[{"jcr:title":"As causas da desigualdade racial têm nomes e números"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"As causas da desigualdade racial têm nomes e números","jcr:description":"Evento de lançamento do Núcleo de Estudos Raciais do Insper debateu sobre educação, mercado de trabalho, papel da imprensa e persistência histórica do racismo"},{"subtitle":"Evento de lançamento do Núcleo de Estudos Raciais do Insper debateu sobre educação, mercado de trabalho, papel da imprensa e persistência histórica do racismo","author":"Ernesto Yoshida","title":"As causas da desigualdade racial têm nomes e números","content":"Evento de lançamento do Núcleo de Estudos Raciais do Insper debateu sobre educação, mercado de trabalho, papel da imprensa e persistência histórica do racismo   Leandro Steiw   Educação, mercado de trabalho, papel da imprensa e persistência histórica do racismo conduziram as conversas do [evento de lançamento](https://www.insper.edu.br/agenda-de-eventos/lancamento-do-nucleo-de-estudos-raciais/?utm_source=newsletter&utm_medium=email_materias&utm_campaign=insperpublicas26) do Núcleo de Estudos Raciais do Insper, no dia 18 de novembro. Dividido em quatro sessões temáticas, o encontro debateu as causas e as consequências da desigualdade racial e permitiu a divulgação de diversas iniciativas já consolidadas dos pesquisadores do núcleo, como o Índice Folha de Equilíbrio Racial (Ifer) e o Índice ESG de Equidade Racial (IEER). Um dos prelúdios dessa história, iniciada há quase dois anos, foi o estudo do economista Michael França sobre a baixa diversidade racial na TV, publicado em 2019. O trabalho do atual coordenador do núcleo mostrou como os estereótipos criados sobre pessoas negras e pobres poderiam afetar o imaginário coletivo da população e refletir na forma como os brasileiros, principalmente as mulheres, se declaravam racialmente. “A missão do núcleo é contribuir para que, cada vez mais na sociedade brasileira, o resultado da vida das pessoas não seja reflexo do lugar onde ela nasceu, da renda, da classe social, do gênero e da raça”, disse França. “E que consigamos criar intervenções para que as pessoas tenham oportunidades equivalentes e possamos construir um país mais justo. Isso é um trabalho coletivo, porque, no final, tudo é sobre e para as pessoas.”   Marcos Lisboa na abertura do evento de lançamento do Núcleo de Estudos Raciais   Educação Para o presidente do Insper, Marcos Lisboa, o tema racial é crucial para o país. Ele lembrou que mesmo políticas públicas bem desenhadas podem ser um fracasso. O Brasil gasta muito dinheiro com educação e ainda tem um dos piores resultados, em comparação com outros países emergentes, no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), que mede os conhecimentos e a proficiência em leitura, matemática e ciências. Sabe-se que o baixo rendimento escolar desestimula a permanência dos jovens nos estudos. “E essa evasão prorroga as desigualdades no país”, disse Lisboa. Ricardo Henriques, economista e superintendente executivo do Instituto Unibanco, apresentou dados sobre as disparidades na educação. De cada 100 crianças que entram na escola, 66 terminam o ensino médio. “Trinta e quatro sequer participam do jogo da sociedade do conhecimento, não estão numa inserção razoavelmente digna”, afirmou Henriques, que é também conselheiro do Centro de Gestão e Políticas Públicas ( [CGPP](https://www.insper.edu.br/pesquisa-e-conhecimento/centro-de-gestao-e-politicas-publicas/?utm_source=newsletter&utm_medium=email_materias&utm_campaign=insperpublicas26) ) do Insper. “A estratégia da própria política educacional, mesmo quando consegue aumentar o ciclo de mobilidade social, mantém ou amplifica desigualdades. Não consegue fazer as primeiras grandes mudanças no mundo, educação gerando igualdades e oportunidades.” Na opinião de Henriques, o país precisa pensar, e futuramente implementar, um design de política educacional que seja de ação afirmativa contínua, com metas estruturadas para a redução constante desse processo de segregação, e reconfigurar o sistema de educação como um todo. Ele teme, porém, que a probabilidade de resistência da sociedade brasileira a essa política racialmente inclusiva seja imensa. “Mesmo no campo que fez opção pela democracia nas últimas eleições, se explicitados os dilemas numa educação antirracista, vejo forte divisões. Só a opção pela democracia não é suficiente para uma educação antirracista”, disse