[{"jcr:title":"Da ovelha Dolly às terapias de RNA, uma trajetória movida pela curiosidade científica","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/saúde","cq:tags_2":"centro-de-conhecimento:centro-de-gest-o-e-pol-ticas-p-blicas","cq:tags_3":"docentes:"},{"richText":"Professor Paulo Amaral relata sua jornada desde o interior de Goiás até os laboratórios de ponta do mundo","authorDate":"23/07/2025 12h31","madeBy":"Por","tag":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/saúde","title":"Da ovelha Dolly às terapias de RNA, uma trajetória movida pela curiosidade científica","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"A clonagem da ovelha Dolly em 1996 mudou o rumo da vida de  [Paulo Amaral](https://www.insper.edu.br/pt/docentes/paulo-de-paiva-rosa-amaral) , então um jovem estudante do interior de Goiás que colecionava insetos e sonhava em ser cientista. Essa foi a primeira inspiração científica em biologia que o levou a dedicar mais de duas décadas ao estudo de uma região do DNA humano que era considerada “lixo genético” — os 98% do nosso código genético que não produzem proteínas. Hoje, essa mesma região que intrigou o menino curioso se tornou uma das fronteiras mais promissoras da medicina moderna, com aplicações que vão desde terapias de RNA contra doenças raras até tratamentos personalizados contra o câncer.   A trajetória acadêmica internacional que o levou da Universidade de Brasília aos laboratórios de Cambridge, passando pela Austrália, é marcada por uma característica singular: a capacidade de transformar curiosidade científica em descobertas tanto em ciência básica como naquelas com impacto mais imediato na sociedade. Durante seus anos na Inglaterra, não apenas conduziu pesquisas pioneiras sobre RNAs não codificadores e epigenética, mas também cofundou empresas de biotecnologia e contribuiu para o desenvolvimento de medicamentos que hoje estão em ensaios clínicos. Sua colaboração com John Mattick, o cientista australiano que foi seu ídolo na juventude e se tornou coautor de seu livro, exemplifica como a persistência científica pode transformar sonhos em realidade.   No Insper desde 2021, Paulo Amaral atua como professor assistente na área de Bioengenharia e é um dos coordenadores do Núcleo de Saúde da escola. Sua pesquisa atual combina biologia molecular com bioengenharia, envolvendo análises de biologia computacional e genômica, desenvolvimento de técnicas analíticas para biomoléculas e na aplicação de RNAs como agentes terapêuticos — uma área que considera a missão de sua vida e que promete revolucionar a medicina nas próximas décadas.   A seguir, o professor relata sua trajetória.       Infância e primeiras inspirações   Nasci em Brasília, mas cresci em Luziânia, no interior de Goiás. Essa experiência no interior foi fundamental para moldar minha paixão pela ciência. Tendo muito contato com a natureza — sempre em fazendas, na beira de rios —, desenvolvi desde cedo uma fascinação pelo mundo natural. Já criança, tinha uma coleção de insetos, cobras, escorpiões e aracnídeos, sempre curioso para entender como funcionavam esses organismos.   Minha mãe, Dóris, professora de matemática, foi uma influência determinante. Ela sempre estimulou a parte educacional em casa e mantinha assinaturas de revistas como  Superinteressante  e  Ciência Hoje . Foi por meio dessas publicações que desenvolvi o sonho de ser cientista. Meu pai, Walter, que era advogado e professor de direito, faleceu quando eu tinha apenas 3 anos, mas deixou uma biblioteca que também influenciou minha formação intelectual.     A ovelha Dolly e a escolha da Biologia   Durante o ensino médio, já de volta a Brasília, tive minha primeira experiência  quasi -científica: um projeto de Despertar para a Ciência voltado para alunos do ensino médio — no meu caso, em astrofísica sobre as teorias da relatividade geral e restrita de Einstein. Participei também de atividades de uma academia de matemática na Universidade de Brasília, onde me encantei com o ambiente universitário. Nessa época, ainda tinha dúvidas entre biologia, química ou física, mas um acontecimento definiu meu futuro.   