[{"jcr:title":"O dilema de cobrir ou não entrevistas duvidosas de presidentes"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"O dilema de cobrir ou não entrevistas duvidosas de presidentes"},{"author":"Pedro Burgos","title":"O dilema de cobrir ou não entrevistas duvidosas de presidentes","content":"OPINIÃO| CONTEÚDO SOBRE A PANDEMIA DE COVID-19 | [ACESSE A PÁGINA ESPECIAL](https://www.insper.edu.br/coronavirus/conteudo) Carlos Eduardo Lins da Silva Nos meses de março de abril, no Brasil e nos EUA travou-se um debate entre profissionais e estudiosos de jornalismo sobre a necessidade ou conveniência de acompanhar encontros diários entre os presidentes dos países e repórteres. A discussão ficou mais acirrada após diversos incidentes em que Jair Bolsonaro e Donald Trump fizeram declarações caracterizadas como desinformação ou extremamente controversas. A polêmica merece reflexão porque pôs em xeque alguns cânones da profissão e porque, caso os presidentes ou algum de seus sucessores voltem a ter comportamento desse tipo, haverá alguma meditação já feita sobre como a imprensa pode reagir a ele. Um mandamento quase consensual no jornalismo, ainda que nem sempre explicitado em manuais, é o de que todas as atividades públicas do chefe de governo de um país devem ser acompanhadas de perto por repórteres. No entanto, Trump lá e Bolsonaro aqui geram com frequência agitação de pouco ou nenhum valor noticioso e fazem declarações mentirosas que, em especial numa situação como a da pandemia da Covid-19, podem causar mal a pessoas que nelas acreditem ou resolvam segui-las como orientação. Em princípio, tudo que a mais importante autoridade da nação diz ou faz pode afetar a sociedade inteira e precisa ser registrado pela imprensa. E, mesmo quando não há fala, quando ele ou ela esteja apenas se deslocando de um lugar para outro, sempre há a possibilidade de algum imprevisto vir a tornar-se um fato histórico. Como aconteceu em 22 de novembro de 1963, quando a carreata do presidente americano John Kennedy, que vinha do aeroporto Love Field para o centro de Dallas, Texas, foi interrompida pelos tiros que o mataram. No caso de Trump e Bolsonaro, o primeiro mandatário da nação ainda hostiliza os profissionais da imprensa e incita seus apoiadores a agredi-los. A entidade Repórter Sem Fronteiras registra que o presidente brasileiro fez um ataque à imprensa ou a jornalistas [a cada três dias](https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/04/bolsonaro-ataca-jornalistas-uma-vez-a-cada-3-dias-aponta-entidade-de-imprensa.shtml) entre janeiro e março deste ano. Seus seguidores também são pródigos em tentativas de intimidação a jornalistas [nas redes sociais](https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/04/passei-o-dia-sendo-atacado-nas-redes-bolsonaristas-com-uma-imagem-de-outra-pessoa.shtml) e ao vivo. Cenas como a ocorrida em 10 de abril, quando o repórter Renato Peters, da Rede Globo, [teve seu microfone arrancado](https://tvefamosos.uol.com.br/colunas/mauricio-stycer/2020/04/10/ataque-a-renato-peters-e-uma-agressao-ao-jornalismo-e-nao-apenas-a-globo.htm) das mãos por uma mulher, que o utilizou para proferir insultos contra a emissora, [tem se tornado mais comuns](https://twitter.com/VireiJornalista/status/1251311191697362944) . Em Brasília, Bolsonaro transformou o saudável hábito das entrevistas coletivas num encontro diário que promove na entrada do Palácio da Alvorada diante de um cercadinho onde se concentram apoiadores seus (à frente) e repórteres (ao fundo). Dali, o presidente faz declarações de pouco valor jornalístico e profere insultos contra jornalistas para a diversão de seus eleitores. Chegou ao ponto de levar para lá no dia 4 de março [um humorista](https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/03/depoimento-bolsonaro-troca-grosseria-por-chacota-e-escala-humorista-duble-para-explicar-pibinho.shtml) conhecido como Carioca, que usava uma imitação da faixa da Presidência da República para responder às questões dos jornalistas e lhes distribuir bananas. Diante disso, muitos