[{"jcr:title":"Quando a economia cruza a política — e a própria trajetória","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:economia","cq:tags_2":"centro-de-conhecimento:centro-de-gest-o-e-pol-ticas-p-blicas","cq:tags_3":"centro-de-conhecimento:centro-de-finan-as-e-macroeconomia"},{"richText":"A professora Laura Karpuska compartilha sua jornada profissional, do mercado financeiro à docência e à pesquisa em economia política","authorDate":"10/07/2025 21h33","madeBy":"Por","tag":"area-de-conhecimento:economia","title":"Quando a economia cruza a política — e a própria trajetória","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"Professora assistente no Insper, pesquisadora na área de economia política e colunista do  Estadão , [Laura Karpuska](https://www.insper.edu.br/pt/docentes/laura-de-andrade-karpuska-santos) construiu uma trajetória marcada por reinvenção, curiosidade intelectual e compromisso com o debate público. Começou a trabalhar ainda na adolescência e, ao longo dos anos, transitou entre diferentes mundos: de um escritório de advocacia como secretária a economista no banco JP Morgan, do doutorado nos Estados Unidos à sala de aula no Brasil.   Sua trajetória profissional foi moldada tanto por oportunidades inesperadas quanto por decisões conscientes de buscar profundidade, autonomia e relevância social. Hoje, sua pesquisa se concentra na interseção entre economia e política, com foco em entender como regras fiscais, informação e normas sociais moldam a desigualdade e a responsabilização política.   Em sua coluna quinzenal, ela tenta escrever sobre política em um sentido mais amplo, incluindo questões de valores, gênero e poder focando em um debate econômico levado a um público mais amplo, reforçando seu compromisso com a democratização do conhecimento e a representatividade feminina em uma área ainda marcada por forte presença masculina.   A seguir, Laura Karpuska conta como foi essa caminhada.     Origens e primeiros passos   Eu sou de São Paulo. Cresci no bairro da Aclimação, onde passei a maior parte da minha vida. Minha família maternatinha uma tradição de educação. Minha tia-avó por parte de mãe era diretora de uma escola Montessoriana no bairro. Meu pai trabalhou como cartunista em jornal, desenhista e web designer. Ele acabou terminando o ensino médio e cursou a faculdade quando eu estava, curiosamente, fazendo faculdade também. Minha mãe já trabalhou com bastante coisa, eu diria que ela fez de tudo um pouco. Trabalhou em gráfica rápida, numa empresa de paisagismo e depois, já entrando na quase terceira idade, ela se tornou escrevente no judiciária. Hoje ela trabalha na vara de violência doméstica no fórum da Barra Funda.   Eu comecei a trabalhar cedo, tinha 14 ou 15 anos. Fiz quase todo o ensino médio trabalhando. Estudei parte do ensino fundamental em escola pública e parte em escolas particulares. Durante o terceiro colegial e o cursinho, eu trabalhava como recepcionista numa academia. Eu achava divertido, era um ambiente jovem e descontraído. Depois, quando eu entrei na USP para cursar economia, fui trabalhar como secretária em um escritório de advocacia. Era um emprego de secretária bilíngue. Eu não era bilíngue, mas acho que meu chefe na época não se importou muito com isso na ocasião (rs).     A descoberta da economia   Eu não tinha referência de pessoas que eram economistas. Acho que quando eu pensava em economista, eu pensava no Delfim Neto, um senhor com óculos e suspensórios, não sei. Eu certamente não sabia o que era economia antes de entrar na faculdade. Meu irmão, que é 11 anos mais velho do que eu e tinha feito Administração na PUC, queria muito que eu fosse pelo mesmo caminho que ele.   