Henriques. A jornalista Rosane Borges, professora colaboradora da Universidade de São Paulo, argumentou que a cidadania e a civilidade prometidas pela República, ainda no século 19, fundamentadas pela educação dos ex-escravizados, nunca se cumpriu. “Se as políticas educacionais têm que ser tracionadoras do processo de transformação, é essencial que ouçamos as vozes do movimento negro”, afirmou Rosane. “O professor Paulo Freire dizia que ele só conseguiu elaborar a educação de jovens e adultos com sucesso porque ouviu homens e mulheres negras.” Para Rosane, além de iniciativas como o Núcleo de Estudos Raciais, é necessário um projeto radical de educação, incluindo o que ela chama de “habitantes das bordas”, aqueles que veem as catástrofes primeiro porque habitam essa periferia do Brasil. “Esperamos de um governo democrático o diálogo com as várias vozes, no desenho das políticas públicas”, disse Rosane. “As pessoas negras prosseguem como destinatárias de políticas públicas. Queremos a nossa participação no destino do país, também pensar o Brasil a partir das nossas estratégias, expertise e experiências. Se queremos um país realmente democrático, que todos participem dos destinos da coletividade.” Como envolver a sociedade civil no desafio da igualdade social, por meio da melhoria da educação pública, foi a questão comentada pelo empresário Jair Ribeiro, fundador e presidente da Associação Parceiros da Educação. Ele citou as 548 escolas que são atendidas pela instituição em pautas como gestão, formação de professores e inserção das escolas nas comunidades. Segundo Ribeiro, são os acionistas das empresas que estão fazendo esse processo acontecer, porque nem sempre a organização e a alta hierarquia estão envolvidas na transformação da educação. O Pacto de Promoção da Equidade Racial é uma das maneiras de as empresas se tornarem protagonistas na redução da desigualdade, afirmou Ribeiro. Os resultados da iniciativa são monitorados pelo índice IEER, elaborado pelo Núcleo de Estudos Raciais, que mede a discrepância racial entre cargos e salários em relação à população economicamente ativa da região onde a companhia atua. A gestora de políticas públicas Deloise Jesus, gerente de impacto de Equidade Racial da Fundação Lemann, recordou como a entidade foi majoritariamente pensada por pessoas brancas e mantinha um olhar limitado de equidade. “Com o racismo estrutural que existe no Brasil, qualquer política pública que seja universalista vai deixar as pessoas para trás”, disse. “Os dados têm nos ajudado muito a apoiar as nossas estratégias. Por muitos anos, os investimentos foram em estratégias que perpetuavam a desigualdade racial.” Conforme Deloise, os dados são escassos porque o país ainda acredita que vive em uma democracia racial e não banca pesquisas com esse olhar, o que dificulta o processo de decisão e de implementação de políticas públicas. Há também o problema de letramento racial. Alguns secretários de educação não acham a questão importante; outros consideram importante, mas acham que dão conta sozinhos; e outros acham que é responsabilidade apenas do núcleo racial das secretarias. “Para deixar de ser um processo excludente e que promova a equidade, as alavancas são pessoas conscientes, proporcionalidade nos processos de tomada de decisão e políticas regionais que toquem nas identidades”, afirmou Deloise. Michael França, Ricardo Henriques, Rosane Borges, Jair Ribeiro e Deloise Jesus O papel da imprensa  A jornalista Erica Fraga, analista sênior da consultoria The Economist Intelligence Unit, trabalhava na Folha de S.Paulo quando surgiu a ideia de um índice que medisse as disparidades entre brancos e negros, que se tornaria o Ifer, parceria com o Núcleo de Estudos Raciais. Ela conta que havia lido um estudo que tratava do viés na rede de ensino pública, no qual os professores tendiam a dar notas mais baixas para estudantes pretos e pardos do que para os brancos. “Continuei pensando naquele tema, se haveria uma forma de mensurar essas desigualdades regionais e raciais”, disse Erica. “Por muitos anos, a sociedade e a mídia trataram esse tema como uma questão lateral. Mesmo nas pesquisas do IBGE, os recortes raciais vinham no pé do estudo.” Os dados gerados pelo índice respaldaram a série de reportagens “A cor da desigualdade racial no Brasil”, publicada pela Folha entre junho e novembro de 2021. A jornalista Flávia Lima, secretária-assistente de Redação e editora de Diversidade do diário