[{"jcr:title":"Escalada de impostos do governo central asfixiou algodão brasileiro no século XIX","cq:tags_0":"tipos-de-conteudo:insper-conhecimento"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"typeView":"vertical"},{"jcr:title":"Escalada de impostos do governo central asfixiou algodão brasileiro no século XIX","jcr:description":"Dissertação de doutorado contraria explicações mais comuns exploradas em história econômica"},{"subtitle":"Dissertação de doutorado contraria explicações mais comuns exploradas em história econômica","status":"publish","slug":"imposto-asfixiou-algodao-brasileiro-seculo-xix","title":"Escalada de impostos do governo central asfixiou algodão brasileiro no século XIX","content":"A escassez de mão-de-obra e o alto custo de transporte não parecem ter sido, como se pensava, os fatores que fizeram declinar a pujante produção brasileira de algodão no início do século XIX. Taxações gravosas pela coroa portuguesa que fugia de Napoleão, e depois pelo governo central independente, fizeram explodir os custos de produção nas regiões nordestinas mais especializadas, sobretudo no Maranhão, e foram decisivas para tirar o Brasil desse jogo. No final do século 18, mostra Thales Pereira na tese [Algodão e o Comércio Internacional do Brasil durante a Revolução Industrial](http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/12/12140/tde-17082017-091648/pt-br.php) , o algodão importado do Brasil representava 40% das compras inglesas do produto cru no porto de Liverpool. Fazendas no nordeste brasileiro eram grandes fornecedoras para a arrancada pioneira da Revolução Industrial, concentrada no setor têxtil inglês. O pesquisador encontrou evidências de que a vantagem do produto brasileiro não estava associada, como aventado em parte da historiografia, a complicações políticas na América do Norte e no Caribe. O tipo de algodão cultivado no Maranhão e em Pernambuco, de fibra mais longa e resistente, adaptava-se melhor ao maquinário tecnologicamente mais avançado das fábricas inglesas na virada para o século XIX. Daí a preferência pelo insumo brasileiro. Pelos dados coligidos e trabalhados no estudo, o declínio da produção brasileira, pronunciado e definitivo a partir da crise que derrubou os preços da commodity em 1819, não esteve relacionado com a “doença holandesa”, o desestímulo via taxa de câmbio de atividades menos dinâmicas, como o algodão e o açúcar do Nordeste, em favor de outras mais produtivas, como o café no sudeste. A hipótese, defendida por Nathaniel Leff no clássico “Subdesenvolvimento e Desenvolvimento no Brasil”, não foi confirmada na tese de Thales Pereira. Os dados mostram que Maranhão e Pernambuco tinham taxas de câmbio mais valorizadas que o restante do Brasil durante os anos de boom do algodão, mas depois elas se desvalorizaram relativamente com a entrada do café do Sudeste, na contramão do que prevê a conjectura da “doença holandesa”. A carência de mão-de-obra escrava, outra explicação explorada na historiografia, tampouco se verificou no estudo de Pereira. Havia intensa demanda pelos trabalhadores cativos no Maranhão até 1830, onde a participação da população negra, cerca de metade de todos os habitantes, superava a do sul algodoeiro dos EUA na mesma época. Além disso, no Maranhão até 1820 se pagava um prêmio para adquirir escravos em relação a outros centros escravagistas do país. O custo do frete também não teve impacto no declínio algodoeiro no Brasil. A tarifa para transportar o algodão maranhense até Liverpool foi discreta mas sistematicamente menor que a incidente na rota que saía de Nova York. Resta a hipótese de que a escalada dos impostos sobre a exportação do algodão, para financiar a coroa portuguesa que se refugiara no Rio em 1808 e, depois de 1822, o governo central do Império, derrubou a competitividade do algodão. Pereira calcula que 60% da diferença de preço que favorecia no porto de Liverpool o algodão embarcado em Nova York, na comparação com o oriundo de São Luís, é explicada pelos tributos sobre a exportação do produto brasileiro. A taxação total do algodão exportado, reforçada a partir de 1808, representou uma tarifa média para os produtores maranhenses de 22% entre 1809 e 1830. Era mais que o dobro do peso do transporte doméstico no custo da commodity. Principalmente depois da crise que derrubou os preços internacionais do algodão em 1819, a taxação da exportação fez o custo do algodão maranhense superar o nível máximo em que ele continuaria competitivo. Além disso, o governo central, para suprir suas crescentes necessidades de gastos correntes e financeiros, retirou do Maranhão em média 41% do que a região arrecadou durante o boom do algodão, o que diminuiu a possibilidade de que investimentos na infraestrutura de transportes reduzissem os custos e contrabalançassem a perda relativa da capacidade de competir. Complicações fiscais somadas a outras institucionais, como a centralização das decisões no Rio, também impediram o Maranhão de introduzir inovações tecnológicas, como a navegação fluvial a vapor que deu grande impulso ao algodão nos EUA, capazes de melhorar as perspectivas para seus produtores. Enquanto outros grandes fornecedores de algodão para as máquinas inglesas cresciam junto com a explosão da demanda até 1860, a produção maranhense sumia do mapa conforme o século XIX avançava. Acesse o estudo: [Algodão e o Comércio Internacional do Brasil durante a Revolução Industrial](http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/12/12140/tde-17082017-091648/pt-br.php)"}]