[{"jcr:title":"Entre caricatura e realidade, o que o debate sobre os evangélicos ainda não vê","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas","cq:tags_1":"centro-de-conhecimento:centro-de-gest-o-e-pol-ticas-p-blicas","cq:tags_2":"tipos-de-conteudo:acontece-no-insper"},{"richText":"Café com Políticas do Insper reuniu Juliano Spyer e Deborah Bizarria para discutir um fenômeno central — e frequentemente simplificado — da vida social e política brasileira","authorDate":"10/04/2026 18h33","madeBy":"Por","tag":"centro-de-conhecimento:centro-de-gest-o-e-pol-ticas-p-blicas","title":"Entre caricatura e realidade, o que o debate sobre os evangélicos ainda não vê","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"Na noite de 31 de março, o Café com Políticas, promovido pelo  [Observatório da Política](https://www.insper.edu.br/pt/pesquisa/centro-de-gestao-e-politicas-publicas/observatorio-da-politica) , vinculado ao Centro de Gestão e Políticas Públicas ( [CGPP](https://www.insper.edu.br/pt/pesquisa/centro-de-gestao-e-politicas-publicas) ) do Insper, colocou em discussão um dos temas mais presentes — e mal compreendidos — do debate público brasileiro: os evangélicos. Na abertura do encontro, o cientista político e professor Carlos Melo, coordenador do Observatório, sintetizou o desafio: “É um tema muito complicado e complexo, não apenas pela natureza do próprio objeto, mas também pela ignorância que ainda o cerca e pela forma, às vezes até leviana, como tem sido tratado no debate sobre política, costumes e religião”. Os convidados da noite foram o antropólogo e historiador Juliano Spyer, autor de Crentes e Povo de Deus, e a economista Deborah Bizarria, colunista da Folha de S.Paulo e especialista em gestão pública. Ao longo da conversa, os dois insistiram em um ponto central: falar sobre os evangélicos exige abandonar caricaturas e reconhecer a complexidade social, religiosa e política desse universo. Olhar de perto Juliano Spyer começou pela própria trajetória de pesquisa. Ele explicou que não foi ao interior da periferia de Salvador para estudar religião, mas mídias sociais. Foi nessa experiência de campo, entre 2013 e 2014, convivendo durante dezoito meses em um bairro popular situado a cerca de cem quilômetros do centro da capital baiana, que a presença evangélica se impôs como tema incontornável. Como destacou, observar esse fenômeno “de perto e de dentro” foi decisivo para desmontar preconceitos e perceber a distância entre a vida concreta dessas comunidades e a forma como elas costumam ser retratadas nos círculos mais escolarizados. Dessa imersão, Juliano extraiu o que chamou de “três milagres sociológicos”. O primeiro foi perceber como a conversão religiosa podia funcionar, em muitos casos, como freio à violência doméstica associada ao alcoolismo. O segundo foi reconhecer na dinâmica da igreja algo próximo de uma prática de alfabetização e formação: pessoas com a Bíblia aberta, lendo, repetindo, acompanhando passagens, aprendendo juntas. O terceiro foi constatar que, para parte dos homens daquele contexto, a igreja também aparecia como alternativa concreta à trajetória do crime e da morte violenta. Ao mesmo tempo, Juliano chamou atenção para um erro recorrente do debate público: tomar grandes igrejas midiáticas como sinônimo do campo evangélico. Segundo ele, a realidade brasileira é muito mais fragmentada. Grande parte dos fiéis frequenta igrejas pequenas, dispersas pelas periferias, muitas vezes sem marca nacional ou visibilidade pública. São as chamadas igrejas “de porta de garagem”, que ajudam a explicar a capilaridade do fenômeno e sua dificuldade de enquadramento em definições simplistas. Fé, comunidade e política Se Juliano falou a partir da etnografia, Deborah Bizarria trouxe a experiência de quem conhece o universo evangélico por dentro e também o observa com lentes analíticas. Evangélica, com passagem por diferentes denominações ao longo da vida, ela ressaltou que uma parte da incompreensão sobre esse grupo decorre da distância social entre os ambientes formadores da opinião pública e o cotidiano dos crentes. “Eu sou a única amiga crente de várias pessoas”, afirmou, ao comentar o quanto elites políticas, intelectuais e econômicas muitas vezes falam sobre evangélicos sem conviver com eles. Deborah insistiu que a diversidade interna do campo evangélico não é detalhe, mas ponto de partida. Há disputas intensas sobre doutrina, liturgia, costumes e autoridade religiosa. Ainda assim, observou, esse grupo apresentou comportamento eleitoral relativamente homogêneo nas últimas eleições. O desafio, segundo ela, está justamente em entender como diferenças teológicas tão marcantes convivem com alinhamentos políticos mais concentrados. Para Deborah, parte dessa convergência tem caráter reativo. Em muitos casos, o voto não se organiza em torno de um projeto político claro e positivo, mas do sentimento de ameaça a valores considerados fundamentais, sobretudo no âmbito da família, da educação dos filhos e da preservação moral da vida cotidiana. Mais do que um programa detalhado de país, o que aparece com frequência é o desejo de barrar forças percebidas como hostis. Ao longo do debate, Deborah também destacou que a igreja cumpre funções que vão muito além da esfera espiritual. É espaço de sociabilidade, confiança e circulação de apoio prático. Pode ajudar a organizar casamentos, oferecer referências profissionais, conectar pessoas a oportunidades de trabalho, articular redes de cuidado e fortalecer vínculos comunitários. Em contextos marcados por precariedade e informalidade, esse tipo de presença pesa. Ao mesmo tempo, ela fez questão de não romantizar o fenômeno, lembrando que as contradições também fazem parte desse universo. A discussão ganhou nova densidade quando o público trouxe perguntas sobre a crescente presença evangélica na política institucional, nas universidades e em movimentos organizados. Juliano recorreu a uma imagem ouvida, segundo ele, de uma liderança evangélica: se antes o segmento vivia uma “infância” política, agora atravessaria uma “adolescência”, com experimentações, excessos, conflitos e disputas próprias de quem chegou mais recentemente aos espaços de poder. Deborah, por sua vez, disse considerar legítima a participação política dos evangélicos, mas avaliou que parte desse engajamento tem se concentrado demais na chamada guerra cultural e de menos na ideia de serviço público. Em sua leitura, falta maturidade a uma atuação que, em vez de apenas defender identidades ou travar disputas simbólicas, seja capaz de produzir benefícios concretos para a sociedade como um todo. Sua mensagem final aos jovens cristãos presentes foi direta: pensar menos em inimigos e mais em formas de contribuição ao bem comum. No encerramento, Carlos Melo observou que o debate ajudou a retirar o tema do senso comum. Mais do que oferecer respostas fechadas, a conversa mostrou que compreender os evangélicos no Brasil exige atenção à vida cotidiana, às redes comunitárias, às dinâmicas de pertencimento, às ambiguidades da participação política e à diversidade real de experiências reunidas sob um mesmo rótulo. Num cenário em que generalizações apressadas seguem dominando boa parte da discussão pública, esse talvez tenha sido o principal mérito do encontro."},{"jcr:title":"Carlos Melo, Deborah Bizarria e Juliano Spyer","alt":"Carlos Melo, Deborah Bizarria e Juliano Spyer"}]