paulista, afirmou que o Ifer é a grande vitrina de estudos raciais, que ajudam a nortear as reportagens e as políticas internas da empresa. “Queremos fazer da redação um lugar menos homogêneo, porque isso traz novos olhares, representa melhor a sociedade e, portanto, cobre melhor essa sociedade”, disse Flávia. Apesar do programa de treinamento para profissionais negros e das métricas desenvolvidas para avançar na igualdade racial nas páginas do jornal, a Folha ainda é um retrato clássico da mídia brasileira, bem distante da sociedade real. Segundo Flávia, os homens ocupam 54% dos cargos na redação. Mesmo depois da implantação do programa de diversidade, 79% das pessoas na Folha ainda se declaram brancas, e 69% são de famílias com rendas familiares entre cinco e 50 salários-mínimos. O desafio segue intrincado. A antropóloga Paula Miraglia, do Nexo Jornal , observou que os negros não conseguem ascender a cargos de liderança no jornalismo ainda que haja mais negros nas redações. Assim, também não podem acumular experiência e entrar em condições de disputar cargos mais elevados. “A indústria de comunicação é propriedade de homens brancos e dirigida por eles, em um país no qual mais de 50% da população se declara preta ou parda, e isso fala bastante sobre as relações de poder nas redações e nas pautas”, afirmou. Paula disse que a cobertura da mídia contribui para a estigmatização das pessoas negras. “O jornalismo tem a preocupação de não ser ativista, mas quando chama uma chacina de operação policial está adotando um ponto de vista e não está sendo imparcial como quer ser”, observou. “A branquitude da indústria de comunicação criou algo perverso, que é a tranquilidade de as pessoas falarem da questão racial sem estarem preparadas e desconhecendo a literatura e os dados. Isso compromete qualquer debate sobre projeto de país e construção de futuro.” A jornalista Thais Carrança, da BBC, lembrou uma série de e-mails que disparou para instituições de ensino superior em busca de subsídios para uma reportagem que mostrasse como o baixo número de economistas negros impactava a formulação de políticas públicas no Brasil. “O único a responder foi o Insper”, afirmou. “Só 10, ou 2,6%, dos professores eram pardos ou pretos. Mas, pelo menos, o Insper estava mapeando a desigualdade, para pensar em como mudar aquele quadro.” Outras instituições chegaram a informar que não faziam essa sondagem porque bastava olhar para a reunião do departamento de Economia para asseverar que o número de docentes negros era zero. Erica Fraga, Flávia Lima, Paula Miraglia e Thais Carrança   Mercado de trabalho O economista Sergio Firpo, professor do Insper e gestor do Núcleo de Estudos Raciais, apresentou dados sobre a evolução da lacuna salarial entre trabalhadores brancos e negros no Brasil. Apesar de todos os esforços das políticas públicas nos últimos 20 anos, com alguma redução nesse gap , o cenário se estabilizou e se reverteu a partir de 2014. “Pode ser pura discriminação no mercado de trabalho, mas também tem a ver com fatores que antecedem a entrada dos trabalhadores, como a qualidade da educação básica entre eles”, disse Firpo. Conforme Firpo, se o país não produzir educação básica de qualidade para todos, haverá sempre essa desigualdade, principalmente racial. “A mobilidade salarial e social é maior para crianças que estudaram nas melhores escolas”, afirmou. “Há muito a fazer para que os filhos da família branca e rica estudem com os filhos da família negra e pobre.” Outra parceria do núcleo deu origem ao site [Sustentabilidade Racial](https://sustentabilidaderacial.com.br/) do Ministério Público do Trabalho. A procuradora Valdirene Assis, coordenadora de um projeto nacional de inclusão de universitários negros e negras, disse que os dados traçam um diagnóstico da inclusão racial e de gênero no mundo do trabalho, analisando dados de pessoas jurídicas e começando pelo setor de publicidade. “Entendemos que não é possível que uma empresa atinja as suas metas de boa governança e gestão ambiental e social se não tomar em sério a questão racial”, afirmou. “Isso é um imperativo para um país como o nosso, com a nossa demografia.” Apoiado pelo Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU), o estudo faz um levantamento histórico do índice IEER para entender quão ajustada está a situação de determinadas empresas. “É uma entrega que oferece para estudiosos, sociedade, poder público e as próprias empresas