Eu pensei muito em fazer Matemática ou História, mas eu tinha medo de não ter facilidade para arrumar um emprego depois de me formar. Como eu já trabalhava, era algo que me preocupava. Cheguei a pensar em Engenharia. O momento epifânico para mim aconteceu quando um grande amigo meu, vizinho de infância, deixou de fazer História na USP e foi fazer Economia. Acompanhei toda a mudança dele. Pensei que a Economia poderia unir meus desejos de fazer História e Matemática. E foi com este superamigo, o André, que eu resolvi prestar Economia na FEA.     A graduação   Entrei na FEA em 2005, no curso noturno. Uma das grandes maravilhas da USP para mim, e acho que para muitos outros, é poder estudar e trabalhar. Eu sei que, idealmente, quem está na faculdade deveria focar só naquilo mesmo, em estudar. Mas, na época, foi muito importante poder fazer as duas coisas.    Um dia, lendo uma coluna no  Valor Econômico , escrita pelo Rogério Schmitt, que é cientista político, tive a ideia de escrever para ele. Eu não lembro exatamente porque eu quis escrever para ele, mas eu quis comentar a coluna dele. O Rogério é um cara incrível, me respondeu de forma muito educada e me perguntou se eu era economista. Aí eu contei que eu era estudante na USP. Ele pediu o meu currículo para eu deixar na base de dados da consultoria onde ele trabalhava. Eu mandei, muito feliz. Meses depois, me chamaram para uma entrevista. Consegui a vaga de estágio e deixei de ser secretária.   Na minha época era possível fazer estágio desde cedo no curso. Eu estava muito determinada a não ser secretária mais. Não tinha nenhum preconceito com o trabalho em si, mas queria poder viver a vida universitária, me sentir mais economista mesmo. A receptividade do Rogério e o email que mandei para ele mudaram minha trajetória, certamente. Como na questão de trabalhar, entendo que não é o ideal que os alunos façam estágio desde o começo. Mas, claro, esta é uma visão normativa. Para mim, ter feito estágio foi muito melhor que seguir trabalhando como secretária, por exemplo.    Eu tive alguns choques quando entrei na USP. Era um ambiente muito mais elitista do que eu estava habituada. Eu me sentia um pouco desconectada também porque trabalhava o dia todo. Mas, hoje, olhando para trás, um aspecto que só consegui perceber anos depois foi como me sentia desconectada do ambiente até por ter demorado para ter outras referências de professoras naquele ambiente. Acho que uma aula magna com o Delfim — conhecido por seus óculos e suspensórios — ajudou a marcar: “Não me enxergo nesse cara”. Foi e é um processo me sentir economista. Curiosamente, eu ouvi isso de muitas mulheres no Podcast das EconomistAs — um projeto que tenho com a Paula Pereda, da USP. Estamos meio paradas agora, mas já entrevistamos quase 100 pessoas ao longo dos últimos 5 anos. E eu já ouvi isso de muitas mulheres, que elas ainda estão neste processo.       O mercado financeiro   Depois de poucos meses na consultoria, um professor meu muito querido, o Fernando Postali, me ajudou a arrumar outro estágio. Ele já tinha notado que eu trabalhava. Um amigo dele perguntou se ele tinha indicações de alunos e ele passou meu nome. Saí da consultoria e fui trabalhar no JP Morgan. Foi incrível trabalhar com economia de verdade, em um ambiente muito dinâmico e com gente muito interessante. Meus chefes eram incríveis, aprendi muito com eles. Eu era responsável pela projeção de inflação, análise de contas públicas — era pesquisa econômica voltada para o mercado, não acadêmica. Mas acho que, de alguma forma, o interesse pelas contas públicas ficou até hoje, pois em meus estudos de macroeconomia política eu ainda toco em questões fiscais. Depois que me formei, continuei no JP Morgan por algunsanos. Fui transferida para o escritório de Nova York, onde trabalhei até 2014. Saí de lá para fazer o Ph.D.      O doutorado   A minha experiência no JP Morgan foi muito legal. Foi lá que eu entendi mesmo que existia mestrado e doutorado. Meus chefes todos eram mestres e doutores. Inicialmente, pensei em parar de trabalhar e fazer o exame da Anpec para cursar mestrado no Brasil, mas acabei subvertendo a ordem das coisas.   