[{"jcr:title":"Caso Banco Master expõe nova arquitetura de poder","cq:tags_0":"centro-de-conhecimento:centro-de-gest-o-e-pol-ticas-p-blicas","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:políticas-públicas"},{"richText":"No Café com Políticas, Sérgio Lazzarini e Maria Cristina Fernandes analisaram como o capitalismo de laços se reinventou após a proibição das doações empresariais","authorDate":"04/03/2026 19h09","madeBy":"Por","tag":"centro-de-conhecimento:centro-de-gest-o-e-pol-ticas-p-blicas","title":"Caso Banco Master expõe nova arquitetura de poder","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"O [Observatório da Política ](https://www.insper.edu.br/pt/pesquisa/centro-de-gestao-e-politicas-publicas/observatorio-da-politica) do Centro de Gestão e Políticas Públicas do Insper promoveu em 24 de fevereiro uma edição do Café com Políticas dedicada ao caso Banco Master e às transformações no padrão de relações entre dinheiro e poder no Brasil. Mediado pelo cientista político Carlos Melo, coordenador do Observatório, o encontro reuniu a jornalista Maria Cristina Fernandes (Valor Econômico) e o professor Sérgio Lazzarini (Insper) para discutir como o episódio recoloca em evidência o patrimonialismo e a ideia de “capitalismo de laços” — expressão associada ao livro de Lazzarini, publicado em 2010. A leitura predominante foi a de agravamento e adaptação do sistema: as conexões teriam se tornado mais difíceis de rastrear e novos atores ganharam peso, especialmente no campo judicial. Na abertura, Carlos Melo lançou a provocação que guiou o debate: o “capitalismo de amigos”, passados 16 anos, teria se transformado num “capitalismo de algemas”? Para o moderador, a impressão é de um jogo mais pesado e menos cerimonioso, com ramificações que atravessam Congresso, Executivo e Judiciário, e no qual o Banco Master aparece como símbolo — não como exceção. Lazzarini voltou à origem da pesquisa. Professor de administração e estratégia, contou que chegou ao tema ao analisar estruturas de propriedade durante o ciclo de privatizações do governo Fernando Henrique e se deparar com um paradoxo: mesmo após as privatizações, a presença estatal “se irradiou” pelas empresas por meio de fundos estatais, bancos públicos e estatais. A partir daí, buscou na ciência política e nos clássicos brasileiros uma chave interpretativa. O resultado foi um modelo em ciclo: coalizões influenciam o governo; o governo controla a máquina estatal; entidades estatais oferecem capital e oportunidades às empresas; e as empresas retribuem — naquele período, sobretudo por meio de doações privadas de campanha, numa relação que ele descreveu como “muito explícita” de troca. O centro de sua fala, porém, foi o contraste com o presente. Segundo Lazzarini, a proibição das doações empresariais não eliminou o problema: deslocou as engrenagens. “Nós proibimos as doações privadas. O sistema político precisou ter outras fontes”, afirmou, apontando as emendas parlamentares como principal vetor. O volume, disse, teria saltado de cerca de 6 bilhões de reais em 2014 para algo na casa de 60 bilhões hoje. Com isso, a dinâmica ficou mais dispersa e menos mensurável —antes havia dados acessíveis para mapear doações oficiais e correlações; agora, acompanhar o fluxo exige lidar com destinações menos claras e relações mais pulverizadas. Lazzarini observou que esse novo cenário aumenta o peso de vínculos interpessoais e intermediados. Ao citar emendas que chegam a municípios e depois se desdobram em repasses e contratos, ele destacou a dificuldade de identificar influências e escolhas: “quem é essa ONG?”, “quem influencia essa ONG?”, “por que aquela e não outras?”. No caso Master, disse que chama atenção a amplitude dos contatos e conexões revelados. A mudança mais relevante, em sua avaliação, é que o Judiciário — e, mais amplamente, o sistema investigativo — ganhou centralidade no diagrama do poder. “Essa caixinha não estava aqui”, afirmou, ao comparar o cenário atual ao modelo do livro, sugerindo que hoje o sistema judicial “influencia tudo”. Nesse arranjo, disse, a atuação judicial pode funcionar como uma espécie de “seguro” ou “proteção” diante de acusações e investigações. Lazzarini citou ainda a Lei das Estatais (2016) como tentativa de contenção institucional cujo “espírito se perdeu” ao longo do tempo — ilustrando com o BRB, banco cujo estatuto prevê atuação voltada ao Distrito Federal, mas cujo presidente anunciou ambições de expansão nacional. Maria Cristina Fernandes partiu do modelo de Lazzarini para sustentar que o sistema político não apenas sobreviveu aos choques dos últimos anos: aprendeu com eles. Para a jornalista, o caso Master é “seminal” por mostrar como o sistema assimilou lições da Lava Jato e reorganizou seus mecanismos. “Antes, havia parlamentares que eram despachantes de interesses privados. Hoje são despachantes de seus próprios interesses, quando não sócios”, afirmou. Ela relacionou essa mudança ao fortalecimento das emendas parlamentares e à consolidação da impositividade orçamentária, num contexto em que sucessivos presidentes foram sendo pressionados por crises e investigações. O volume de recursos — emendas somadas ao fundo partidário-eleitoral — teria “autonomizado” a esfera política em relação ao financiamento empresarial tradicional, contribuindo para um sistema mais fechado e com menor renovação. A jornalista sugeriu ainda que, com mudanças na governança de obras públicas, a interação entre política e interesses privados migrou com força para o sistema financeiro. Nesse ambiente, afirmou, a ampliação de mercados e instrumentos criou novas oportunidades para a política atuar, e o desenvolvimento de criptoativos teria facilitado esquemas e redes de lavagem de dinheiro associados ao crime organizado, úteis para dar vazão a recursos. Ela também sublinhou a importância crescente das cortes superiores: segundo ela, há gabinetes em tribunais funcionando como verdadeiras “joint ventures” entre decisões judiciais, escritórios de advocacia e grupos parlamentares. Ao encaminhar o encerramento do bloco inicial, Carlos Melo resumiu o sentimento que pairava na sala: “Difícil encontrar a saída. A sensação é de termos entrado em um labirinto, há quase uma década e meia, pelo menos”. Lazzarini voltou ao ponto metodológico que é também político: se antes era possível mapear laços por estruturas societárias e doações oficiais, agora seria necessário rastrear emendas, entidades, vínculos pessoais, escritórios e pessoas politicamente expostas — tarefa que, segundo ele, pode ganhar viabilidade com novas ferramentas de análise e maior transparência. Nas falas, convergiram a defesa de mais dados, investigação e capacidade de reconstruir redes que, no novo desenho institucional, tendem a operar justamente onde é mais difícil enxergar.  "}]