[{"jcr:title":"Insper lança livro que avalia impacto do Pé-de-Meia e aponta caminhos para reduzir evasão no ensino médio","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas","cq:tags_1":"centro-de-conhecimento:centro-de-gest-o-e-pol-ticas-p-blicas"},{"richText":"Obra combina revisão internacional, modelagem estrutural e simulador para analisar como diferentes desenhos de programas de bolsa afetam a permanência dos jovens na escola","authorDate":"26/03/2026 11h55","madeBy":"Por","tag":"centro-de-conhecimento:centro-de-gest-o-e-pol-ticas-p-blicas","title":"Insper lança livro que avalia impacto do Pé-de-Meia e aponta caminhos para reduzir evasão no ensino médio","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"Reduzir a evasão no ensino médio exige mais do que ampliar o acesso à escola: é preciso entender por que tantos jovens deixam de estudar, quais barreiras pesam mais em cada contexto e em que medida políticas públicas conseguem alterar essas trajetórias. É dessa pergunta que parte  [Bolsas de Estudo e Evasão: Avaliação de Impacto Ex-Ante](https://repositorio.insper.edu.br/entities/publication/a5911b44-efb1-44c5-a34f-797e978361ac) , livro lançado pelo Insper em 13 de março e dedicado a examinar, com base em evidências, o potencial de programas de transferência de renda condicionados à frequência para enfrentar um dos principais gargalos da educação brasileira. Assinada por Ricardo Paes de Barros, Laura Muller Machado, Laura Almeida Ramos de Abreu e Samuel Franco, a obra reúne quatro anos de pesquisa e é acompanhada de um  [simulador](https://dataverse.datascience.insper.edu.br/dataset.xhtml?persistentId=doi:10.60873/FK2/AZN03I)  público que permite a gestores estimar o impacto de diferentes desenhos de bolsas em contextos específicos. A publicação nasceu de uma pergunta levada ao Centro de Evidências da Educação Integral (CEEI) do Insper pelo Instituto Natura e pelo Instituto Sonho Grande: qual é a capacidade, e em que condições, uma bolsa de estudos pode reduzir a evasão no Brasil? O CEEI é uma iniciativa do Núcleo de Política Educacional e Inclusão Produtiva (NPEIP), que integra o Centro de Gestão e Políticas Públicas (CGPP) do Insper. “O livro nasceu com uma pergunta do Instituto Natura e do Instituto Sonho Grande que muito nos instigou e inspirou, que foi qual é a capacidade, as condições que uma bolsa de estudos tem de reduzir a evasão no Brasil”, afirmou Laura Machado, coordenadora do NPEIP. A partir dessa pergunta, o trabalho avançou por diferentes frentes: revisão de evidências internacionais, discussões com a comunidade científica, diálogo com redes estaduais, apresentações ao Ministério da Educação e o desenvolvimento de uma ferramenta capaz de simular cenários antes da implementação de uma política. Na abertura institucional do evento, Maria Slemenson, superintendente do Instituto Natura Brasil, associou o tema ao debate sobre desenho de políticas públicas. “Não é qualquer jornada expandida que é boa para o estudante. Porque uma escola ruim, o dobro do tempo, é uma escola pior”, disse. Catherina Rigato, gerente de operações do Instituto Sonho Grande, destacou o peso econômico e social do problema: “O custo de evitar essa evasão é menos de 10% desse valor”, em referência ao custo social gerado pelo jovem que abandona a escola. Tania Haddad, presidente do Conselho Deliberativo do Insper, situou o livro dentro da missão institucional de aproximar pesquisa e problemas concretos do país: “A pesquisa acadêmica não deve nunca ser uma ilha apartada dos problemas reais encontrados pela população”. Evasão alta, desigual e ligada à vulnerabilidade A apresentação de Laura Abreu, coordenadora executiva do Núcleo de Política Educacional e Inclusão Produtiva do Insper, traçou o diagnóstico que sustenta o livro. Embora a educação básica seja obrigatória até os 17 anos, o Brasil ainda convive com uma taxa de evasão composta no ensino médio da ordem de 23%. Em outras palavras, aproximadamente um em cada quatro jovens que ingressam nessa etapa evade. Em termos anuais, isso representa cerca de 800 mil trajetórias escolares interrompidas. A pesquisadora chamou atenção para o caráter profundamente desigual do fenômeno. “A