[{"jcr:title":"Imprensa | Marcos Lisboa: Sobre homens e mitos"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"Imprensa | Marcos Lisboa: Sobre homens e mitos"},{"author":"Insper","title":"Imprensa | Marcos Lisboa: Sobre homens e mitos","content":"Fonte: [Folha de S.Paulo](https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcos-lisboa/2018/05/sobre-homens-e-mitos.shtml) – 22/5/2018 Miguel Torga foi seu nome de escolha, não o de batismo. Ele nasceu Adolfo Correia da Rocha em 1907, numa vila no interior de Portugal. Menino, entregava recados e foi porteiro na velha cidade do Porto. Em 1920, emigrou para o Brasil e trabalhou nas terras de um tio em Minas Gerais. Alguns anos depois, o tio, ciente da sua inteligência, financiou a sua volta a Portugal. Tornou-se médico. Adolfo, mais tarde como Miguel Torga, tornou-se também poeta e contista. Escreveu livros memoráveis como os “Contos da Montanha” e os muitos diários de sua vida. O poeta austero foi generoso e respeitoso com as velhas gerações. Seus livros relatam camponeses que tentam cumprir suas obrigações em meio a infortúnios aceitos com resignação. A história de Adolfo parece uma versão campestre e sem magia da viagem de Ulisses de volta à sua terra depois da guerra de Troia. A “Odisseia” relata os seus muitos percalços, como seu encontro com ciclopes e sereias. Adolfo, por sua vez, viajou para trabalhar no campo e retornou ao seu país para estudar e contar histórias. Seus contos entregam pessoas e seus dilemas cotidianos, não heróis ou deuses. A fala atravessada das suas personagens revela o desconforto de camponeses que têm um trabalho a realizar, sem tempo para filosofia ou autocompaixão. Não há deuses em meio a heróis, mas uma prosa surpreendente em que a realidade se sobrepõe à fantasia. Seu pequeno Portugal enfrentou uma grave crise nesta década. A Grécia também. Portugal optou pelo ajuste difícil, com o aumento do desemprego e a redução dos salários, inclusive dos servidores públicos. Não foi fácil, mas aos poucos o país se recuperou. Lisboa, capital de Portugal, impressiona pelas muitas reconstruções dos velhos prédios, pela burocracia simplificada e pela multidão recente de imigrantes que optaram pelo país inesperado. Os governos à direita e à esquerda dos últimos anos preservaram a responsabilidade fiscal e o país cresce desde 2014. O mesmo não ocorreu com a Grécia. O velho país, berço de heróis e de deuses, resolveu desafiar a realidade. As suas estatísticas não eram confiáveis, a sonegação de impostos era disseminada e o seu regime de previdência era insustentável. A Grécia postergou o ajuste das contas públicas quanto pode e tentou que os demais países pagassem pelos seus excessos. Não deu certo. O resultado foi uma crise sem precedentes, apenas interrompida em 2017. Da grandiosidade dos velhos épicos só restou a fanfarra. Uma curiosidade. Segundo uma lenda, Ulisses, durante a sua viagem, fundou a cidade de Olisipo, como a chamavam os antigos romanos. Olisipo atualmente é conhecida como Lisboa."}]