[{"jcr:title":"Como uma organização da sociedade civil pode crescer sem perder de vista a missão","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas","cq:tags_1":"centro-de-conhecimento:centro-de-gest-o-e-pol-ticas-p-blicas","cq:tags_2":"tipos-de-conteudo:acontece-no-insper/pesquisa"},{"richText":"Pesquisadores analisam os desafios enfrentados pelo Instituto C para financiar suas atividades, preservar a autonomia e definir o ritmo de expansão","authorDate":"11/08/2026 09h17","madeBy":"Por","tag":"centro-de-conhecimento:centro-de-gest-o-e-pol-ticas-p-blicas","title":"Como uma organização da sociedade civil pode crescer sem perder de vista a missão","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"Como uma organização da sociedade civil recém-criada pode obter recursos para começar a operar? E até que ponto deve adaptar sua atuação às prioridades de financiadores sem se afastar da missão que justificou sua existência? Essas são as questões centrais do caso de ensino  [“Dores do crescimento em organizações da sociedade civil”](https://repositorio.insper.edu.br/entities/publication/c804480b-8f42-4670-9663-6d1d4a53726e) , assinado por Marcelo Marchesini da Costa, professor do  [Mestrado Profissional em Políticas Públicas (MPP)](https://www.insper.edu.br/pt/cursos/pos-graduacao/mestrado/politicas-publicas)  do Insper, Vera Carvalho Oliveira, que concluiu o MPP e é fundadora do  [Instituto C](https://institutoc.org.br/) , e Cecília Scifoni Bascchera, do mestrado em Políticas Públicas da Universidade Federal do ABC. O trabalho reconstrói a trajetória inicial do Instituto C, organização socioassistencial fundada em São Paulo em 2011. Segundo Marchesini, a experiência é relevante porque não constitui uma situação excepcional. “A trajetória do Instituto C é emblemática da realidade de organizações da sociedade civil que, a partir de sua criação, enfrentam o desafio de buscar recursos para permanecer ativas”, afirma. A história permite discutir decisões frequentes no terceiro setor, embora nem sempre exista uma alternativa claramente superior às demais. A narrativa acompanha a trajetória de Vera Carvalho Oliveira, que, aos 25 anos, deixou uma carreira no setor corporativo para criar uma organização voltada a famílias em situação de vulnerabilidade com crianças e adolescentes. O projeto nasceu inspirado na metodologia de uma organização do Rio de Janeiro, identificada no estudo pelo nome fantasia de OSC Modelo para preservar o anonimato da organização. A proposta partia da percepção de que os problemas de saúde infantil também estavam associados a condições de moradia, renda, alimentação, educação e convivência familiar. A existência de um modelo já testado facilitava a definição do propósito e da forma de atuação. Mas não resolvia a questão mais imediata: como financiar o início das operações. Vera acreditava que poderia se concentrar no trabalho social enquanto uma agência de publicidade levantaria, entre seus clientes, os recursos necessários para o primeiro ano. A promessa lhe deu segurança para avançar, mas adiou a construção de uma estratégia própria de captação. A falsa segurança do primeiro apoio Vera conta que a oferta da agência retirou de seus ombros uma preocupação para a qual ainda não se sentia preparada. “Pensei: ‘Que bom, essa era a parte em que eu não saberia nem por onde começar’”, recorda. Enquanto estruturava o conselho, negociava a parceria com o hospital e organizava a assembleia de fundação, captar recursos praticamente não fazia parte de suas preocupações. O orçamento inicial foi estimado em R$ 350 mil e depois reduzido para R$ 270 mil, destinado a cobrir integralmente os custos, incluindo aluguel, adequação do espaço e contratação de uma equipe mínima. O apoio prometido, porém, não se concretizou. Quando chegou o momento de iniciar as atividades, o projeto não tinha os recursos esperados. “Pensei que tudo aquilo poderia ter sido em vão e que eu não conseguiria começar”, diz Vera. Diante da urgência, decidiu procurar pessoas que já a conheciam e confiavam nela. Enviou a amigos um e-mail no qual explicava o projeto, o sonho de atender as primeiras famílias e a necessidade de preparar o local. A mensagem circulou entre os contatos e ajudou a levantar cerca de R$ 30 mil para o início da operação. O recurso permitiu alugar uma sede próxima ao hospital parceiro, responsável por encaminhar as famílias que seriam atendidas pela organização, mas era insuficiente para garantir estabilidade a uma operação que assumia compromissos mais longos, como um contrato de locação de 30 meses. O caso evidencia, assim, uma dificuldade comum às organizações sociais em estágio inicial. Para acessar recursos públicos, o Instituto C precisava acumular tempo de existência, certificações e documentos como cadastro em conselho municipal e licença de funcionamento. Sem financiamento, era difícil manter a operação pelo período necessário para obter essas credenciais. E, sem histórico de resultados, captar doações privadas dependia de conquistar a confiança dos apoiadores. A