Como eu já estava em Nova York, me candidatei para alguns mestrados nos Estados Unidos, com a ideia de fazer paralelamente ao meu trabalho. Mas num dos lugares onde apliquei — onde meu marido fazia o doutorado — me chamaram para começar o doutorado direto, com bolsa. Eu acabei pulando uma etapa que para mim era quase natural e comecei meu Ph.D na Stony Brook University, em 2014. Achei que ia fazer macroeconomia, estudar política fiscal em modelos macroeconômicos. Mas lá tinha gente muito boa fazendo economia política e teoria dos jogos. Quando eu estava lá, uma macroeconomista que faz muita coisa de economia política, era professora lá, a Marina Azzimonti. Ela foi minha orientadora. Graças a ela, aprendi macroeconomia política. Lá em Stony Brook tem também o Game Theory Center, que organiza a maior conferência de Teoria dos Jogos do mundo. Então, acho que eu me influenciei muito pelo meio e acabei fazendo algo que fica na intersecção desses mundos: macro, economia política e teoria dos jogos aplicada.    Minha dissertação foi sobre “ Budget Rules, Political Turnover and Disagreement ” (Regras Orçamentárias, Alternância Política e Desacordo). Defendi em 2019 e voltei para o Brasil.   O período nos Estados Unidos foi ótimo. Morar fora me fez perceber que São Paulo não é uma boa cidade em termos de qualidade de vida. Me impressionava a funcionalidade de Manhattan em comparação com São Paulo, especialmente a questão do transporte público. Entrar no metrô e ver uma diversidade real de pessoas — do imigrante que ganha pouco ao diretor de banco — era chocante para mim. Foi uma experiência rica para entender que existem cidades mais funcionais e sociedades menos segregacionistas.     O retorno ao Brasil e a transição para a academia   Eu não voltei ao Brasil de forma planejada. Foi por uma questão de saúde familiar. Felizmente, acabou casando com a oportunidade de entrar como sócia da BlueLine Asset Management, um fundo de investimentos criado por ex-colegas do JP Morgan. Trabalhei no fundo entre 2019 e 2020.   Foi uma experiência interessante trabalhar no mercado financeiro depois do doutorado. Ficou mais marcante para mim como é difícil não ser contaminado pelo ambiente, pela notícia corrente. Senti falta de um trabalho mais introspectivo.   A decisão de voltar para a academia não foi pelos ganhos financeiros, claro. No primeiro dia de aula na graduação, quando eu conto para os alunos um pouco de mim, eu brinco que resolvi, como os outros professores, fazer um “voto de pobreza” ao optar pela carreira acadêmica. Não há pobreza alguma em ser professora universitária. Mas, claro, a brincadeira carrega o fato de que a escolha foi feita não por dinheiro, mas por uma questão de identificação com um trabalho e com o meio.     O pós-doutorado e o Insper   Em 2020, comecei um pós-doutorado na FGV, em São Paulo. A ideia era me reinserir na academia brasileira depois de ficar longe do país e de nunca ter feito uma pós-graduação aqui. Acho que tenho um perfil atípico para a academia brasileira porque não fiz mestrado aqui — minha conexão com a academia no Brasil aconteceu só durante a graduação, então já era muito distante depois de anos trabalhando no banco e fazendo Ph.D fora.   Foi um período de muitas felicidades simultâneas. Foi nesse tempo que recebi o convite para vir para o Insper como professora. Curiosamente, assinei meu contrato na semana que descobri que estava grávida da minha filha Yara — foi um ano de muitas felicidades mesmo.       Minhas pesquisas em economia política   Minha linha de pesquisa foca na intersecção entre economia e política, particularmente em como regras, informação e normas sociais moldam a desigualdade e a responsabilização política.   