[{"jcr:title":"Biden, Lula, Nancy Pelosi, Bob Iger: o que eles ensinam sobre aposentadoria"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"Biden, Lula, Nancy Pelosi, Bob Iger: o que eles ensinam sobre aposentadoria","jcr:description":"As histórias recentes dos quatro personagens demonstram que toda carreira precisa ter uma estratégia de saída"},{"subtitle":"As histórias recentes dos quatro personagens demonstram que toda carreira precisa ter uma estratégia de saída","author":"Ernesto Yoshida","title":"Biden, Lula, Nancy Pelosi, Bob Iger: o que eles ensinam sobre aposentadoria","content":"As histórias recentes dos quatro personagens demonstram que toda carreira precisa ter uma estratégia de saída   David Cohen   Houve um tempo em que o processo de aposentadoria era claro: ao final de uma longa carreira, em geral em uma única empresa, o sujeito (quase sempre um homem) recebia o seu relógio de ouro, era festejado pelos colegas e ia para casa. Pouca gente ganhava relógio, é claro, mas era este o roteiro idealizado. A aposentadoria era vista como a passagem para o merecido descanso ap ó s uma vida de labuta . Que uma grande parte dos aposentados não vivesse muito mais do que dois ou três anos após largar o trabalho (o que tornava a ideia do “merecido descanso” um tanto irônica) era uma realidade pouco considerada. Há um bom tempo, porém, esta noção do desenlace da carreira foi, digamos, aposentada. Por alguns bons motivos — as pessoas passaram a viver mais, as carreiras se tornaram mais flexíveis e variadas — e outros maus: sem independência financeira grande parte dos trabalhadores precisa se manter ativa, enquanto outros tantos são “aposentados” bem antes do que gostariam. Neste novo contexto, o que surgiu então como receita para a aposentadoria? Quatro exemplos bastante recentes demonstram que o pedaço final da vida produtiva tem de tudo um pouco: os que desaceleram, os que param e voltam, os que se recusam a parar e, provavelmente, algumas misturas dos três caminhos. “A questão da idade vem sendo cada vez mais revisitada”, diz a psicóloga Maria Elisa Moreira, professora de liderança e times de alta performance no Insper. “Eu mesma, que vou completar 50 anos no ano que vem, começo a me perguntar se quero viver do mesmo jeito que eu vivia. Então, que estratégias devo assumir?” A palavra é exatamente esta — estratégia —, dizem especialistas tanto da área financeira quanto da área psicológica. Assim como os fundadores de startups precisam apresentar aos potenciais investidores uma estratégia de saída (o momento a partir do qual a empresa ganhará vida própria, independente deles), também as carreiras hoje precisam de uma estratégia similar. E ela começa muito antes da efetiva aposentadoria. Essa estratégia será diferente para cada profissional. Entende-se hoje que cada carreira é única e o que é certo para um pode não ser para outro. Um bom exemplo disso são as posturas adotadas pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e pelo presidente eleito do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. No final de setembro, Lula afirmou que, se ganhasse a eleição, governaria por um único mandato de quatro anos. “Todo mundo sabe que não é possível um cidadão com 81 anos querer reeleição”, afirmou, referindo-se à idade que terá em 2026. Todo mundo, vírgula. Biden, aos 80 anos, já declarou neste mês que sua intenção é concorrer à reeleição daqui a dois anos. Ele disse que a decisão será anunciada no início do ano que vem, após conversas com a família.   A volta dos que não foram (ou não quiseram ir) A congressista americana Nancy Pelosi também evidenciou uma estratégia de aposentadoria. Aos 82 anos, dias após uma eleição em que seu Partido Democrata se saiu melhor do que o esperado, mas ainda assim perdeu o controle da Câmara, ela renunciou ao posto de porta-voz da Câmara dos Deputados e de líder do seu partido, um papel que assumiu em 2003. Vai continuar como deputada, apenas. Primeira mulher a liderar qualquer das casas do Congresso, Pelosi talvez tenha sido a mais eficiente líder parlamentar americana em todos os tempos. Seus discursos são enfadonhos, muito longe da oratória de um Barack Obama ou de um Ted Kennedy, mas seu senso de oportunidade e sua habilidade em negociar tanto com os rivais republicanos quanto com as diversas facções democratas lhe permitiram aprovar algumas leis progressistas em condições bastante adversas, especialmente durante o governo Obama (é dela grande parte do mérito pela legislação que expandiu os benefícios de saúde, uma das grandes marcas de seu governo). Nos últimos anos, no entanto, sua atuação passou a ser questionada não apenas pelos republicanos, mas até pelos democratas mais progressistas — que ela costumava inspirar. Tanto que uma editora sênior do site de notícias e análises Salon, de cunho progressista, extraiu a seguinte lição de sua aposentadoria: “saia enquanto estiver no auge”. A liderança dos democratas que Pelosi exerceu durante o governo do republicano Donald Trump foi, de acordo com a articulista (Amanda Marcotte), tíbia. “Se tivesse saído há alguns anos”, escreveu, “seu legado como a melhor líder que o Congresso já teve seria inquestionável”. Sair no auge, porém, nem sempre resolve a questão, como nos mostra outro exemplo recente. Poucos profissionais encerraram a carreira com mais glória do que Bob Iger, da Disney. Executivo-chefe da empresa por 15 anos, amplamente classificados como uma das gestões mais bem-sucedidas de Hollywood, Iger embarcou num processo de aposentadoria lenta, gradual e, supunha-se, segura. Durante dois anos, ele serviu como presidente do conselho da Disney, para orientar e ajudar o sucessor que havia escolhido, o executivo Bob Chapek. Só no final de 2021 ele efetivamente largou suas atribuições na empresa (um tanto a contragosto, segundo muitos profissionais próximos a ele). Acontece que, sem o amparo do ex-chefe, Chapek enfrentou duros percalços, alguns criados ou piorados por ele mesmo. Chegou ao ponto em que, de acordo com o jornal The New York Times, vários executivos ameaçaram pedir demissão caso ele permanecesse no cargo. E então, agora em novembro a Disney chamou um novo executivo-chefe: Bob Iger, que voltou da aposentadoria para recompor a empresa. Seu contrato é de dois anos, durante os quais ele deverá escolher um novo sucessor.   