[{"jcr:title":"Café com Políticas debate a crise da ordem internacional e os dilemas da democracia","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas","cq:tags_1":"centro-de-conhecimento:centro-de-gest-o-e-pol-ticas-p-blicas","cq:tags_2":"tipos-de-conteudo:acontece-no-insper"},{"richText":"Evento no Insper reuniu o professor Carlos Melo e os convidados Fernanda Magnotta e Ricardo Sennes para discutir o cenário global em transformação e os desafios da democracia contemporânea","authorDate":"21/10/2025 12h11","madeBy":"Por","tag":"area-de-conhecimento:políticas-públicas","title":"Café com Políticas debate a crise da ordem internacional e os dilemas da democracia","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"Na noite de 23 de setembro, o Insper recebeu mais uma edição do  [Café com Políticas](https://www.insper.edu.br/pt/eventos/2025/09/cafe-com-politicas-politica-internacional) , desta vez com foco nos impactos das transformações globais sobre a democracia e a ordem internacional. Em um mundo marcado por incertezas, disputas tecnológicas e colapso institucional, os convidados discutiram os caminhos — ou a falta deles — para o futuro da política internacional. Participaram do debate o cientista político e professor Carlos Melo (Insper), a especialista em relações internacionais Fernanda Magnotta (Faap/CNN Brasil) e o analista Ricardo Sennes (Prospectiva Public Affairs). Na abertura do encontro, Carlos Melo contextualizou o cenário atual como fruto de uma revolução tecnológica comparável à Revolução Industrial. “Essas revoluções ocorrem, e só vamos ter a perspectiva de que foi realmente uma revolução muito tempo depois”, disse. Segundo ele, a transformação atual desorganiza o mundo do trabalho, afeta as instituições e coloca a democracia em xeque: “Quem está pagando o preço disso tudo é a democracia, é o mundo democrático como o conhecemos”. Fernanda Magnotta, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da Faap e analista da CNN Brasil, comentou sobre a velocidade das mudanças e a dificuldade de compreendê-las com as ferramentas tradicionais das relações internacionais. “Temos uma tendência de buscar respostas imediatas para questões profundas, o que cria neblina e nos desvia do essencial”, apontou. Ela criticou a forma clássica de análise baseada apenas na distribuição de poder e defendeu uma abordagem mais centrada nos dilemas humanos, como pertencimento e ressentimento. Narrando uma experiência como observadora internacional durante a eleição de Donald Trump em 2016, Fernanda destacou o sentimento de abandono que percebeu entre eleitores norte-americanos. “Eles sentiam que a vida deles era ruim, mais insegura, mais infeliz, e com menos oportunidades do que gostariam”, relatou. Esse descompasso entre a promessas das democracias e a realidade vivida seria, segundo ela, uma das chaves para entender o crescimento de lideranças populistas e autocráticas. Fernanda afirmou também que é urgente reconectar a política internacional com a vida cotidiana das pessoas. “O dilema da política internacional hoje é encontrar respostas da vida real, que não dissociem as grandes rodas da diplomacia daquilo que afeta a vida das pessoas”, disse. Para ela, a crise atual é também uma crise de sentido: instituições têm dificuldade de responder às ansiedades sociais e se tornam vítimas da deslegitimação. Carlos Melo complementou essa visão afirmando que, sem compreender a psicologia do nosso tempo, não há como transformar a realidade. “Sem compreensão, não há transformação, apenas o aprofundamento do desastre”, observou. Ele também citou o conceito gramsciano de “interregno”, um período em que o velho já não serve mais e o novo ainda não nasceu, para descrever o momento atual. Ricardo Sennes, cientista político e sócio-diretor da consultoria Prospectiva Public Affairs, apontou que o mundo passa por uma redistribuição de riqueza e poder em decorrência da revolução tecnológica iniciada nos anos 1990. “Como toda revolução tecnológica, ela redistribui riqueza e poder. Quem responde bem a ela ganha capacidade econômica e política”, explicou. Para ele, os efeitos dessa transição impactam tanto as relações entre países quanto as desigualdades internas. Sennes também destacou a crise das instituições multilaterais, como a ONU e a OMC. “Não tem nenhum tema relevante do mundo digital que passe pela OMC. Ela ficou obsoleta”, afirmou. Segundo ele, a ordem internacional criada no pós-Segunda Guerra foi eficaz por um tempo, mas falhou em se adaptar aos novos desafios do século XXI, como a revolução digital e a disputa por recursos estratégicos. Sobre a ascensão chinesa, Fernanda ressaltou que se trata de um projeto claro e estruturado, simbolizado por iniciativas como o Made in China 2025 e a Belt and Road Initiative. “A China deixou de ser apenas a fábrica de produtos de baixo valor e se tornou competidora direta dos Estados Unidos em áreas estratégicas como semicondutores, tecnologia militar e infraestrutura digital”, ressaltou. Sennes concordou, observando que o mundo demorou a perceber a profundidade da inserção chinesa em cadeias produtivas críticas: “O problema não é a China ter as maiores reservas de terras raras, mas ela dominar o processamento desses minerais”. Ele ainda mencionou que a ausência de um novo ordenamento para lidar com essas disputas tecnológicas contribui para a instabilidade atual. Ambos os especialistas ressaltaram que a crise da liderança política global é um dos aspectos mais preocupantes. Fernanda chamou atenção para o fato de que os Estados Unidos, historicamente o “paymaster” da ordem internacional, estão cada vez menos dispostos a bancar esse papel. “Talvez a hegemonia americana colapse por WO, e não porque outra potência tomou seu lugar”, disse. Sennes reforçou a necessidade de se pensar uma nova ordem global sem um garantidor hegemônico. Diante do esvaziamento de instituições multilaterais, da emergência de potências tecnológicas e do enfraquecimento das democracias por dentro, o debate deixou claro que o mundo caminha sem uma bússola clara. Sem um ator disposto a sustentar uma nova ordem e com desafios inéditos impostos por desigualdades, ressentimentos e disputas por soberania digital e recursos estratégicos, a política internacional parece atravessar um vácuo de liderança e sentido. Entender essa travessia, como propuseram os convidados, exige ir além da geopolítica tradicional — é preciso encarar a política como reflexo das ansiedades humanas e das rupturas sociais que vêm moldando o século XXI.  "},{"jcr:title":"Carlos Melo, Fernanda Magnotta e Ricardo Sennes","fileName":"Café com políticas_Carlos Melo, Fernanda Magnotta e Ricardo Sennes .jpeg","alt":"Carlos Melo, Fernanda Magnotta e Ricardo Sennes"}]