cidadãos e profissionais de imprensa perguntam se vale a pena continuar a estar presente nessas reuniões. Não é uma decisão fácil, como mostra, entre outros, [a ombudsman da “Folha de S. Paulo”](https://www1.folha.uol.com.br/colunas/flavia-lima-ombudsman/2020/02/deixar-bolsonaro-falando-sozinho.shtml) , Flavia Lima, para quem o jornalismo deveria “gastar menos energia na repercussão e mais na contextualização dessas falas”. Seu colega de jornal, o colunista Hélio Schwartsman, [pondera](https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2020/04/da-para-ignorar-o-presidente.shtml) que, apesar de o dilema ser complexo, a chance de errar é menor se o jornalismo noticiar sem filtros tudo o que o presidente diz e faz; “[pode-se] até argumentar que foi a insistência da mídia em divulgar seus desatinos que possibilitou a articulação de forças que vai tornando a crise mais administrável. Alguns defendem o boicote ostensivo ao ritual do presidente. Há precedente histórico desse comportamento. Durante a ditadura, em 24 de janeiro de 1984, todos os repórteres fotográficos setoristas no Palácio do Planalto, colocaram suas câmeras no chão e cruzaram os braços enquanto o então presidente João Batista Figueiredo descia a rampa, como fazia rotineiramente. Apenas um, J. França, do “Jornal do Brasil”, usou sua máquina, para [registrar o protesto](http://memorialdademocracia.com.br/card/fotografos-protestam-contra-figueiredo) dos colegas. Foi uma reação aos crescentes empecilhos que Figueiredo impunha ao trabalho dos jornalistas, que culminara, uma semana antes, com a proibição de sua presença no gabinete presidencial em encontros públicos dele com outras autoridades. A ausência coletiva com a exceção de um jornalista que, se alguma coisa importante acontecer, deve registrá-la e passar aos demais é uma forma de manter a obrigação da imprensa de estar sempre presente onde fatos relevantes possam ocorrer, sem ser coadjuvante do presidente, [como defende](https://jornal.usp.br/radio-usp/jornalismo-deveria-ignorar-manifestacoes-de-deboche-vindas-de-bolsonaro/) este professor do Insper. Embora não seja a mesma coisa, seria parecido com a antiga e corriqueira instituição do [pool nos EUA](https://www.nytimes.com/2017/07/17/insider/presidential-travel-protective-press-pool.html) , poucos jornalistas são escalados para acompanhar traslados e atividades banais do presidente, mesmo quando se prevê que nada importante irá ocorrer, com o compromisso de relatar aos demais colegas todos os acontecimentos. Nos EUA, o que se discute agora é se mesmo os longos briefings diários que Trump tem feito há semanas para tratar da questão da pandemia do coronavírus devem ser transmitidos pelas emissoras de TV. Vários jornais importantes já não mandam seus repórteres a esses briefings, que são sempre transmitidos pela fundação de serviço público C-Span, pela qual se pode acompanhar tudo o que o presidente diz ou faz nesses encontros. Redes nacionais de TV aberta também passaram a interromper os briefings (que costumam se prolongar por até duas horas ou mais) quando chega o horário de seus noticiários noturnos ou o de suas afiliadas. Também nos EUA, a profissão sabe que esta é uma questão complicada. Jay Rosen, da New York University, oferece [13 razões](https://pressthink.org/2020/04/why-dont-they-just-walk-out/?utm_source=Daily+Lab+email+list&utm_campaign=113df50419-dailylabemail3&utm_medium=email&utm_term=0_d68264fd5e-113df50419-391445633) por que talvez não se deva simplesmente abandonar os briefings presidenciais, embora ele próprio defenda desde 2017 que a imprensa [não cubra](https://pressthink.org/2017/01/send-the-interns/) ou dê a mínima atenção possível aos eventos de Trump que só servem para chamar a atenção sobre sua pessoa. Entre as  justificativas usadas pelos que defendem a necessidade de sempre cobrir todas as falas de Trump e listadas por Rosen, está a de que a função do repórter é mostrar ao público o que acontece e deixar que cada cidadão faça o que achar melhor com a informação recebida. Tom Jones, do Poynter Institute