Em 1997, quando estava decidindo minha carreira, li numa daquelas revistas que minha mãe assinava sobre a clonagem da ovelha Dolly — o primeiro mamífero clonado. Aquilo me impressionou profundamente: se era possível fazer uma cópia de um organismo inteiro a partir de um núcleo de uma única célula, vi um futuro muito promissor para a biologia. Não me restou dúvida — eu seria biólogo.       Graduação na UnB e o mundo dos vírus   Entrei na Universidade de Brasília para cursar Ciências Biológicas em 2000 e, logo no primeiro semestre, tive aula de biologia celular, e a parte de virologia me fascinou. Já no final do primeiro semestre comecei minha iniciação científica, trabalhando com vírus de plantas no laboratório do professor Renato Resende e Tatsuya Nagata, que permanecem até hoje na UnB.   Essa experiência se estendeu por três anos, durante os quais recebi bolsas do PIBIC e do PIBIT (CNPq), trabalhando também na Embrapa Cenargen, em Brasília. Concluí a graduação em 2003. Foi um período de intensa exposição a técnicas avançadas de biologia molecular, onde aprendi a caracterizar genomas e entender como o DNA é expresso — conhecimentos que se tornariam fundamentais para minha carreira.   Curiosamente, por não ter decidido ainda onde faria pós-graduação, prestei vestibular novamente e passei para Química na própria UnB, cursando mais de um semestre enquanto trabalhava na Embrapa. Essa experiência multidisciplinar foi valiosa, mas um novo rumo estava por vir.       O mistério dos 98%: uma nova obsessão   Durante a graduação, aconteceu algo que mudaria completamente meu futuro. O genoma humano foi finalmente publicado em 2001, e descobriu-se que entendíamos apenas sobre a região que corresponde a cerca de 2% do nosso DNA — a parte que codifica proteínas. Fiquei extremamente intrigado: o que fariam os outros 98%?   Numa dessas revistas científicas que lia, encontrei uma matéria sobre um cientista australiano chamado John Mattick, pioneiro em tentar explicar a função dessa parte “misteriosa” do DNA. Naquele momento, soube que queria trabalhar com isso. Curiosamente, esse pesquisador se tornaria, anos depois, meu orientador de doutorado e coautor do meu primeiro livro.       Mestrado e a descoberta dos RNAs não codificadores   Decidindo buscar formação em diferentes instituições, vim para a USP fazer mestrado em Bioquímica entre 2004 e 2006. Fiz dois cursos de verão na USP de Ribeirão Preto e aproveitei para visitar laboratórios em São Paulo. Foi uma coincidência extraordinária: encontrei um laboratório que, procurando marcadores para câncer de próstata, havia descoberto por acidente que uma proporção significativa das moléculas de RNA transcritas vinha de regiões do DNA consideradas não codificadora.   Imediatamente perguntei se poderia fazer um projeto sobre isso. Consegui bolsa do CNPq e escrevi um projeto para entender como essa região não codificadora é expressa. Minha orientadora foi Aline Maria da Silva, e o título da dissertação foi “Estudo da Biossíntese e Regulação de RNAs Não-Codificadores Intrônicos em Células Humanas”. Foi assim que iniciei minha jornada no estudo dos RNAs não codificadores, uma área que se tornaria central em minha carreira.   Na primeira semana do mestrado, escrevi para John Mattick, o pesquisador australiano, manifestando interesse em fazer doutorado com ele. Era uma aposta arriscada, pois ninguém sabia se essa área seria relevante. Na época, a discussão ainda era se esses 98% do DNA eram “lixo genético” sem função.       Doutorado na Austrália   Terminando o mestrado na USP em 2006, encontrei John Mattick em um congresso nos Estados Unidos e fechei que faria doutorado com ele na University of Queensland, na Austrália, iniciando em 2007. Foram quatro anos transformadores, concluindo em 2011, incluindo seis meses em Cambridge.   