[{"jcr:title":"UPAs reduziram mortes entre internados e ajudaram hospitais a focar casos mais graves","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/saúde","cq:tags_2":"centro-de-conhecimento:centro-de-gest-o-e-pol-ticas-p-blicas","cq:tags_3":"tipos-de-conteudo:acontece-no-insper/pesquisa"},{"richText":"Pesquisa com participação de professora Letícia Nunes avalia efeitos das unidades no sistema público de saúde do Rio de Janeiro","authorDate":"06/07/2026 15h49","madeBy":"Por","tag":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/saúde","title":"UPAs reduziram mortes entre internados e ajudaram hospitais a focar casos mais graves","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"A superlotação dos prontos-socorros hospitalares é um problema crônico do sistema público de saúde brasileiro. Pacientes com quadros leves muitas vezes disputam espaço e atenção com casos graves, comprometendo a qualidade do atendimento. Uma das estratégias adotadas para aliviar essa pressão foi a criação das Unidades de Pronto Atendimento — as UPAs —, estruturas de funcionamento ininterrupto posicionadas entre a atenção básica e os hospitais. Mas até que ponto essa política funcionou? Essa é a pergunta investigada em um estudo publicado no Journal of Public Economics, uma das principais revistas científicas internacionais de economia do setor público. O artigo é assinado pela professora e pesquisadora do Insper Letícia Nunes, em parceria com Sonia Bhalotra, da Universidade de Warwick, no Reino Unido, e Rudi Rocha, da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da FGV. A pesquisa analisou a implantação das UPAs no estado do Rio de Janeiro entre 2007 e 2016 — período em que o estado saiu de zero para 68 unidades em operação — e concluiu que a política produziu efeitos expressivos. Segundo o estudo, a abertura das unidades reduziu em 30% os procedimentos ambulatoriais realizados nos hospitais, diminuiu em 13% a mortalidade entre pacientes internados e permitiu que os hospitais reorientassem sua atividade para casos de maior complexidade, como cirurgias e internações obstétricas, que cresceram 25%. Um nível intermediário de atendimento O ponto de partida do estudo é uma constatação amplamente documentada: hospitais públicos brasileiros atendem rotineiramente casos que poderiam ser resolvidos em outros níveis do sistema. Gastroenterites, infecções urinárias e crises de asma controladas, por exemplo, podem congestionar prontos-socorros e desviar recursos que deveriam estar disponíveis para pacientes que realmente demandam cuidados hospitalares. No Rio de Janeiro da década de 2000, esse problema era particularmente grave, em um contexto de baixa cobertura de atenção básica e hospitais sob estresse contínuo. A criação das UPAs foi a resposta do governo estadual — e depois federal, com a formalização do modelo em 2008 — para preencher essa lacuna. As unidades funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana, são equipadas com raio-X, eletrocardiografia, laboratório e leitos de observação, e encaminham para hospitais os pacientes que exigem cuidados mais especializados. Para avaliar o impacto da política, os pesquisadores combinaram dados administrativos do Ministério da Saúde sobre estabelecimentos de saúde, internações hospitalares, atendimentos ambulatoriais e mortalidade. Também georreferenciaram as localizações dos hospitais com pronto-socorro e das UPAs abertas no período, identificando as datas de inauguração de cada unidade. A estratégia empírica explorou o fato de que as UPAs foram implantadas de forma escalonada, em diferentes municípios e momentos. Isso permitiu comparar o que ocorreu com hospitais que passaram a ter uma UPA em sua área de abrangência com aqueles que ainda não contavam com esse tipo de unidade nas proximidades. A área de influência de cada hospital foi definida com base em um raio de 4,5 quilômetros — distância mediana que os pacientes percorriam até o pronto-socorro mais próximo antes da chegada das UPAs. Menos pressão sobre os hospitais Os resultados revelam uma reorganização importante do fluxo de pacientes. O efeito mais imediato foi o alívio da carga sobre os hospitais. A abertura de uma UPA reduziu em 30% o volume de procedimentos ambulatoriais realizados no hospital da