O que o dinheiro tem a ver com isso Esses quatro exemplos evidenciam alguns temas essenciais no planejamento do fim da carreira. Um deles é a sucessão. “Existe uma questão sucessória em qualquer cargo executivo, e parece que nenhum desses quatro preparou o sucessor direito”, diz Maria Elisa. Há vários outros temas, porém. O processo de aposentadoria se tornou mais complexo graças a uma série de mudanças no mundo do trabalho. Uma delas é que as pessoas estão saudáveis por muito mais tempo; além disso, o esforço físico que antigamente era associado ao trabalho e levava à exclusão dos mais velhos já não é mais a regra. Hoje, portanto, as pessoas podem e em geral querem se manter ativas por mais tempo. Mas não necessariamente nas mesmas condições. Querem ter mais liberdade, mais autonomia, querem fazer trabalhos com mais propósito e menos desgaste. Esta opção, no entanto, não é para qualquer um. Uma armadilha da aposentadoria é que quanto mais você precisa trabalhar para se sustentar, menos escolhas tem. Só pode se dedicar a atividades do seu próprio gosto, no seu próprio tempo, quem tem condições para isso. E a primeira dessas condições é a financeira. Não se trata necessariamente de juntar uma quantia enorme que lhe permita viver sem fazer nada. Trata-se de administrar os seus investimentos ao longo da carreira, o que inclui o tempo para lazer, as viagens, os relacionamentos dos mais variados tipos, o prazer no trabalho etc. De forma geral, há três caminhos de aposentadoria. O primeiro é o tradicional, em que você trabalha três ou quatro décadas, faz o seu pé de meia e em seguida desfruta dele. Esse caminho requer investimentos prudentes e constantes, de preferência iniciados bem cedo. O segundo caminho é a semiaposentadoria. Você abandona a sua carreira, mas continua trabalhando de alguma forma. Talvez não ganhe o mesmo que antes, mas é provável que tampouco gaste tanto quanto antes. Esse novo trabalho tem o dom de estender as suas economias por mais uns tantos anos. O terceiro caminho, bem menos trilhado, é aquele em que a carreira é interrompida de quando em quando, como nos períodos sabáticos. Essa escolha envolve mais variáveis e é mais complexo fazer um planejamento financeiro para ela.   A psicologia de um fim de ciclo Além da condição financeira, é preciso levar em conta a questão psicológica. O trabalho é um componente importante da nossa definição como pessoas. Perder, de uma hora para outra, o sobrenome corporativo, ou a rotina dos seus afazeres, é um baque. Não menos importante é a questão do tempo. Estamos condicionados, desde a infância, a passar horas fora de casa em uma atividade produtiva (seja se alfabetizar, gerenciar um restaurante, ajudar a construir uma usina eólica, o que for). Por isso muitos psicólogos recomendam a aposentadoria gradual — até para que o marido ou a mulher se acostume com a sua presença constante em casa. O tempo livre extra, recomenda a Associação Psicológica Americana, deve ser usado para experimentar novas atividades ou retomar algumas antigas, como hobby. “Um bom plano de aposentadoria inclui três coisas: um plano financeiro, um orçamento e um plano de prazer”, diz Shanna Tingom, especialista em finanças citada pelo site de educação e notícias financeiras Investopedia. Os nossos quatro exemplos não têm constrangimentos financeiros. Daí poderem estipular seus caminhos. Para Nancy Pelosi, o final de carreira parece um recuo para um estágio anterior. Para Bob Iger, assim como de certa forma para Lula, o novo ciclo está sendo a retomada de uma etapa anterior. Para o juiz americano Anthony Kline, da Corte de Apelações da Califórnia, o novo ciclo é uma volta às raízes: após décadas nas mais altas cortes, sentiu-se afastado dos problemas mais cotidianos e pediu para ser transferido para uma corte de casos juvenis, onde normalmente um juiz começa a carreira (e onde ele começou). Queria ter esta experiência novamente antes de largar a toga. O que todos esses casos têm em comum é que o final da carreira deve incluir alguma forma de fecho que dê sentido ao todo. Seja pela entrega de um legado, pela costura de pontas deixadas soltas ou pela reconexão com sua atividade e paixão original, parece que uma carreira, para cumprir seu destino, precisa ser examinada. Ter isso em mente é crucial mesmo para quem está começando no mundo do trabalho. Um bom final de carreira, em síntese, inclui várias fases: # a organização financeira, que deve ser iniciada o quanto antes; # deixar a casa ordem, o que significa preparar sucessores e delegar responsabilidades; # celebrar o término de um longo ciclo — uma etapa crucial para sair com energia suficiente; # curtir férias ilimitadas; # cansar-se de tanto descanso; # iniciar uma nova fase de explorações, que inclui construir uma nova identidade de trabalho; # estabelecer um novo equilíbrio de tempo para as atividades mais variadas (consideradas também as de lazer); # trilhar um novo ciclo, de preferência um que se beneficie da experiência e da sabedoria acumulada no ciclo anterior."}]