probabilidade de um jovem homem negro do estado de Roraima, que mora na área rural, cujos pais têm baixa escolaridade e vivem numa condição de pobreza, de não concluir a educação básica é de 77%”, afirmou. No extremo oposto, para uma jovem mulher, de família escolarizada, moradora de área urbana em São Paulo, esse risco cai para 9%. Segundo os dados mobilizados no estudo, o principal motivo declarado para a evasão continua sendo a necessidade de trabalhar ou assumir responsabilidades de cuidado. Ao mesmo tempo, cresce a relevância da falta de interesse ou da percepção de que a escola não oferece valor suficiente para o futuro do jovem. Ao comentar o quadro, Reynaldo Fernandes, professor titular da USP, destacou que a evasão não deve ser lida como uma decisão abrupta. “Evasão é o fim de um processo que os alunos vão se desvinculando ou desengajando da escola”, disse. Na sua leitura, programas como o Pé-de-Meia podem agir sobre alguns fatores de risco, mas não sobre todos. Por isso, reforçou a necessidade de consolidar no país uma cultura mais robusta de avaliação de políticas públicas: “A gente tem que lutar para que as avaliações sejam feitas, ex-ante, ex-post. O Brasil ainda tem uma cultura muito baixa de avaliar programas que fazem”. O que o livro conclui sobre o Pé-de-Meia Ricardo Paes de Barros, coordenador acadêmico do CGPP e professor titular da Cátedra Instituto Unibanco no Insper, apresentou o núcleo metodológico da obra: a avaliação ex-ante. Em vez de esperar os efeitos de uma política já implementada, a proposta é construir um modelo capaz de antecipar, com base em evidências e hipóteses comportamentais, qual seria seu impacto provável. “A única maneira de responder isso, ex-ante, é a gente pensar como o jovem pensa”, afirmou. A lógica do modelo parte da ideia de que a decisão de estudar ou deixar a escola é tomada por jovens concretos, em contextos concretos, levando em conta renda familiar, pressões por trabalho, território, qualidade percebida da escola e expectativas sobre o futuro. O objetivo do livro é representar esse processo decisório para permitir simulações mais precisas sobre o efeito de bolsas de estudo. Na apresentação dos resultados, Laura Machado mostrou que, no cenário-base adotado pelo estudo, o impacto médio estimado do Pé-de-Meia é uma redução de 6,3 pontos percentuais na evasão acumulada do ensino médio. “Como a evasão no conjunto do ensino médio é de 23%, o que a gente está dizendo é que em cada 4 jovens que iam evadir, um deles vai deixar de evadir graças ao Pé-de-Meia”, afirmou. Em termos práticos, isso significa que, entre os jovens que abandonariam a escola sem o programa, cerca de um quarto passa a concluir o ensino médio com o incentivo. O estudo mostra ainda que esse não é o único efeito: outro jovem não chega a concluir, mas posterga a evasão para uma série posterior, enquanto os dois restantes, em média, não alteram sua decisão. Essa é uma das contribuições centrais do estudo: mostrar que o Pé-de-Meia tem efeito positivo e expressivo, mas não resolve sozinho o problema. Como resumiu Laura Machado, “o Pé-de-Meia, sozinho, não é capaz de resolver o nosso problema da evasão. Ele contribui com a solução de um em cada quatro”. Outro resultado importante é que a relação custo-benefício do programa é positiva. Os benefícios sociais da permanência adicional na escola superam os custos da política. O livro, porém, não transforma isso em defesa automática de qualquer desenho possível de bolsa. Ao contrário, uma de suas conclusões é justamente que o impacto depende fortemente de como o programa é estruturado. A primeira implicação é que aumentos no valor total da bolsa tendem a produzir efeitos decrescentes: mais recursos podem ampliar resultados, mas em ritmo menor. A segunda é que a distribuição dos pagamentos ao longo do ensino médio faz diferença. Segundo os autores, concentrar parcela maior do benefício na terceira série tende a elevar o impacto sem necessariamente aumentar o valor total desembolsado. O estudo também mostra que o contexto importa. Quando o simulador considera situações em que o jovem não consegue compatibilizar estudo e trabalho, o impacto estimado da bolsa diminui. Isso sugere que, em