[{"jcr:title":"Uma carreira construída na intersecção entre Direito e Ciências Sociais","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:direito","cq:tags_2":"centro-de-conhecimento:centro-de-gest-o-e-pol-ticas-p-blicas","cq:tags_3":"centro-de-conhecimento:núcleo-de-estudos-de-gênero"},{"richText":"Mariana Chies-Santos percorreu uma trajetória interdisciplinar marcada pela articulação entre pesquisa empírica e atuação voltada a populações vulneráveis","authorDate":"15/12/2025 17h17","madeBy":"Por","tag":"area-de-conhecimento:políticas-públicas","title":"Uma carreira construída na intersecção entre Direito e Ciências Sociais","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"Ainda que o Direito não fosse sua primeira opção — ela sonhava em ser diplomata —, a decisão de prosseguir o curso até o fim, incentivada pela família, acabou sendo determinante para a construção de uma trajetória acadêmica singular. Professora do Insper desde 2022,  [Mariana Chies-Santos](https://www.insper.edu.br/pt/docentes/mariana-chies-santiago-santos)  combina as formações em Direito e em Ciências Sociais para desenvolver pesquisas empíricas sobre violência, sistema prisional e justiça juvenil. Da advocacia pro bono com adolescentes em situação de conflito com a lei ao doutorado-sanduíche em Sociologia na França, seu percurso reflete a busca por compreender as desigualdades brasileiras a partir do contato direto com a realidade. No Insper, Mariana ministra disciplinas na graduação em  [Direito](https://www.insper.edu.br/pt/cursos/graduacao/direito)  que aproximam os alunos de questões sociais urgentes. Também atua no  [Núcleo de Estudos de Gênero](https://www.insper.edu.br/pt/pesquisa/centro-de-gestao-e-politicas-publicas/nucleo-de-estudos-de-genero) , onde desenvolve projetos que investigam as múltiplas dimensões das desigualdades de gênero no Brasil. Uma das atividades de extensão é o  [Projeto Pop Rua](https://www.insper.edu.br/pt/conteudos/direito/alunos-do-insper-participam-de-iniciativa-do-judiciario-para-garantir-cidadania-a-populacao-de-rua) , que leva estudantes a prestar atendimento voluntário a pessoas em situação de rua. Seu trabalho de campo inclui visitas a unidades de internação e periferias, mantendo o vínculo com as populações que estuda. A seguir, conheça mais sobre a trajetória de Mariana Chies-Santos: A escolha da carreira Sou gaúcha, de Porto Alegre, e minha trajetória acadêmica começou em 2004, quando entrei no curso de Direito na PUC-RS. Na época, queria ser diplomata, mas acabei aceitando a recomendação dos meus pais, embora não me sentisse particularmente atraída pelo Direito. Em 2005, encontrei uma solução: ingressei também em Ciências Sociais na UFRGS. Meus pais não me deixaram abandonar o Direito, mas aceitaram que eu cursasse outra graduação simultaneamente. Sempre me interessei por História, mas, como já havia estudado Sociologia e Ciência Política no curso de Direito, decidi tentar Ciências Sociais. Durante toda a graduação, mantive uma rotina intensa: aulas de manhã, estágio à tarde e outra faculdade à noite. Fiz diversos estágios jurídicos tentando encontrar uma área que me motivasse, mas foi na criminologia e na antropologia que descobri minha verdadeira paixão. Encantei-me especialmente com os trabalhos etnográficos e a pesquisa qualitativa. Desde o início, mergulhei na iniciação científica. Foi ali que descobri meu verdadeiro caminho: a pesquisa acadêmica. Embora a diplomacia ainda me interessasse, a academia me conquistava cada vez mais. Concluí o Direito em 2009 e, durante três anos, atuei como advogada criminalista enquanto cursava o mestrado. Esse período foi fundamental para entender o que eu realmente queria. O encontro com a advocacia e seus desafios Para atuar na área penal que realmente me interessava, o caminho natural seria prestar concurso para defensoria pública. A alternativa seria o direito penal econômico — corrupção, lavagem de dinheiro, evasão fiscal —, mas esses temas não me atraíam. O que me tocava era o “penal da rua”: tráfico, roubo, furto. Esses eram os casos que eu assumia pro bono no escritório. A experiência mais significativa da minha vida como advogada aconteceu quando atuei, até 2015, em um serviço de assistência jurídica gratuita da universidade. Tornei-me advogada voluntária, atendendo exclusivamente adolescentes em situação de conflito com a lei. A justiça juvenil é diferente da justiça penal: embora envolva o crime, exige