insumos para que possam ser analisados os desempenhos de políticas internas de equidade étnico-racial existentes ou da necessidade da instituição de tais políticas”, disse Valdirene. A bacharel em relações internacionais Ingrid Camargo, analista sênior de Direitos Humanos pelo Pacto Global da ONU no Brasil, comentou que, atualmente, a maioria dos empregos no Brasil é no setor de serviços e, automaticamente, ligam-se as pessoas negras ao papel de serviço. O obstáculo é promover a ascensão dessas pessoas quando se esbarra nos estereótipos. “Temos pessoas negras aptas a ocupar posições de liderança e estamos trabalhando para que as empresas entendam que essas pessoas existem, devem ser reconhecidas pelo seu trabalho e que precisamos dessas pessoas crescendo. É preciso que as altas lideranças das empresas se engajem”, afirmou. Segundo Ingrid, só inserção não basta. Fundamental é dar oportunidade de as pessoas crescerem e mostrarem capacidade. “Temos a questão do racismo institucional”, disse. “Hoje o número de mulheres negras na universidade pública é grande, mas sempre se bate na barreira da inserção dessas pessoas. Se temos essa inserção, por que essas pessoas não estão empregadas? Por mais que a pessoa negra tenha estudado, a sua imagem ainda está muito agregada ao serviço, e não à liderança.” O relações-públicas e gestor de pessoas Guibson Trindade, cofundador e gerente executivo do Pacto de Promoção da Equidade Racial, também ressaltou a importância de transformar acionistas e investidores em protagonistas da mudança social. “Muitas vezes, o CEO não tem o poder e a influência para mudar essa estrutura que permeia o racismo há tantos anos no Brasil”, afirmou. Para Trindade, os estudos produzidos pelo Núcleo de Estudos Raciais são uma forma de combater as mazelas com estatísticas. “Já passou o tempo de falarmos de racismo com ‘eu acho’; agora falamos com base em números”, disse. Sergio Firpo, Ingrid Camargo e Guibson Trindade (com participação online de Valdirene Assis)   Persistência histórica da desigualdade racial A disparidade racial persiste por duas posições antagônicas e complementares, observou o economista Alysson Portella, pesquisador do núcleo: é motivada pela perpetuação de desigualdades prévias (com a escravidão responsável pela posição inicial desvantajosa) e é fruto da discriminação (origem de preconceitos perversos e persistentes). No Brasil, o salário-mínimo tem sido um elemento importante para reduzir esse desequilíbrio, mas há outros fatores por trás das diferenças de remuneração entre brancos e negros. Para as faixas salariais mais baixas, a região do país, a escolaridade e a formalidade no mercado de trabalho — que garantiria pelo menos um salário-mínimo de rendimento — são as maiores influências. “À medida que se avança na distribuição de renda, os fatores regionais ficam menos importantes e a educação começa a ter um papel ainda mais relevante nas diferenças salariais”, afirmou Portella. “Mas três explicações começam a surgir: as diferenças nas ocupações (cargos de gerência e administração são de difícil acesso às minorias), o acesso à escola privada e o acesso a cursos de pós-graduação, como MBA.” Também é possível pesquisar a saúde como corte de desigualdade. O cientista político Rony Coelho, do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), disse que o Sistema Único de Saúde (SUS) é indispensável para melhorar o acesso das mulheres a pelo menos uma consulta pré-natal nos primeiros três meses de gestação. Esse atendimento reduziu a mortalidade materna, de 120 para 56,2 a cada 100.000 crianças nascidas vivas entre 1990 e 2018, uma queda de mais de 50%. Mas a morte materna é evitável em 92% dos casos, o que macula a boa notícia. Mesmo com o atendimento universal de saúde, a discrepância racial perdura. Em 2014, 76,1% das mulheres brancas realizaram um número adequado de consultas pré-natais, ante 59,8% das negras. Em 2019, as proporções evoluíram para 81,2% e 67,8%, respectivamente, mas, no auge da pandemia, em 2020, as mulheres negras acessaram menos outra vez. “Em todas as regiões, os dados de mulheres pretas tiveram desempenho pior do que de pardas e brancas”, afirmou Coelho. “Isso também foi efeito do colapso do sistema de saúde devido à pandemia.” A advogada Allyne Andrade, professora do Insper e superintendente adjunta do Fundo Brasil, comentou que, para entender a persistência das desigualdades, é preciso reconhecer que as políticas públicas são