[{"jcr:title":"Observatório da Política assume o desafio de entender um mundo cada vez mais complexo","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas","cq:tags_1":"centro-de-conhecimento:centro-de-gest-o-e-pol-ticas-p-blicas","cq:tags_2":"tipos-de-conteudo:acontece-no-insper"},{"richText":"No lançamento da nova iniciativa do CGPP, professores do Insper e especialistas em políticas públicas debateram as oportunidades do Brasil diante da conjuntura política","authorDate":"10/11/2025 10h37","author":"Leandro Steiw","madeBy":"Por","tag":"centro-de-conhecimento:centro-de-gest-o-e-pol-ticas-p-blicas","title":"Observatório da Política assume o desafio de entender um mundo cada vez mais complexo","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"amarelo / preto / vermelho"},{"themeName":"amarelo / preto / vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"O Observatório da Política (Odap), do Centro de Gestão e Políticas Públicas ( [CGPP](https://www.insper.edu.br/pt/pesquisa/centro-de-gestao-e-politicas-publicas) ) do Insper, foi [lançado](https://www.youtube.com/live/dpmOT_pddmE) oficialmente no dia 31 de outubro, em programação paralela ao 2º Seminário de Pesquisa Sobre Emendas Parlamentares. O encontro reuniu Guilherme Martins (presidente do Insper), Vivian Satiro (coordenadora executiva do CGPP), Carlos Melo (coordenador acadêmico do Odap) e Milton Seligman (assessor institucional do CGPP). Eduardo Giannetti (ex-professor do Insper e membro da Academia Brasileira de Letras) e Priscila Cruz (cofundadora e presidente executiva da organização Todos Pela Educação) juntaram-se à mesa “Conjuntura Política”, mediada por Pedro Montes (cofundador do Odap). Na abertura do evento, Guilherme Martins disse que o Observatório consolida o trabalho do CGPP de combinar a discussão de gestão e política pública com a aplicação na ponta. As iniciativas do centro, que vão desde pesquisa científica e acadêmica aprofundada até cursos e educação executiva, conseguem dar instrumentos para os gestores aplicarem o conhecimento na política pública. “Não é trivial fazer isso com esse escopo de atividades”, afirmou Martins. Ele lembrou que a expansão do Insper, feita nos últimos anos, é também resultado do desejo de fornecer melhores respostas à sociedade para os problemas complexos do país. Vivian Satiro denominou o Observatório como um “presente” para o centro de conhecimento do Insper. Para ela, a necessidade de discutir política e ciência política sob o olhar acadêmico — mas convidando a sociedade a falar — ganhou mais nitidez com a realização do evento Café com Políticas, série de debates lançada em 2024 e, a partir de agora, integrada ao Odap. “Quanto mais perto vocês estiverem, melhores produções acadêmicas vamos entregar para a sociedade e mais subsídios daremos para os tomadores de decisão”, disse Vivian.   Por que criar um observatório da política Coordenador do Café com Políticas, o professor Carlos Melo explicou que a ação de observar permite compreender a realidade, fazer um diagnóstico e, a partir dele, sonhar e formular políticas públicas. Elencando uma sequência de fatos históricos que levaram o mundo ao atual momento de incertezas, ele contou como a mudança de uma economia baseada na terra para outra industrial contribuiu para a desorganização do mundo na virada do século 19 para o 20. O fascismo e o nazismo, intercalados por duas guerras mundiais, nasceram dessa desorganização e do desalento da população da época. A ordem mundial do pós-guerra deu certo até os anos 1970, e parou de funcionar com a ascensão do liberalismo econômico de Ronald Reagan (presidente dos Estados Unidos de 1981 a 1989) e Margareth Thatcher (primeira-ministra do Reino Unido de 1979 a 1990). Ainda nas palavras de Melo, é de Thatcher a sentença que define a política do período: a sociedade não existe; só existem os indivíduos e as suas famílias. Quase simultaneamente, iniciou-se uma nova transição tecnológica, deslocando milhões de pessoas daquilo que faziam para aquilo que precisavam fazer — mas que não conseguiam fazer. Esse contexto turbulento formata a conjuntura política e econômica atual, à qual o Observatório pretende dedicar a