situação mudou quando uma entidade que conectava grandes doadores a projetos sociais apresentou o Instituto C a uma família filantropa. Pouco depois, a organização recebeu uma doação de R$ 200 mil. Vera interpretou o aporte inesperado como um sinal de que o projeto poderia dar certo. A orientação do financiador foi concentrar parte do dinheiro na implantação da operação e buscar, durante o segundo semestre, os recursos necessários para completar o orçamento. O aporte permitia colocar o projeto em funcionamento, mas não eliminava a incerteza. O apoio tinha duração de 12 meses e não havia garantia de renovação. “Não se tratava apenas de conseguir dinheiro para o restante do primeiro ano. Era necessário pensar em como nos sustentar a partir do segundo, sem depender de um único doador”, afirma Vera. “Você nunca sabe quando alguém com um contrato curto pode parar de doar.” Marchesini observa que esse é um dos temas mais consolidados nas pesquisas sobre organizações da sociedade civil. “Há um grande consenso sobre os riscos da dependência de um financiador relevante e sobre a importância de diversificar as fontes de recursos”, diz. Segundo ele, o processo percebido por Vera na trajetória do Instituto C tornou o episódio especialmente adequado para ser explorado no caso de ensino. Autonomia para adaptar a atuação Os desafios financeiros avançavam paralelamente a uma discussão sobre identidade e missão. A metodologia original havia sido criada para famílias com crianças e adolescentes diagnosticados com problemas de saúde. Na prática, porém, o núcleo paulista recebia pedidos de famílias igualmente vulneráveis, mas que não preenchiam os critérios definidos pela organização de origem. A experiência levou a equipe a adaptar a metodologia à realidade de São Paulo e a considerar a ampliação do público atendido. A organização crescia rapidamente e precisava desenvolver estratégias próprias de captação e comunicação. Também havia confusão entre as marcas: potenciais apoiadores nem sempre distinguiam o núcleo paulista da OSC Modelo. Embora já tivesse CNPJ, conselho e relatório anual próprios, a equipe entendeu que a ligação com a organização de origem passava a trazer mais limitações do que oportunidades. “Queríamos ter ainda mais independência”, afirma Vera. “Quando a organização passou a se chamar Instituto C, ampliamos muito a missão e o público atendido, incluindo famílias com crianças em situação de vulnerabilidade, e não apenas aquelas com alguma doença crônica.” Em 2016, a organização deixou a condição de franquia social e adotou o nome Instituto C — Criança, Cuidado, Cidadão. A mudança abriu espaço para maior autonomia, mas aumentou a responsabilidade pela captação de recursos e pela construção de uma identidade própria. O caso situa essa escolha em um terceiro setor formado por modelos distintos. Algumas organizações executam serviços públicos já definidos, recebendo recursos para cumprir políticas estruturadas. Outras, como o Instituto C, desenvolvem metodologias próprias para complementar as políticas públicas. Essa liberdade permite inovar, mas exige buscar financiamento em doações, campanhas, parcerias empresariais e investimentos sociais. Dilemas que acompanham o crescimento No início do segundo ano, o Instituto C tinha apenas três integrantes: Vera, uma assistente social e uma estagiária administrativa. A fundadora percebeu que não conseguiria conduzir a operação e, ao mesmo tempo, liderar a captação. Surgia uma decisão difícil: contratar uma pessoa dedicada à busca de recursos, elevando os custos fixos, ou manter a estrutura enxuta e procurar outras maneiras de realizar essa atividade. O caso não oferece uma resposta única. Depender de um grande doador pode garantir estabilidade imediata, mas aumenta o risco de interrupção do apoio e de influência sobre a missão. Diversificar as fontes reduz essa dependência, porém exige tempo e equipe justamente quando a organização ainda está consolidando sua atividade principal. Crescer rapidamente pode ampliar o impacto, mas também elevar despesas e fragilizar a gestão. Para Marchesini, essa ausência de uma solução inequívoca é justamente uma das qualidades pedagógicas do trabalho. “Existe o dilema de procurar um profissional para a captação de recursos e, com isso, aumentar os custos da organização, ou buscar fazer isso de outras maneiras”, afirma. “O caso retrata situações muito comuns, enfrentadas com sucesso pelo Instituto C, mas para as quais não existe necessariamente uma resposta claramente superior.” Ao reconstruir as decisões tomadas nos primeiros anos do Instituto C, o trabalho mostra que a sustentabilidade de uma organização social não depende apenas de captar mais recursos. Ela envolve definir de quem captar, em quais condições e de que maneira o financiamento se relaciona com a missão institucional. O crescimento, nesse contexto, não é apenas uma questão de escala. É também um teste de autonomia, identidade e capacidade de escolher entre alternativas que oferecem oportunidades, mas trazem consigo diferentes riscos."}]