articulação com a rede de saúde, assistência social e, principalmente, com as famílias — geralmente, as mães que nos procuravam. Essa vivência me conectou com temas que hoje definem minha carreira acadêmica. A migração para a Sociologia e a vida acadêmica Chegou um momento em que precisei escolher: não dava para continuar advogando e fazer doutorado ao mesmo tempo. Terminei o mestrado em Ciências Criminais em 2013 e optei por ingressar no doutorado em Sociologia na UFRGS. A mudança foi estratégica: no Brasil, a sociologia da violência e da punição é mais consolidada que a criminologia, e o Direito me parecia excessivamente normativo para a pesquisa empírica que eu queria fazer. No mesmo mês em que concluí Ciências Sociais, qualifiquei meu projeto de tese e, em seguida, fui para a França fazer doutorado-sanduíche no Centre de Recherches Sociologiques sur le Droit et les Institutions Pénales (CESDIP), em Versalhes, onde permaneci por um ano, entre 2014 e 2015. A experiência internacional foi fundamental para ampliar minha compreensão sobre sistemas penais comparados. Chegada ao Insper e consolidação da carreira Antes de finalizar o o doutorado, em 2015, me mudei para São Paulo. Realizei um pós-doutorado no Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP. Permaneci ali até 2021 como bolsista da Fapesp. Esse foi um período de intensa produção acadêmica, em que aprofundei projetos empíricos e participei de debates fundamentais na área da sociologia da violência e da punição. Em 2021, o Insper abriu uma seleção para docentes em tempo integral para o curso de Direito. Me inscrevi de forma despretensiosa, sem conhecer muito a instituição — talvez justamente por vir de um percurso mais voltado à Sociologia. Pensei: “por que não?”. Fui avançando nas etapas do processo seletivo e acabei sendo aprovada. A contratação foi formalizada no final de 2021, e comecei oficialmente em janeiro de 2022, inicialmente para assumir a disciplina de Direito Penal, que era uma demanda específica do novo curso. Com a nova função, precisei encerrar formalmente o pós-doutorado, mas mantive meus vínculos com o NEV como pesquisadora associada. Essa ponte entre o Insper e a USP tem sido extremamente frutífera, alimentando tanto minha produção científica quanto minha atuação docente. No Insper, leciono atualmente duas disciplinas centrais na formação dos alunos de Direito: Realidade Brasileira, para o primeiro ano, e Política Criminal e Direito Penal, no segundo ano. Em Realidade Brasileira, trabalhamos temas estruturantes como desigualdades sociais, econômicas e de gênero, políticas públicas, sistema de justiça criminal, sistema penitenciário e políticas de drogas. A disciplina busca romper a bolha social em que muitos estudantes se encontram, conectando-os com a complexidade do país em que vivem. Já em Política Criminal e Direito Penal, estudamos os elementos que estruturam a Teoria Geral do Delito e a Teoria Geral da Pena, sempre trazendo casos concretos novos às discussões. Pesquisas no Núcleo de Estudos de Gênero Sou pesquisadora vinculada ao Núcleo de Estudos de Gênero (NEG), ligado ao Centro de Gestão de Políticas Públicas (CGPP) do Insper, onde desenvolvo projetos voltados à investigação das múltiplas dimensões das desigualdades de gênero no Brasil. Desde o início da minha trajetória acadêmica, meu foco sempre foi compreender as desigualdades em suas diversas expressões, e o NEG tem sido um espaço privilegiado para aprofundar essas questões com seriedade, abordagem interdisciplinar e consistência metodológica. Atualmente, coordeno uma pesquisa sobre a feminização do mercado jurídico, um fenômeno que observo de perto no cotidiano universitário. No curso de Direito do Insper, por exemplo, a maioria das alunas é composta por mulheres — o que também se repete nos índices de inscrição e aprovação no exame da OAB. Hoje, 52% das pessoas com registro na Ordem são mulheres, frente a 47% de homens. Apesar desse avanço quantitativo, a presença feminina nos altos cargos da advocacia, do Judiciário e do Ministério Público ainda é significativamente baixa. Essa discrepância é o ponto de partida da nossa investigação. Nosso trabalho tem caráter qualitativo e conta com a parceria de escritórios de advocacia interessados em compreender por que, mesmo com avanços na formação e na entrada no mercado, as mulheres continuam encontrando barreiras para ocupar posições de liderança. Já concluímos uma iniciação científica sobre o