atenção. Melo explicou o desafio que o Odap tem pela frente. Um grupo do Observatório destinado a discutir o Brasil daqui a 10 anos chegou à conclusão de que, antes de pensar quais são as lideranças, precisa pensar qual será o futuro ao fim desse intervalo de tempo. Uma condição é que, como não é possível antecipar que mundo surgirá dessas transformações, muita gente começa a idealizar o passado, tal qual ocorreu no início do século 20. “Esse processo vai fazendo surgir governantes incidentais, que, incapazes de olhar para o futuro, tentam oferecer o passado. Não há liderança política para esse processo de transição. Os velhos estão agonizando, mas os novos não nasceram”, disse Melo. No entender do coordenador do Odap, esse cenário impede o Brasil de praticar a política com P maiúsculo. Segurança pública, um teste para a democracia brasileira Iniciando a sua participação no espaço da palestra magna, o professor Milton Seligman — segundo Melo, quem primeiro levantou a ideia da criação de um observatório da política no Insper — destacou a redação do artigo 144 da Constituição Federal de 1988: a segurança pública é dever do Estado e é direito e responsabilidade de todos. “Essa frase não foi posta lá para iluminar um artigo e tem alguma consequência quando colocada dessa maneira”, afirmou Seligman, que foi secretário executivo e ministro da Justiça de 1995 a 1997. Seligman comparou a complexidade dos problemas de segurança pública — relacionados a casos como a operação policial no Rio de Janeiro que deixou 117 pessoas mortas no dia 28 de outubro — aos desafios brasileiros na saúde e na educação. “Ainda não conseguimos construir a responsabilidade de todos na questão da segurança”, disse ele. “Não temos o mesmo esforço intelectual e acadêmico conjunto que temos na educação e na saúde, mesmo que tenha coisas muito interessantes na academia sobre segurança.” Acompanhando o exemplo de Seligman, não existe um indicador comum na área de segurança pública similar ao usado para medir a inflação, criado na época do Plano Real. São indicadores deste tipo que permitem à população acompanhar o resultado das políticas públicas. Na opinião do professor, a pergunta do momento é: a sociedade acredita que a entrada do crime organizado na economia formal é aceitável ou não? E na política e no judiciário? Muitos desses elos de corrupção e violência estão amarrados no livro “Decadência e Reconstrução” (escrito por Melo, Seligman e Malu Delgado), sobre a crise institucional do Espírito Santo na década de 1990. Parte da responsabilidade de um observatório da política é olhar atentamente a realidade, aprofundar essa análise em termos de pesquisa acadêmica, estimular o debate e possibilitar que todos os atores se expressem, disse Seligman. E complementou: “Não era diferente com a inflação, quando aquele grupo de pessoas que desenharam e depois implementaram o Plano Real — e isso é bem documentado — olhou de frente algo que parecia que não tinha solução e teve. Então, acredito que esse seja o desafio do Observatório”. Entre a hiperglobalização e a oportunidade brasileira Na mesa “Conjuntura Política”, Eduardo Giannetti saudou o surgimento do Odap como mais um campo de pesquisa para a área de humanas, que disse defender desde os seus anos de docência no Insper. Para ele, o Observatório deve olhar para o futuro perante a dinâmica que o mundo vem obedecendo nos últimos 40 anos — previamente narrada por Carlos Melo. O ciclo atual de crescimento de fluxos financeiros muito além da realidade das economias nacionais, no entanto, não é a primeira onda de globalização e pode ser comparada à da virada do século 19 para o 20, prosseguiu Giannetti. A hiperglobalização surgida no pós-guerra tem duas características marcantes: a China tornou-se um competidor produtivo, disciplinado e barato, e o espaço decisório de investimento das empresas deixou de ser o país e passou a ser o mundo. De acordo com Giannetti, o ciclo de hiperglobalização acabou com o mandato do presidente Donald Trump, que está levando os Estados Unidos de volta para o período pré-globalização por meio de uma lógica mercantilista. Soma-se a isso a provável bolha da inteligência artificial no