Na Austrália, fizemos parte dos poucos grupos que mostraram que o DNA não codificador é fonte de muitos RNAs — moléculas que hoje são famosas por causa das vacinas de RNA mensageiro da covid-19 — e demonstramos que sua produção biológica é altamente controlada durante o desenvolvimento embrionário. Enquanto o RNA mensageiro vem dos 2% que fazem proteínas, descobrimos que grande parte dos RNAs vem do restante do DNA. Estes foram inicialmente chamados de “RNA lixo”, mas minha missão era testar se tinham função relevante.   Trabalhei com tecnologias de ponta: células-tronco embrionárias, engenharia de tecidos, sequenciamento genômico. O grupo era muito internacional — pessoas da Rússia, Irã, China, Índia —, o que proporcionou uma experiência multicultural rica.     Pesquisas na Inglaterra   Após o doutorado, mudei-me para Cambridge, onde passei de 2011 a 2018 como pesquisador pós-doutorando no Gurdon Institute da University of Cambridge (que tem esse nome em homenagem ao ganhador do prêmio Nobel Sir John Gurdon, o primeiro pesquisador a clonar um organismo vertebrado — no caso um sapo, em 1958, com a técnica que levou à clonagem da Dolly décadas após — e que ainda trabalhava no instituto.) Em 2020, ainda passei um período como pesquisador independente no Milner Therapeutics Institute, com financiamento pela Universidade de Cambridge. A transição foi significativa: de estudante a pesquisador com meu próprio laboratório. Meu foco mudou de “quem são e onde estão esses RNAs” para “o que eles fazem”.   Comecei a trabalhar com epigenética — o que regula como nosso DNA funciona, uma informação “acima” da sequência genética. Descobrimos que os RNAs controlam qual gene está ligado ou desligado em cada momento, em cada célula. Trabalhei com alguns dos maiores cientistas da área, incluindo meu orientador de pós-doutorado, Tony Kouzarides, que posteriormente se tornou  Sir  (cavaleiro da coroa britânica) pelas contribuições ao entendimento do câncer.   Durante esse período, também tive experiência empresarial em biotecnologia e treinamento em empreendedorismo. Cofundei a Pentail Enzymes (posteriormente JANA Bio), voltada para medicina de precisão, e trabalhei como pesquisador e consultor na Storm Therapeutics, desenvolvendo medicamentos contra o câncer — um dos medicamentos em que trabalhei está agora em fase 2 de ensaios clínicos, que avaliam a eficácia e segurança do medicamento em grupos mais amplos de paciente. Também fui professor visitante em universidades como Campus Bio-Medico University of Rome, Humanitas University Medical School de Milão, Karolinska Institutet e Uppsala University na Suécia.       O retorno ao Brasil e novos desafios   A pandemia mudou tudo. Meu laboratório foi fechado, fiquei isolado durante o lockdown severo na Inglaterra, trabalhando como voluntário em testes de covid-19 para o governo britânico. Esse período me fez repensar minha vida. Sempre quis voltar ao Brasil e fiquei sabendo de uma oportunidade por meio de um colega e colaborador, Helder Nakaya, pesquisador da USP e do Hospital Israelita Albert Einstein.   O Insper estava desenvolvendo a área de bioengenharia e, após várias reuniões com Irineu Gianesi, então diretor acadêmico, Marcos Lisboa, na época presidente da escola, e professores da engenharia, fui convencido de que o projeto fazia muito sentido, já que é uma área extremamente promissora, que apresenta oportunidades na ponta do desenvolvimento científico, e na qual o Brasil é bastante carente. O que me impressionou foi a capacidade do Insper de implementar ideias novas rapidamente — como havia acontecido com a própria Engenharia.   Cheguei ao Insper em julho de 2021, trazendo minha experiência em biotecnologia e bioengenharia com engenharia de tecidos e desenvolvimento de tecnologias e técnicas diagnósticas para ajudar a construir essa nova área.       Atividades atuais no Insper   Hoje atuo em duas frentes principais: ensino e pesquisa. Na trilha de Bioengenharia, dou disciplinas para alunos de Engenharia interessados na aplicação desse campo às áreas médicas, agricultura e industrial, como bioprodução. Também leciono disciplina em Inovação e Biotecnologia para alunos intercambistas (disciplina em inglês), Metodologia Científica para todos os cursos, e lecionei no módulo de inovação para o MBA Executivo em Saúde.   