras vezes, é “apenas um imbecil” e não deveria ser considerado um guia para ninguém — uma postura que, paradoxalmente, o faz ser visto como autêntico, sincero e confiável e eleva sua influência para um enorme público, composto majoritariamente por jovens do sexo masculino (uma faixa etária que hoje em dia pode facilmente abarcar pessoas de até 40 e tantos anos). Essa imagem é realçada pelo modo, digamos, relaxado com que Rogan conduz seu programa: não raras vezes toma uísque e fuma maconha com o entrevistado. Foi no seu podcast, em 2018, que Elon Musk, fundador da Tesla, fumou maconha no ar, numa semana em que sua empresa enfrentava uma pequena crise com a saída de dois executivos (a postura contribuiu para que as ações caíssem 6% naquele dia). Mesmo sem saber exatamente o que Rogan significa, bastou esta última característica — ser um ícone para jovens brancos de classe média, com uma dose de machismo — para torná-lo extremamente valioso para a multinacional sueca Spotify. Há algum tempo seus executivos perceberam que apenas o streaming de música não os levaria muito longe. É um negócio extremamente popular, mas com margem de lucro insatisfatória: cerca de dois terços da receita vão diretamente para os donos dos direitos autorais (gravadoras, editoras e, em menor escala, os músicos). Já em 2015, a companhia experimentou colocar vídeos na sua plataforma, sem muito sucesso. Podcasts, descobriram pouco depois, faziam mais sentido para eles. Em 2018, quando a Spotify abriu seu capital na Bolsa de Valores de Nova York, os podcasts já começavam a decolar. Naquele ano, ela tinha 185 mil programas em seu acervo; saltaria para 700 mil em 2019, 2,2 milhões em 2020 e 3,6 milhões em 2021. Além de os podcasts brigarem pelo tempo dos usuários (uma concorrência com gigantes como a Apple e o Google, além de Netflix, Disney etc.), eles trazem uma vantagem significativa: são mais afeitos à receita publicitária. Para ocupar esse terreno, a estratégia foi comprar estúdios de áudio e adquirir os direitos de programas já existentes, além de firmar contratos com produtores de conteúdo para criar shows originais — entre eles, os casais Barack e Michelle Obama e o príncipe Harry e Meghan Markle. Mas nada era tão atraente quanto Joe Rogan. Depois de uma intensa campanha para conquistá-lo, a empresa assinou com ele, em maio de 2020, um contrato de 3 anos e meio para ser a distribuidora exclusiva de seus podcasts. Na época foi divulgado que Rogan teria embolsado mais de 100 milhões de dólares no negócio. Em fevereiro, o jornal The New York Times revelou que o valor real é de, pelo menos 200 milhões, de dólares, de acordo com pessoas que participaram das discussões. Investidores reconheceram imediatamente o impulso que Rogan daria à Spotify: quando o acordo foi anunciado, as ações da empresa tiveram uma alta de 17%.   Testosterona e adrenalina O sucesso de Rogan pode ser proveniente de uma espécie de vantagem do pioneiro: quando começou seu podcast, em 2009, havia poucas ofertas de conteúdo e ele foi rápido, prolífico e constante em sua produção. Lançava episódios de seu programa, The Joe Rogan Experience, uma vez, depois duas, depois várias vezes por semana. Em seguida, passou a gravar vídeos das entrevistas e postá-los no YouTube, ampliando sua audiência. Uma outra explicação para seu sucesso, fornecida pelo próprio Rogan, é mais direta: ele oferece um canal de expressão para os homens brancos heterossexuais que se sentem acuados pelo feminismo, pela cultura do politicamente correto e pela agenda de justiça social e racial, que estaria restringindo sua liberdade. “Essa cultura do cancelamento vai acabar chegando ao ponto em que homens brancos heterossexuais não terão mais direito de falar”, disse ele no ano passado. O histórico de Rogan o ajuda a cativar esse público. Comediante com viés mais beligerante, musculoso, faixa-preta de taekwondô, ele ganhou espaço como comentarista de lutas de artes marciais e foi apresentador do programa de TV Fear Factor (o fator medo), que