mercado acionário norte-americano, o protecionismo econômico, a polarização e a tensão geopolítica. Esse desenho de mundo, enfim, desafia um observatório da política. “Nós estamos num interregno, e espero que não termine tão mal como terminou a primeira onda de globalização, mas está longe de ser possível descartar guerras”, afirmou o economista. A perspectiva positiva é que o Brasil — pouco integrado à hiperglobalização — tem uma enorme oportunidade de se beneficiar desse interregno e de um novo arranjo da economia mundial, no julgar de Giannetti. Há possibilidades nas três frentes que determinaram o sucesso de 12 nações que venceram a “armadilha da renda média” (país de renda mais baixa que cresce até uma renda média, mas estagna antes de atingir a renda alta, tipicamente o caso brasileiro): manufaturados (Coreia do Sul, Israel, Hong Kong, Taiwan e Singapura), serviços (Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda) e commodities (Austrália, Nova Zelândia e Noruega). “Acho que, quando o mundo complica, o Brasil se sai relativamente bem. E estamos muito defasados no lugar de direito, ou de potencial pelo menos, que nos cabe na ordem econômica mundial”, concluiu Giannetti. Educação entre avanços e vetores contrários Na mesa sobre conjuntura política, Priscila Cruz comentou a ideia equivocada de que a educação não está melhorando no Brasil. Os dados indicam que o país começou o século 20 com 30% das crianças alfabetizadas e, atualmente, tem 60%. As matrículas em educação integral mais do que dobraram. Tudo resultado de políticas públicas implementadas ao longo do tempo. Conforme a cofundadora do Todos Pela Educação, a iniciativa do Observatório se sobressai porque todos os avanços dependem não só de transparência e monitoramento de dados, mas também do acompanhamento do que se passa na cabeça dos tomadores de decisão. Avaliação da alfabetização, indicadores e metas em educação são ferramentas que, mesmo sob forte oposição duas décadas atrás, se transformaram em incentivos para a prestação de contas sobre educação para a sociedade, disse Priscila. Ela ressaltou a importância da formação dos professores da escola pública (80% das crianças e jovens brasileiros estão nessa rede) para preparar as novas gerações para o mundo complexo que os demais palestrantes desenharam. Para Priscila, independentemente do potencial do capital humano brasileiro, é preciso enfrentar “os vetores contrários” à aprendizagem e que ainda mexem com a saúde mental dos estudantes e professores: a inteligência artificial e seus impactos na cognição e no mercado do trabalho; as mudanças climáticas (as escolas fecham de sete a 12 dias por ano por causa de eventos extremos, quase 5% do ano letivo); a violência urbana; as greves de professores (cada vez em menor escala); e a desconcentração na sala de aula em decorrência do uso excessivo das telas (inclusive entre os alunos que aprendem). Priscila defendeu uma política que acolha alunos e educadores, baseada em escola em tempo integral e com aumento da carga horária de atividades de prática esportiva, educação artística, filosofia, sociologia e afins. “É pela prática esportiva, pela produção cultural e artística, pela conversa e pelo projeto social que a gente consegue formar os alunos nas dimensões cognitiva, social, emocional e física, que são as quatro dimensões do desenvolvimento”, disse Priscila. Ela pediu a ajuda do Odap para encontrar formas de mexer a decisão política na direção de mais esforços para a primeira infância e a formação de professores. No encerramento da programação, em resposta ao pedido de Priscila, Carlos Melo assumiu o compromisso de pensar, em conjunto com a equipe do Todos Pela Educação, um processo para reunir especialistas e discutir a “política da educação”. A partir de agora, o objetivo do Observatório é produzir textos, livros e vídeos e deixá-los disponíveis no site da escola. Afinal, argumentou Melo, a política tem que ser pensada do ponto de vista do ganha-ganha-ganha, beneficiando Estado, políticos e população. “A política pública tem pagado um preço muito alto porque está sendo conduzida pela política de uma forma muito ruim”, disse o coordenador do Odap."}]