Um exemplo é a pesquisa que desenvolvo com outros colegas sobre a baixa representatividade de mulheres no Congresso brasileiro. Enquanto cientistas políticos, sociólogos e antropólogos têm suas linhas argumentativas, nós, economistas, tentamos responder com modelos matemáticos e dados. Fizemos um experimento no Instagram durante as últimas eleições, atingindo quase 8 milhões de pessoas, para medir a diferença entre discriminação baseada em preferências versus discriminação por questões de conhecimento ou percepção sobre os candidatos. É uma forma de entender qual a fonte da discriminação. Isso é fundamental para a gente entender como devemos desenhar políticas públicas, ou privadas, para combater desigualdades. Desigualdade é sempre um objeto multidimensional, então é importante tentar entender suas várias faces.    Essa agenda não vem da faculdade. Inicialmente, achava que faria macroeconomia, como mencionei acima. Cursei todas as matérias de macro no Ph.D e fui monitora da área. Eu passei a ficar curiosa com como a macroeconomia tradicional pensa de forma muito normativa — qual a melhor taxação, como reduzir desigualdade de forma ótima —, sempre com a hipótese implícita de um planejador benevolente que implementa essas políticas para o bem comum. Mas sabemos que não é assim que funciona. É na arena política que as políticas públicas são implementadas — e onde elas falham também.     O Insper como ambiente de pesquisa   Já passei por várias instituições e sinto que o Insper tem algo muito legal, que é seu dinamismo. É uma faculdade em crescimento. Como centro de pesquisa, não conheço nenhum outro lugar no Brasil — e dá para contar numa mão os centros na América Latina — com esse dinamismo.   O Insper foi muito bem-sucedido em se reestruturar e criar um ambiente positivo para pesquisa. Gosto muito de dar aula. Depois de 12 anos nessa trajetória, desde 2013, acho muito difícil dar aula se você não estiver tentando entender o que está na fronteira do conhecimento. Como instituição, é importante que os professores estejam focados também em desenvolver pesquisa.     A coluna no  Estadão   Mantenho a coluna no  Estadão  desde que cheguei ao Insper. Eu fiquei bastante surpresa com o convite pois acho que, além de não ser conhecida, eu também não tinha muita experiência com isso. Escrevi um artigo pequeno a pedido de uma colega jornalista para um portal de um banco. Era algo sobre as palavras dos nossos governantes importaram, sobre os perigos de a gente ouvir algo falado por alguém no poder e reagir com “ah, mas ele não quer dizer mesmo isso, ele só fala”. Uma colunista do  Estado  na época gostou do artigo e me indicou para o pessoal do caderno de Economia. Acho que, academicamente, a coluna é custosa do ponto de vista de tempo e até reputacional. Mas, pessoalmente, tenho prazer em ter uma válvula de escape de pensamentos que seja mais imediata. Acho que ajuda a pôr a cabeça para funcionar.     Próximos passos   Em agosto de 2025 eu vou para os Estados Unidos por um ano acadêmico (2025–2026). Vou para o W. Allen Wallis Institute of Political Economy, na Universidade de Rochester. Minha agenda de pesquisa em macroeconomia política é um pouco nichada — não tem muita gente que faz, é compartilhada por cientistas políticos, matemáticos e economistas.   Para o futuro da minha carreira acadêmica, comecei fazendo coisas mais teóricas, com modelos matemáticos, sem relação com dados, mas aprendi que se pode fazer um bom casamento entre teoria e dados, o que enriquece muito o projeto de pesquisa e a capacidade da gente como pensador.   Uma coisa que nunca gostaria de perder de vista é a multidimensionalidade do trabalho como pesquisadora e como professora. É essencial dar aula, orientar, pesquisar — mas também ser mentora, especialmente para outras mulheres em um ambiente ainda predominantemente masculino. Aprendi isso muito tarde na minha trajetória e quero continuar a tentar ter esse papel. Nos últimos anos foi muito importante ter tido colegas mentores. A Cristine Pinto, professora aqui do Insper, é um exemplo de uma colega mais sênior que sempre se dispõe com tempo para um bate-papo que já me ajudou muito.   "}]