desafiava as pessoas a cumprir tarefas como nadar num tanque cheio de crocodilos, acelerar um carro numa rampa para ele capotar no ar, comer uma massa com lagartas vivas ou ser espetado no braço com agulhas de tamanhos variados. Com base nesse universo que mescla testosterona e adrenalina, o poder de comunicação de Rogan se tornou comparável ao de uma Oprah Winfrey, cujo programa de televisão, encerrado em 2011, costumava ter cerca de 15 milhões de espectadores. Em 2019, Rogan afirmou que seu podcast foi baixado cerca de 190 milhões de vezes em um único mês. Não há fonte neutra para confirmar essa conta, mas sabe-se que vários de seus programas atingiram a casa das dezenas de milhões de ouvintes, não só nos Estados Unidos, mas em outros 92 mercados. Para efeito de comparação, o âncora mais popular da TV a cabo americana, o comentarista político conservador Tucker Carlson, captura a atenção de cerca de 3 milhões de espectadores por noite na Fox News — uma ordem de grandeza a menos que Rogan.   Neil Young e o boicote à empresa O problema para a Spotify é que ela comprou, junto com a audiência, as polêmicas de Rogan. Polêmicas, sabe-se bem, ajudam a chamar atenção, mas em excesso podem se tornar uma ameaça ao negócio. E é nesse ponto que se encontra a Spotify: até este ano, ela só colhera benefícios da contratação de Rogan. Agora estão aparecendo os custos. Tudo começou em janeiro, quando 270 cientistas e profissionais de saúde divulgaram uma carta aberta à Spotify reclamando da campanha de desinformação sobre vacinas que ele veiculava em seu podcast. Alguns dias depois, o ídolo de rock Neil Young se juntou aos críticos, exigindo que a empresa retirasse suas músicas da plataforma: “Eles podem ter Rogan ou Young”, escreveu, “não ambos”. Young foi seguido por alguns artistas, mas não muitos — sua amiga (também canadense) Joni Mitchell, o guitarrista Nils Lofgren, Graham Nash, ex-companheiro de banda de Young, o grupo de rock Failure. Embora os danos tenham sido pequenos, ninguém pode garantir que o movimento não se espalhe. No começo de fevereiro, a cantora India.Arie seguiu Young, pedindo a retirada de suas músicas e de seu podcast da plataforma, mas citando outros motivos: “Além das teorias da conspiração, sua linguagem em torno de temas raciais e, além disso, o modo como a Spotify trata os artistas”. Esta última razão é uma queixa antiga de inúmeros profissionais — de que não recebem o suficiente pela cessão de suas músicas. É claro que a contratação de Rogan tem pouco a ver com o modelo de negócios que estabelece uma remuneração aquém da desejada pelos artistas. Mas as questões políticas, éticas e sociais reverberam mais em um ambiente já contaminado pela insatisfação. Além disso, a fortuna gasta para trazer Rogan — mais do que a empresa pagou na aquisição de companhias inteiras de produção de conteúdo — soa como um insulto. “Enquanto os artistas são mal remunerados, Joe Rogan recebe todo esse dinheiro; e para mim é difícil simplesmente relaxar e pensar que é assim que as coisas funcionam”, disse India.Arie. Pelo menos por enquanto, a reação contra a Spotify parou por aí. “O ativismo tem crescido, mas ainda é muito pequeno, principalmente entre os consumidores finais”, diz Priscila Claro, professora associada de Estratégia, Sustentabilidade e Negócios Sociais do Insper. Quer dizer, o risco de a Spotify perder levas de assinantes por abrigar um apresentador de podcasts propenso a divulgar opiniões extremistas é muito pequeno em relação ao ganho de audiência que ele propicia. Essas reações, no entanto, são imponderáveis. Tanto podem murchar como ganhar impulso. “Vamos dizer que, assim como India.Arie, outros negros se sintam ofendidos pela presença de Rogan na plataforma. E a Spotify perca as músicas da Rihanna, do Snoop Dogg…”, diz Priscila. “Isso poderia levar muitos fãs a largar o serviço de streaming.”   “Se você tem que explicar que não é racista…” O risco explica a rápida reação da Spotify. Na primeira crítica, da desinformação sobre a covid-19, a companhia divulgou, pela primeira vez, suas diretrizes de conteúdo, afirmou que adicionaria advertências para gravações que discutissem o coronavírus e prometeu destinar 100 milhões de dólares para incentivar a criação de programas de “grupos historicamente marginalizados”. O próprio Rogan prometeu promover mais “equilíbrio” em seus programas. Não foi a primeira vez que Rogan e a Spotify agiram para moderar o podcast, ainda que de forma sutil. Apenas três meses depois da assinatura do contrato, em setembro de 2020, um grupo de funcionários da Spotify que defende os direitos LGBTQ reclamou do acordo para a direção da companhia. A queixa então era de conteúdo transfóbico. Na mesma época, a Spotify discretamente removeu cerca de uma dúzia de episódios mais controversos de Rogan — entrevistas com representantes da extrema direita como Milo Yiannopoulos e Gavin McInnes. Era, porém, uma parcela ínfima dos cerca de 1.800 episódios do podcast gravados até hoje — o que permitiu, de um lado, a Rogan afirmar que sua ida para a Spotify não mudaria em nada o teor de seu programa e, de outro, a funcionários da própria Spotify se queixarem que a companhia não investiu o suficiente em mecanismos de moderação de conteúdo. Estava tudo nesse pé quando India.Arie postou a compilação de 24 ofensas raciais feitas por Rogan, ao anunciar seu desligamento da plataforma. Rogan respondeu com a clássica afirmação de que aquelas falas haviam sido tiradas do contexto, mas na mesma mensagem reconheceu que a defesa não importava muito. “Sempre que você tem que explicar que não é racista, é porque fez m…”, disse. Pediu desculpas afirmando que agora entendia que aquelas expressões não deveriam ser usadas em nenhum caso. Ante essa nova onda de críticas, a Spotify removeu outros cerca de 70 episódios do programa, incluindo aqueles em que ele fazia comentários alusivos a questões raciais ou brincadeiras sobre violência sexual. De acordo com o executivo-chefe da empresa, Daniel Ek, a medida foi tomada pelo próprio Rogan, após conversas com executivos da Spotifiy e “suas próprias reflexões”. Feito isso, porém, Ek rechaçou pedidos para cancelar o contrato com Rogan ou puni-lo de alguma forma. “Nós devemos ter limites claros sobre a divulgação de conteúdos e agir quando eles forem desrespeitados, mas cancelar vozes é um caminho escorregadio”, afirmou, no sentido de que não se sabe onde isso pode parar. “Se nós só quiséssemos produzir conteúdo do qual todos gostassem e com o qual todos concordassem, teríamos de eliminar a religião, a política, a comédia, a saúde, o meio ambiente, a educação, uma lista sem fim.” O próprio Rogan, em outubro passado, alfinetou os funcionários da Spotify que se mostram insatisfeitos com ele. Disse que entendia a frustração deles, mas aconselhou-os a “ouvir algumas das letras de músicas menos santas” que também estão na Spotify.   Liberdade x responsabilidade “A questão de como a empresa deve tratar Rogan é um dilema ético, não tem uma resposta claramente certa ou errada”, diz Priscila Claro. De um lado está a liberdade de expressão. De outro, a responsabilidade de não insuflar discursos de ódio. “Se estivesse no comando da Spotify, proibiria o podcast?”, reflete Priscila. “Não. Faria exatamente o que eles estão fazendo.” Essa é uma questão não apenas para a Spotify, mas para inúmeras companhias, e não apenas no ramo da tecnologia. Empresas como o Facebook ou o YouTube se consideram plataformas, apenas, sem responsabilidade sobre o que as pessoas postam. Essa visão já foi majoritariamente aceita pela sociedade, mas a multiplicação de fake news e outros abusos deixou claro que algum tipo de regulamentação é necessário. Questão semelhante ocorre nas plataformas de comércio eletrônico, como Amazon, Magazine Luíza ou Mercado Livre. Em princípio, essas empresas apenas intermedeiam a transação entre uma loja abrigada em seu marketplace e o consumidor final. Em agosto do ano passado, porém, a Procuradoria Federal Especializada, órgão do governo brasileiro ligado à Advocacia