[{"jcr:title":"Estreitos marítimos viram armas da nova geopolítica","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas","cq:tags_1":"centro-de-conhecimento:centro-de-gest-o-e-pol-ticas-p-blicas","cq:tags_2":"tipos-de-conteudo:acontece-no-insper"},{"richText":"Em episódio do Café com Políticas mediado por Carlos Melo, os convidados Marcos Jank e Denilde Holzhacker analisam como rotas estratégicas, commodities e disputas entre potências afetam o Brasil","authorDate":"21/07/2026 11h34","madeBy":"Por","tag":"centro-de-conhecimento:centro-de-gest-o-e-pol-ticas-p-blicas","title":"Estreitos marítimos viram armas da nova geopolítica","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"O comércio global depende de um conjunto restrito de rotas estratégicas, os chamados “estreitos”, por onde circulam mercadorias, energia e insumos essenciais. No episódio 22 do  [Café com Políticas](https://open.spotify.com/show/0wzSkAN9CH7Giv1vXNjUCk) , série de podcasts do Insper, o professor Carlos Melo recebeu Marcos Jank, professor sênior e coordenador do Insper Agro Global, e Denilde Holzhacker, diretora acadêmica da ESPM e docente de Relações Internacionais, para discutir como esses pontos de passagem se tornaram centrais na nova geopolítica. Na abertura, Melo, coordenador do  [Observatório da Política](https://www.insper.edu.br/pt/pesquisa/centro-de-gestao-e-politicas-publicas/observatorio-da-politica)  do Insper, destacou que o objetivo da série — uma iniciativa do observatório, vinculado ao  [Centro de Gestão de Políticas Públicas (CGPP)](https://www.insper.edu.br/pt/pesquisa/centro-de-gestao-e-politicas-publicas)  — é aproximar o debate acadêmico de temas imediatos da política nacional e internacional. Para ele, os estreitos deixaram de ser apenas corredores comerciais e passaram a ocupar lugar decisivo nos conflitos contemporâneos. “Esses estreitos se transformaram numa arma. Uma arma, se não letal do ponto de vista das vidas das pessoas, letal do ponto de vista do comércio internacional”, afirmou. O moderador também situou o tema entre os grandes desafios das próximas décadas, ao lado da transição energética e da inteligência artificial. Commodities no centro da nova geopolítica Jank abriu sua exposição afirmando que o mundo mudou radicalmente depois de 2020, com a pandemia, a guerra entre Rússia e Ucrânia, os conflitos no Oriente Médio e a disputa entre Estados Unidos e China. Em sua avaliação, esse novo cenário marca uma espécie de “renascimento das commodities”, porque as disputas internacionais passam cada vez mais por alimentos, energia, minerais e insumos estratégicos. “Hoje é a fragmentação”, disse. “Em vez de livre comércio, estamos vendo discursos de protecionismo e de soberania. Em vez de interdependência, a palavra é segurança.” Ao tratar dos pontos de estrangulamento do comércio marítimo, Jank destacou o Estreito de Ormuz, Bab el-Mandeb, o Canal de Suez e o Estreito de Malaca. Ormuz, lembrou, concentra fluxo relevante de petróleo, gás natural e fertilizantes. Malaca, por sua vez, é essencial para a China e para o comércio entre Ásia e Ocidente. Jank chamou atenção para a dimensão reduzida de Ormuz e para o impacto global que uma eventual interrupção nesse ponto poderia causar: um trecho de cerca de 50 quilômetros de água é suficiente para afetar cadeias inteiras de energia e insumos agrícolas. Sobre Malaca, observou que o corredor recebe cerca de 100 mil navios por ano e é passagem de produtos brasileiros destinados à China. Para Jank, a posição brasileira nesse cenário é ambígua. O país tem força em produtos agroalimentares, fibras, celulose, petróleo e minério de ferro, mas mantém vulnerabilidades relevantes, especialmente em fertilizantes, derivados de petróleo, gás natural e logística. Ele rejeitou a ideia de que uma pauta baseada em commodities seja atrasada. “Não é primária, porque, para chegar a qualquer uma dessas commodities, tem que ter muita indústria, muitos serviços, muita tecnologia”, disse. Ao mesmo tempo, alertou para a falta de planejamento de longo prazo: “Você não vai construir uma indústria de fertilizante dentro do prazo de um governo.” Infraestrutura, poder e os dilemas do Brasil Denilde Holzhacker ampliou a discussão ao relacionar os estreitos à lógica estratégica dos conflitos. Para ela, a guerra no Irã tornou mais visível um processo que já aparecia na pandemia e na guerra entre Rússia e Ucrânia: a capacidade de disrupção das cadeias globais de suprimentos. “Os estreitos passaram a ser armas para lidar com as vulnerabilidades”, afirmou. No caso iraniano, segundo ela, controlar Ormuz foi entendido como forma de ampliar a capacidade de barganha e pressão sobre os Estados Unidos. A professora também chamou atenção para a estratégia chinesa de ampliar influência sobre infraestrutura comercial, portos e rotas logísticas. “Quem detém infraestrutura de comércio tem também capacidade maior de controle do acesso”, disse. Denilde observou ainda que a China fortaleceu sua capacidade naval, enquanto os Estados Unidos mantêm uma diferença importante: a presença de bases em diferentes oceanos. A disputa no Indo-Pacífico, nesse contexto, envolve não apenas Taiwan, mas também Malaca e outras passagens centrais para Japão, Coreia e China. Ao projetar cenários, Denilde apontou três possibilidades: uma ordem bipolar entre Estados Unidos e China, com algum grau de dissuasão; uma ordem multipolar fragmentada, mais instável; e uma reorganização baseada em regras e cooperação, hoje mais distante. Para países médios como o Brasil, o dilema será definir interesses em meio à pressão das grandes potências. “A nossa opção estratégica com relação à China, nessa disputa entre China e Estados Unidos, vai em algum momento se colocar”, afirmou. Na etapa final, Carlos Melo provocou os convidados sobre a diferença entre governo e Estado. Para ele, o Brasil tem tido governos, mas perdeu capacidade de formular uma visão estratégica perene. O moderador associou esse problema à crise das elites políticas, empresariais, acadêmicas e burocráticas. “Sem elites e com patrimonialismo, você pode escolher qualquer um, não vai dar certo”, afirmou, ao comentar os limites de mudanças institucionais como parlamentarismo ou semipresidencialismo. No encerramento, Jank defendeu que análises internacionais e nacionais precisam caminhar juntas, pois política externa, política comercial, geopolítica e geoeconomia estão cada vez mais imbricadas na vida brasileira. Denilde reforçou que o Brasil tem oportunidades e ainda dispõe de  soft power  para propor alternativas ao mundo, mas precisa enfrentar problemas internos persistentes. Melo concluiu sugerindo maior aproximação entre o Insper Agro Global e o Observatório da Política: “Não acho que seremos um farol, mas pelo menos podemos ser um vagalume capaz de começar a ter highlights importantes para o mundo.”"},{"jcr:title":"Carlos Melo, Denilde Holzhacker e Marcos Jank","fileName":"Carlos Melo, Denilde Holzhacker e Marcos Jank.jpeg","alt":"Carlos Melo, Denilde Holzhacker e Marcos Jank"}]