discutidas para reverter as desigualdades em um país escravagista, racista, LGBTfóbico e capacitista que nega oportunidades a pessoas pobres, negras, mulheres, LGBTQIA+s, pessoa com deficiência. Para que o cenário se transforme, é preciso investir em políticas de equidade. “Não há nenhuma possibilidade de esse país dar certo e crescer abrindo mão de 56% da sua população, por exemplo, dos seus talentos negros”, disse. “E a possibilidade de futuro, de políticas públicas com eficiência, somos nós. Quem não compreender a centralidade de raça, gênero, classe para reverter as desigualdades históricas vai falhar na tarefa de desenvolvimento do Brasil. A ausência desse debate traz essa necessidade constante de reconstrução do país. Estamos vendo que país estamos discutindo agora devido aos retrocessos na pauta de equidade racial do último período.” Para Allyne, a produção de pesquisas contribui para o debate sobre inclusão racial e de gênero, e isso é primordialmente uma questão de fazer justiça às pessoas que construíram o Brasil. “As ações afirmativas são necessárias para essa inclusão, e os movimentos negros brasileiros vêm fazendo esse debate desde a década de 1930, pelo menos”, afirmou. “Os movimentos negros sabíamos que só conquistaríamos a igualdade com ações antidiscriminatórias e inclusivas, mas precisamos de um longo processo de convencimento e disputa política e fomos pacientes e propositivos com a construção deste país e a compreensão da existência do racismo.” Sobre a desigualdade, ela comentou: “Precisamos dar às coisas o nome que elas têm. Essa persistência de desigualdades sociais não explicadas, com pessoas com mesmo nível educacional, é um efeito do racismo. Não podemos maquiar essa realidade. Essa persistência da desigualdade entre negros e brancos, que faz com que não tenhamos os mesmos direitos e oportunidades, que não tenhamos os mesmos cargos e salários, se chama racismo. E ele precisa ser combatido.” O economista Rodrigo Soares, professor titular do Insper, apresentou dados sobre a relação entre a concentração de renda e a história de escravidão africana. Os países sem um passado de escravidão de povos originários da África têm, nos dias de hoje, uma desigualdade 20% menor, medida pelo índice Gini. “Temos, de fato, essa relação muito clara entre o uso de escravidão no período colonial e a desigualdade”, disse. Conforme Soares, há uma série de mecanismos que tendem a explicar essa persistência: desigualdade econômica leva à desigualdade política, riqueza como fator determinante da possibilidade de tirar proveito de investimentos produtivos (crédito, por exemplo), restrição a crédito nas decisões de investimentos dos pais em seus filhos em escolaridade e saúde, interação entre número de filhos e escolaridade dos filhos. “Com a discriminação intensificando todos esses canais”, afirmou. Os resultados dos filhos estão conectados ao status socioeconômico dos pais: universidade, ocupação, acesso ao Bolsa Família, gravidez na adolescência, vitimação por crime e mortalidade em geral. O professor e administrador Helio Santos, presidente do conselho deliberativo do Fundo Baobá, citou as pesquisas sobre educação infantil do economista americano James Heckman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2000. Para cada dólar investido na educação da criança, recuperam-se 14 centavos por ano durante toda a vida adulta do cidadão. Em oito anos, o investimento estaria pago e ainda perduraria por toda a vida, reduzindo taxas de criminalidade, gravidez na adolescência e evasão do ensino médio e aumentando a produtividade no trabalho. Outro estudo comentado por Santos foi feito para a prefeitura de São Paulo, que evidencia ainda mais o mapa da desigualdade racial. Em Pinheiros, região da capital onde viviam menos pessoas negras, apenas 7% da população, os negros recebiam apenas 52% do rendimento médio do bairro. Em contrapartida, em Parelheiros, a região de menor renda e com 57% de população negra, os negros recebiam 79% do rendimento médio. “A diferença entre as duas regiões é de nove vezes”, disse Santos. “Dentro dessas regiões, percebemos que os negros recebem um valor bem inferior. Se eu vou aonde há mais riqueza, os negros são minoria. Se vou aonde há mais pobreza, são maioria. Isso me autoriza a dizer que a persistência da desigualdade faz parte do projeto.” Michael França, Alysson Portella, Allyne Andrade e Rony Coelho (com participação online de Rodrigo Soares)  "}]