modelos educacionais com menor possibilidade de geração de renda paralela, o incentivo financeiro precisa ser maior para produzir efeito equivalente. Em outras palavras, o livro não discute apenas se a bolsa funciona, mas em que condições ela funciona melhor. Os resultados variam também conforme o território. O impacto do Pé-de-Meia é maior em estados e contextos em que há maior concentração de jovens vulneráveis, como Ceará, Bahia, Pernambuco, Maranhão, Alagoas e Amazonas. O ponto relevante, segundo a pesquisa, é que a focalização importa: o efeito tende a ser maior onde a evasão está mais associada a condições que a política consegue afetar. Outra conclusão com implicações imediatas para o debate federativo diz respeito à baixa complementariedade entre o programa federal e bolsas estaduais já existentes em alguns lugares. A avaliação sugere que, quando há sobreposição entre programas de desenho semelhante, os ganhos adicionais são pequenos. Nesses casos, a alternativa mais promissora seria redesenhar iniciativas locais para funções complementares, como apoio à transição para o ensino superior, mentorias individualizadas ou outros tipos de incentivo. Vitor Pereira, professor do Instituto de Economia da UFRJ, elogiou o uso da economia estrutural diretamente orientada à política pública e observou que esse tipo de esforço ainda é raro. Também sugeriu que avaliações futuras considerem não só evasão e conclusão, mas efeitos posteriores sobre decisões de vida dos jovens, como inserção no mercado de trabalho. Na mesa de comentários, Cecília Machado, professora da PUC-Rio, reforçou que a relevância da avaliação ex-ante não elimina a necessidade de avaliação ex-post. Seu argumento foi que desenho importa, mas implementação também. Por isso, defendeu maior transparência em relação a orçamento, beneficiários e dados administrativos, de modo a permitir avaliações futuras rigorosas. A mesa final reuniu a deputada federal Tabata Amaral, autora do projeto que deu origem ao Pé-de-Meia, e Marisa de Santana da Costa, diretora de Incentivo a Estudantes da Educação Básica do MEC, representando a secretária de Educação Básica, Katia Schweickardt. A conversa foi mediada por Yuri Oliveira, coordenador de políticas públicas do Instituto Natura Brasil. Tabata relatou bastidores da tramitação e lembrou que a proposta inicialmente pensada para operar junto ao Bolsa Família acabou sendo deslocada para o MEC por razões políticas. Também contou que o componente de poupança quase foi retirado do desenho ao longo da negociação. Ao defender a política, recorreu a uma crítica frequente que, segundo ela, ignora as desigualdades de origem: “A crítica que mais ouço até hoje é: na minha época, ninguém me pagou. E aí você começa: senta aqui. Quem limpava a sua roupa? Quem pagava o seu transporte? Você tinha o que comer?”. Ao mesmo tempo, afirmou ser contrária à universalização do programa e defendeu que os próximos passos incluam mentoria, ensino técnico e escola em tempo integral. Representando o MEC, Marisa Costa destacou o caráter educacional e intersetorial do Pé-de-Meia. “Nós temos que entender que o Pé-de-Meia foi configurado como um programa educacional com objetivos educacionais”, afirmou. Segundo ela, a lógica de implementação do programa é intersetorial e exige articulação com outras ações de permanência escolar. Mais do que medir os efeitos do Pé-de-Meia, o debate deixou claro que enfrentar a evasão exige combinar incentivo financeiro, desenho cuidadoso de política pública e capacidade de avaliação. Uma das contribuições centrais do livro é mostrar que programas de bolsa podem fazer diferença, mas seus resultados dependem de como são estruturados e de como se articulam com outras estratégias de permanência escolar.  "},{"jcr:title":"Samuel Franco, Laura Abreu, Ricardo Paes de Barros, Laura Muller Machado, Marisa de Santana da Costa, Tabata Amaral e Yuri Oliveira","fileName":"Lançamento livro_Bolsas de estudo e evasão.jpg","alt":"Samuel Franco, Laura Abreu, Ricardo Paes de Barros, Laura Muller Machado, Marisa de Santana da Costa, Tabata Amaral e Yuri Oliveira"},{"fileName":"Livro_Bolsas de estudo e evasão .jpg","alt":"Livro "Bolsas de Estudo e Evasão""}]