Fiz a ponte para a criação do  [Consórcio de Inovação em Saúde](https://www.insper.edu.br/pt/noticias/2023/2/insper--hospital-das-clinicas-da-fmusp-e-hospital-alemao-oswaldo) , que envolve Insper, Hospital das Clínicas e Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Recentemente, tornei-me coordenador do  [Núcleo de Saúde](https://www.insper.edu.br/pt/pesquisa/centro-de-gestao-e-politicas-publicas/nucleo-de-saude)  do Insper, ao lado da professora Isabela Brandão Furtado. Esse núcleo, ligado ao Centro de Gestão e Políticas Públicas ( [CGPP](https://www.insper.edu.br/pt/pesquisa/centro-de-gestao-e-politicas-publicas) ), reúne pesquisadores de várias áreas interessados em aplicar pesquisa na área de saúde.   Um exemplo de projeto atual é a avaliação de operações remotas de tomografia e ressonância magnética — permitindo que um especialista opere equipamentos a distância, reduzindo a necessidade de especialistas em todos os hospitais. Essa iniciativa levou a um projeto envolvendo pesquisadoras do Núcleo de Saúde e financiado pela FAPESP, com liderança da professora Carolina Pedrosa Gomes de Melo. Entre outros aspectos, o grupo avalia o custo-benefício e como isso poderia ser expandido para o SUS.   Mantenho minha pesquisa principalmente por meio de colaborações internacionais, colaboração com grupos nacionais como a Fiocruz, orientando alunos de doutorado na USP, UFMG e em outros países, como Chile. Combino pesquisa computacional (bioinformática) com implementação em laboratório “molhado” ( wet lab ), focando na função dos RNAs em áreas aplicadas como imunologia e respostas a infecções virais e vacinas.       O livro: um sonho realizado   Um dos projetos mais gratificantes em minha trajetória foi a publicação do  [livro](https://www.insper.edu.br/pt/noticias/2023/6/livro-de-professor-do-insper-sobre-rna-ganha-tres-premios-intern)   RNA, the Epicenter of Genetic Information , que escrevi com John Mattick, meu antigo orientador. Durante o doutorado, escrevi um apêndice histórico sobre a área que ficou maior que a própria tese. Continuei trabalhando nesse material por anos.   Quando Mattick se mudou para a Inglaterra como diretor executivo da Genomics England (maior empresa de genômica do mundo), voltamos a nos encontrar regularmente. Ele se entusiasmou com o livro e se ofereceu para colaborar. Após seu retorno, trabalhávamos praticamente 24 horas por dia devido à diferença de fuso horário — eu durante o dia no Brasil, ele durante o dia na Austrália.   O livro foi um sucesso: agora já com mais de 70 citações acadêmicas, a versão digital teve mais de 150 mil downloads já nos primeiros três meses, vários prêmios, e o fizemos  open access  para disponibilizar ao mundo todo.        Projetos futuros: expandindo horizontes   Tenho vários sonhos para os próximos anos. Primeiro, continuar ajudando a expandir a bioengenharia no Insper e a integrar com outros professores e áreas da escola, desenvolvendo pesquisas e auxiliando na integração de projetos de bioengenharia nos laboratórios atuais e novos, trazendo mais financiamento e estudantes. Segundo, focar em pesquisa aplicada, especialmente diagnóstico molecular com novos métodos de bioinformática, genômica e medicina de precisão — áreas de crescente relevância nacional e nas quais o Insper tem grande potencial com a integração de diversas áreas, incluindo as Engenharias e Ciências de Dados e da Computação.   Outra linha promissora é promover RNAs como agentes terapêuticos. O mundo está acordando para isso, e o Brasil tem potencial — os institutos Butantan e Bio-Manguinhos já começaram a trabalham com vacinas de RNA. Quero fazer parte desse movimento. Já atuo como conselheiro da MirScience, uma startup paulista originada na USP que desenvolve medicamentos de RNA.   Planejo também contribuir com o fortalecimento da pesquisa no Insper — incluindo nos Núcleos e Centros de Pesquisa —, expandir as colaborações nacionais e internacionais e escrever um livro-texto sobre RNA, mais básico que o atual, em inglês e português. Para mim, RNA é a missão da vida — uma molécula que saiu da obscuridade para se tornar fundamental em diagnósticos e terapias.  "}]