tema e seguimos explorando dados da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais), com apoio de colegas das áreas de Administração e Ciência de Dados. Trata-se de uma pesquisa interdisciplinar, que combina perspectivas do Direito, da Sociologia, da gestão e da análise de dados para lançar luz sobre esse fenômeno complexo. Também no âmbito do NEG, coordeno, com apoio de dois assistentes de pesquisa, um projeto sobre a socialização legal e ilegal de adolescentes nas periferias urbanas. Partimos de uma literatura que mostra como os primeiros contatos com autoridades — policiais, professores, agentes públicos — influenciam a maneira como adolescentes constroem sua percepção de legitimidade das normas e das instituições. No entanto, sabemos que, nas periferias, o Estado frequentemente se ausenta ou se apresenta apenas por meio da repressão. Nesses contextos, muitas vezes, quem assume o papel de autoridade legítima são membros de facções criminosas — em São Paulo, sobretudo o PCC. Essa linha de pesquisa tem conexão direta com minha formação em Sociologia e minha experiência prática anterior com adolescentes em situação de conflito com a lei. São projetos desafiadores, mas essenciais para compreender as formas pelas quais a violência e a desigualdade moldam trajetórias juvenis no Brasil contemporâneo. O núcleo me dá o respaldo institucional e a infraestrutura necessária para desenvolver esse tipo de investigação de forma ética, profunda e comprometida com a transformação social. Projeto Pop Rua: extensão e formação cidadã O Projeto Pop Rua é uma das iniciativas de que mais me orgulho. Organizado pelo Tribunal Regional Federal com o apoio de diversas instituições públicas, promove um mutirão na Praça da Sé para atender pessoas em situação de rua. O convite para o Insper surgiu por meio de uma aluna cuja mãe, juíza federal, faz parte do projeto. Desde então, passamos a integrar a iniciativa em 2024 e 2025, com expectativa de continuidade. Os alunos do Insper atuam na triagem, identificando necessidades específicas das pessoas atendidas — como regularização eleitoral, baixa no Exército, pagamento de penas de multa que impedem acesso a programas sociais. Em muitos casos, os problemas são resolvidos ali mesmo. A experiência, inclusive o deslocamento de metrô, tem sido transformadora para os estudantes, permitindo contato com uma realidade muitas vezes distante de sua vivência cotidiana. A pesquisa como vocação  Sou uma pesquisadora empírica. Meu trabalho não se baseia apenas em dados estatísticos: eu vou a campo, converso com interlocutores, visito unidades de internação, prisões e periferias. Em julho de 2024, passei quase um mês dentro da Fundação Casa. Ao longo do ano, viajei pelo país pesquisando a tortura praticada contra adolescentes, observando audiências na justiça juvenil e entrevistando atores-chaves. Essa pesquisa foi financiada pelo Conselho Nacional de Justiça, o que representou um reconhecimento importante.  Olhando para o futuro Venho de uma família de acadêmicos — meu pai era professor universitário na área da microbiologia, minha mãe tem formação em genética e ainda mantém uma empresa no Tecnopuc, em Porto Alegre, e minha irmã é professora de Astronomia na UFRGS. Sou a única que veio para as ciências sociais e para a iniciativa privada, e reconheço as vantagens dessa escolha. Já trabalhei em uma instituição onde havia assuntos que eu não podia abordar em sala de aula. Quando trabalhamos com desigualdades de gênero, por exemplo, não tem como não falar de aborto no Brasil. Quando falamos de direito penal, precisamos discutir tráfico, trabalho policial e o modo como decisões são tomadas no Brasil. Nos próximos anos, quero avançar na produção teórica. Tenho feito muita pesquisa empírica, mas percebo que há espaço — e necessidade — para desenvolver teoria original na sociologia da violência e da punição no Brasil. Desde a redemocratização, conseguimos avançar nas investigações empíricas, mas talvez tenhamos deixado a teoria em segundo plano. Olhando para trás, vejo que minha trajetória foi bem desenhada. E agradeço aos meus pais por não terem me deixado desistir do Direito: hoje percebo que minha formação interdisciplinar é muito mais rica porque sou socióloga, mas também tenho toda a formação jurídica que me permite estar aqui no Insper, ensinando e pesquisando com a liberdade e as ferramentas necessárias para fazer um bom trabalho que, quem sabe, transforme o país.  "}]