área — queda concentrada nos procedimentos de média complexidade, justamente o tipo de atendimento que as UPAs foram criadas para absorver. Nas internações, o impacto foi seletivo. Houve queda de 38% nas admissões por condições resolvíveis exclusivamente pela atenção ambulatorial, como gastroenterites e infecções urinárias, e de 24% nas internações por condições sensíveis tanto ao ambulatório quanto à emergência, como asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). Em contrapartida, as internações por condições que exigem cuidado hospitalar não sofreram redução. Com isso, os hospitais passaram a admitir um perfil de paciente mais complexo e responderam a essa mudança. As internações cirúrgicas e obstétricas cresceram 25%, enquanto as internações clínicas caíram 27%. Na prática, os hospitais deixaram de funcionar como porta de entrada para todos os tipos de caso e passaram a concentrar-se mais nos atendimentos que dependem de sua capacidade especializada. A consequência mais relevante foi a queda na mortalidade entre pacientes internados. A taxa de óbitos recuou 0,8 ponto percentual — redução de 13% em relação ao nível inicial. Os ganhos foram mais pronunciados nas unidades de terapia intensiva e nos casos de maior complexidade, justamente aqueles para os quais não houve queda nas internações. Os hospitais passaram, assim, a apresentar melhores resultados nos casos em que seu papel é mais difícil de substituir. O estudo também identificou possíveis mecanismos por trás dessa melhora. Com menos casos de baixa complexidade, os profissionais de saúde passaram a dedicar mais horas ao cuidado de pacientes internados e menos tempo a tarefas administrativas e ambulatoriais. Os hospitais registraram ainda aumento de 11% no total de equipamentos médicos disponíveis, ampliando a disponibilidade de recursos por paciente. Impacto sobre a mortalidade geral foi limitado Usando dados de mortalidade por causa e por local de óbito em todos os 92 municípios do estado, os pesquisadores verificaram que a queda nos óbitos hospitalares foi parcialmente compensada por um aumento nas mortes ocorridas nas próprias UPAs — resultado esperado, uma vez que essas unidades passaram a atender casos que antes eram direcionados aos hospitais. O efeito líquido sobre a mortalidade geral foi uma redução de 3 óbitos por 100 mil habitantes, equivalente a 1,8%, mas essa estimativa não atingiu significância estatística. Para Letícia Nunes, esse resultado não diminui a importância da política, mas ajuda a delimitar seus efeitos e seu lugar adequado no sistema. “As evidências mostram que as UPAs cumprem muito bem uma função de organização do sistema de saúde. Ao absorver casos menos complexos, elas reduzem a pressão sobre os hospitais e permitem que estes concentrem recursos em pacientes mais graves, o que foi associado a uma redução importante da mortalidade dentro dos hospitais”, afirma a pesquisadora. “Ao mesmo tempo, o estudo sugere que esse ganho não se traduz automaticamente em uma queda clara da mortalidade total da população. Isso indica que as UPAs não devem ser vistas como uma solução isolada para melhorar indicadores de saúde, mas como uma peça importante de uma rede mais ampla de atenção à saúde.” Lições para o SUS Embora baseado em dados do Rio de Janeiro de uma década e meia atrás, o estudo traz implicações para o SUS atual e para outros países que enfrentam desafios semelhantes. A superlotação de prontos-socorros é um problema comum mesmo em países de alta renda, e alternativas para oferecer cuidado de emergência fora dos hospitais nem sempre produzem bons resultados quando não estão integradas ao sistema existente. “A principal lição é que uma estrutura intermediária entre a atenção básica e os hospitais pode ajudar a organizar melhor o fluxo de pacientes e melhorar o desempenho da rede”, diz Letícia. “No entanto, esses resultados dependem de algumas condições importantes: integração entre UPAs, hospitais e serviços de ambulância, capacidade adequada de atendimento, financiamento estável e mecanismos eficientes de encaminhamento dos pacientes.” Segundo ela, a experiência mostra que não basta construir unidades de emergência. Para que seus benefícios apareçam, elas precisam fazer parte de uma rede coordenada de atenção à saúde."}]