[{"jcr:title":"“As mulheres precisam de reais possibilidades para concorrer a cargos eletivos”"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"“As mulheres precisam de reais possibilidades para concorrer a cargos eletivos”","jcr:description":"É preciso estimular a formação de lideranças mulheres na política, com o recorte racial e de sexualidade, diz a professora Allyne Andrade e Silva"},{"subtitle":"É preciso estimular a formação de lideranças mulheres na política, com o recorte racial e de sexualidade, diz a professora Allyne Andrade e Silva","author":"Ernesto Yoshida","title":"“As mulheres precisam de reais possibilidades para concorrer a cargos eletivos”","content":"É preciso estimular a formação de lideranças femininas na política, com o recorte racial e de sexualidade, diz a professora Allyne Andrade e Silva Allyne Andrade e Silva     Leandro Steiw   Nascida e criada no Rio de Janeiro, [Allyne Andrade e Silva](https://www.insper.edu.br/pesquisa-e-conhecimento/docentes-pesquisadores/allyne-andrade-e-silva/) é advogada, com doutorado e mestrado em Direito pela Universidade de São Paulo. É integrante do movimento de mulheres negras no Brasil e tem sua trajetória profissional e acadêmica ligada a políticas públicas, direitos humanos, organizações da sociedade civil e movimentos sociais. Para ela, a lei que criou o sistema de cotas eleitorais no Brasil, de 1997, melhorou a representatividade das mulheres na política, mas é necessário avançar mais. “Tivemos mais candidatas mulheres cis e trans, mais mulheres negras e, portanto, numa perspectiva otimista, há o que comemorar. Também há presença de muitas mulheres em mandatos coletivos”, diz Allyne. “Entretanto, numa visão mais realista, a sub-representação permanece.” Professora do Insper, Allyne é uma das docentes do curso de [Introdução às Políticas Públicas](https://www.insper.edu.br/educacao-executiva/cursos-de-curta-duracao/politicas-publicas/introducao-as-politicas-publicas/) , que terá uma nova turma com aulas a partir de 11 de abril. Autora do livro Direitos e Políticas Públicas Quilombolas , publicado em 2020, é também superintendente-adjunta do Fundo de Direitos Humanos do Brasil. Na entrevista a seguir, a professora Allyne fala sobre o que poderia ser feito para ampliar a presença das mulheres na política.   Como aumentar a representação das mulheres na política?  A sub-representação de mulheres é um problema crônico no Brasil. Se tivermos um olhar interseccional e olharmos para a questão racial, destaco aqui as mulheres negras e indígenas. E para as mulheres trans e travestis, esse é um problema ainda maior. As mulheres precisam de reais possibilidades para concorrer a cargos eletivos, com igualdade de condições financeiras e de visibilidade. Também há necessidade de aumento da representatividade das mulheres — comprometidas com a pauta de gênero e inclusão — em cargos-chave dentro dos partidos, uma vez que isso influencia diretamente na escolha de candidaturas dentro dos partidos e na viabilidade dessas candidaturas. Há necessidade, também, de formação de lideranças mulheres na política, com o recorte racial e de sexualidade sempre presentes. O ideal é garantir a representação de mulheres diversas — negras, indígenas, LBTs (lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis) e, depois, o investimento em essas lideranças. Além disso, falta no Brasil uma educação pública voltada para discutir democracia, diversidade e representatividade, participação social. Precisamos pensar a democracia não somente no que diz respeito ao sistema eleitoral, mas também estimular uma ativa participação de mulheres em espaços cívicos: protestos, conselhos de políticas públicas, movimentos sociais. Por fim, é preciso visibilizar a trajetória de mulheres que já são protagonistas e lideranças políticas. Há um grande apagamento dessas mulheres que têm ajudado a construir a democracia, uma sociedade civil forte, mulheres pensando políticas públicas e defesa de direitos. Creio que a visibilidade dessas trajetórias seria crucial para mudar o imaginário da população sobre mulheres na política e o potencial dessas mulheres.   Melhorou alguma coisa depois da lei que criou o sistema de quotas eleitorais?  O Tribunal Superior Eleitoral registrou um recorde de candidatas mulheres e candidatos negros, e esse já foi um impacto direto do estabelecimento da política de cotas de gêneros e distribuição de verba de campanha e propaganda eleitoral, aprovadas pelos tribunais superiores em 2018, para mulheres, e para negros, neste ano. Essas decisões impactaram o cenário da disputa eleitoral em novembro de 2020. Tivemos mais candidatas mulheres cis e trans, mais mulheres negras e, portanto, numa perspectiva otimista, há o que se comemorar. Também há presença de muitas mulheres em mandatos coletivos. Pensando na sociedade civil, também vimos um número crescente de inciativas criadas para formação e apoio a candidaturas de mulheres. Entretanto, numa visão mais realista, a sub-representação permanece. Por exemplo, se pensarmos o Executivo, nas eleições de 2020 tivemos um número muito pequeno de mulheres eleitas. No total, elas são 658 prefeitas (13%), ante 4.800 prefeitos (87%) pelo país, o que mostra que a representatividade feminina no Poder Executivo continua baixa. Em nível municipal, sabemos que 53% dos municípios brasileiros não têm mulheres negras com assento nas Câmaras na legislatura 2021-2024.   As mulheres já saem em desvantagem nas eleições, seja em número de candidatas, seja em financiamento de campanha, e ainda precisam enfrentar um ambiente violento quando entram na vida pública? A violência política de gênero e raça tem sido uma realidade triste no Brasil. O cenário das eleições de 2020 foi de extrema violência política. Tivemos notícias de ameaças a candidatas. Houve uma grande divulgação de discursos de ódio, desmerecimento intelectual, críticas ao corpo e à sexualidade de mulheres. Muitas mulheres trans tiveram sua identidade de gênero desrespeitada. Ao olharmos para as mulheres eleitas, essa realidade continua. Ou seja, o exercício de cargo político não protege as mulheres de violência. O caso da Marielle Franco é um exemplo emblemático dessa não proteção. Uma mulher negra, eleita numa das maiores cidades do país, foi assassinada e, quatro anos depois, não temos respostas sobre o crime. Até hoje, há tentativa de calúnia e difamação contra Marielle, de uma parte da sociedade que não se contentou com a morte física, mas quer matar o seu legado: a defesa de direitos, a equidade e inclusão de pessoas negras, periféricas, LGTQIA+ e a crença numa democracia participativa. A morte da Marielle representa uma chaga nessa utopia de ter uma democracia fortalecida e representativa no Brasil. Mas é apenas uma chaga. Há diversas mulheres dispostas a disputar o cenário político, como idealizadoras e implementadoras de políticas públicas.  "}]