Geral da União, soltou um parecer afirmando que o Mercado Livre pode ser responsabilizado administrativamente pelo comércio de produtos piratas na plataforma. “Eles são corresponsáveis”, diz Pricila. “É como na indústria têxtil, em que uma grande empresa pode ser responsabilizada quando uma fornecedora, mesmo indireta, utiliza mão de obra em condições análogas à escravidão.” No caso de Rogan, os argumentos da Spotify ficam ainda um tanto mais fracos. Embora possa dizer que seja uma plataforma neutra, do mesmo modo que o YouTube ou o Twitter, apenas servindo como ponte entre os criadores de conteúdo e as pessoas que querem ouvir seus recados, o fato é que a empresa contratou Rogan — se não como empregado, certamente como fornecedor exclusivo. Sua direção parece estar plenamente ciente disso. Tanto que, no início do ano, em resposta às críticas sobre os conteúdos antivacina, disse em comunicado: “Nós queremos que a música e o conteúdo de áudio estejam disponíveis para os usuários da Spotify. Isso traz uma responsabilidade em equilibrar tanto a segurança dos ouvintes quanto a liberdade dos criadores”. Este último ponto — a liberdade de expressão — é de importância vital para a empresa. Não apenas porque se for vista como uma entidade que tutela os produtores de conteúdo ela perderá clientes, mas também porque este é um valor arraigado em sua cultura. A Spotify nasceu e tem sede em Estocolmo, na Suécia, onde a liberdade de expressão é considerada sagrada. Se tem funcionários que defendem os direitos da comunidade LGBTQ, há também os grupos que não aceitam o que definem como censura. Um caso exemplar se deu em 2018, logo após a empresa abrir seu capital, quando decidiu tirar das listas de recomendações as músicas de artistas considerados ofensivos, como R. Kelly (condenado por tráfico sexual) e XXXTentacion (então acusado por agressão a uma namorada grávida, processo encerrado após sua morte, também em 2018). Menos de um mês depois, a política foi revogada, ante as pressões de empresários da indústria da música e queixas de seus próprios funcionários.   O caso Monark Programas como o de Rogan são propensos a criar celeuma. Boa parte de seu encanto vem disso. Ao brigar pela atenção e pela adesão, há um incentivo para levar as provocações cada vez mais longe. Até que elas batem em limites rígidos. Aqui no Brasil, o apresentador Bruno Aiub, conhecido como Monark, sentiu isso na pele em fevereiro. Em seu podcast, debatendo com dois deputados, ele defendeu, em nome da liberdade de expressão, que fosse permitida a criação de um partido nazista no país —  proscrito com base na Lei do Racismo, de 1989. Imediatamente atacado como defensor do nazismo, seu programa perdeu patrocinadores, algumas personalidades cancelaram participação no podcast, outras pediram que suas entrevistas fossem retiradas do canal, o YouTube o suspendeu e proibiu de criar um novo canal e a própria empresa que ajudou a criar, a Flow Podcast, obrigou-o a se desligar e vender sua parte na sociedade. O próprio Rogan foi informado sobre o caso de Monark e o comentou em fevereiro, aludindo ao fato de que o brasileiro copiou o formato de seu programa — fazendo entrevistas muitas vezes sob o efeito de álcool e maconha, chamando o mesmo tipo de entrevistados (de acadêmicos a políticos e ufólogos), adotando uma visão de mundo com tons libertários. “É exatamente o mesmo show, esse filho da mãe roubou o meu programa”, disse (parecendo mais lisonjeado que irritado). Monark, no entanto, mal chegou a atingir uma fração do sucesso de Rogan. Isso ajuda a explicar a diferença nas consequências que os dois enfrentam. Como aponta já em seu título um artigo do jornal The New York Times , Rogan é “grande demais para ser cancelado”. Monark, obviamente, não. De qualquer modo, a história não acabou: no dia 22 de março, Monark afirmou em seu Twitter que vai voltar, “com mais liberdade do que nunca”. Seu futuro programa deverá sair pela plataforma Rumble, empresa canadense que está inaugurando serviço no Brasil.    "}]