acha que as conferências de imprensa de Trump devem [continuar sendo transmitidas](https://www.poynter.org/newsletters/2020/the-role-of-the-press-in-the-coronavirus-pandemic-is-to-provide-truth-even-if-that-truth-is-grim/) na íntegra porque, em sua opinião, a imprensa não deve “proteger” a sociedade do presidente, por mais que ele divulgue desinformação em suas falas; para Jones, ausentar-se dos briefings seria irresponsável. A crítica de mídia do jornal “Washington Post”, Margaret Sullivan, [discorda e defende](https://www.washingtonpost.com/lifestyle/media/the-media-must-stop-live-broadcasting-trumps-dangerous-destructive-coronavirus-briefings/2020/03/21/b8a2a440-6b7c-11ea-9923-57073adce27c_story.html) que as emissoras simplesmente não transmitam os briefings por considerar que eles são “perigosos e destrutivos” e se transformaram em eventos da campanha eleitoral para a reeleição do presidente. O jornal “St. Louis Post-Dispatch” é partidário da mesma tese e publicou em 2 de abril [enfático editorial](https://www.stltoday.com/opinion/editorial/editorial-its-time-for-the-networks-to-stop-live-broadcast-of-trumps-briefings/article_5754dc67-bcfc-5638-a0c4-012a92598998.html) em que conclama as emissoras de TV a deixarem de acompanhar as falas de Trump sobre a pandemia. “[Trump] se interessa menos em manter o público informado, ou ajudar as cidades em necessidades, e mais em exigir que os holofotes se mantenham apontados para ele,” escreveu o jornal. Ben Smith, o crítico de mídia do “New York Times”, acha que é possível resolver o dilema por meio de uma abordagem diversa no caso dos briefings do presidente sobre a pandemia: tratar o assunto estritamente do [ponto de vista de saúde pública](https://www.nytimes.com/2020/04/19/business/media/donald-trump-coronavirus-campaign-media.html?referringSource=articleShare) , não das declarações de Trump sobre o assunto. Trump dá coletiva na Casa Branca em 24.4.2020. (Foto: Tia Dufour)   Para a imprensa, estar presente onde o chefe de governo está pode ser importante mesmo quando algo inesperado não resulte em algo muito importante, como o que ocorreu em Dallas em 1963, mas ainda assim ser notícia. Em 14 de outubro de 1975, o comboio do então presidente dos EUA Gerald Ford o levava de uma burocrática reunião política em Hartford, Connecticut, para o aeroporto Bradley, quando sua limusine Lincoln Continental foi abalroada por um Buick LaSabre 1968, dirigida por James Salamites, de 19 anos. Por erro do Serviço Secreto, a Market Street, onde Salamites trafegava, não foi bloqueada na interseção com a rua Talcott, por onde o presidente passava. O sinal estava verde para ele, que o atravessou e bateu no carro do presidente. Temeu-se que se tratasse de um atentado. Salamites e seus colegas no Buick foram detidos por algumas horas até ficar esclarecido que tudo não passara de um reles acidente de trânsito. Mas o rapaz virou celebridade por alguns meses, com direito a várias entrevistas em emissoras nacionais de TV. Quando os movimentos do chefe de governo não geram notícia, eles são ou ignorados pelo jornalismo ou protocolarmente registrados: “O avião do presidente aterrissou em tal horário, e ele foi para o hotel X, onde chegou uma hora depois, acenou para as pessoas que o aguardavam e entrou”. Se sua movimentação não produz nada além de tumulto e desinformação, como ocorre quase como regra com Trump e Bolsonaro, impõe-se a questão se cabe à imprensa repercutir o que ele faz ou diz ou simplesmente anotar onde e quando ele esteve e abster-se de noticiar as eventuais inverdades e ofensas que proferir. Esta é mais uma das delicadas questões que o nacional-populismo coloca diante dos profissionais de imprensa e que precisam ser debatidas em profundidade por eles e pela sociedade.      * [Professor ](https://www.insper.edu.br/pesquisa-e-conhecimento/docentes-pesquisadores/carlos-eduardo-lins-da-silva/) de jornalismo no Insper   Os textos publicados na seção Debates refletem a opinião do autor. | [ACESSE A PÁGINA ESPECIAL](https://www.insper.edu.br/coronavirus/conteudo)"}]