[{"jcr:title":"Ultraprocessados em alta, saúde em baixa: a ciência por trás da má alimentação","cq:tags_0":"tipos-de-conteudo:ceneg-opina","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:marketing-e-vendas","cq:tags_2":"centro-de-conhecimento:centro-de-estudos-em-neg-cios"},{"richText":"Como o marketing, os preços e nossas crenças moldam escolhas alimentares e afetam a saúde pública","authorDate":"31/10/2025 16h59","author":"Maura Ferreira*","madeBy":"Por","tag":"tipos-de-conteudo:ceneg-opina","title":"Ultraprocessados em alta, saúde em baixa: a ciência por trás da má alimentação","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"A qualidade dos alimentos consumidos por uma população é um importante indicador de sua qualidade de saúde. Doenças cardiovasculares, obesidade, diabetes, tipos específicos de câncer e doenças como depressão estão diretamente associadas à má qualidade da alimentação por parte dos consumidores,  [conforme apontado por diferentes estudos](https://doi.org/10.1016/j.clnu.2024.03.028) . Segundo o  [Atlas Mundial da Obesidade de 2025](https://painelobesidade.com.br/en/biblioteca/world-obesity-atlas-2025/) , 68% dos brasileiros possuem alto índice de massa corpórea (IMC), ou seja, estão com sobrepeso ou obesos. A má alimentação gera custos ao governo, às empresas e às pessoas. De acordo com um  [levantamento feito pela Fiocruz Brasília e a Universidade de São Paulo](https://g1.globo.com/saude/noticia/2024/11/22/consumo-de-alimentos-ultraprocessados-custa-r-104-bilhoes-por-ano-a-saude-e-a-economia-no-brasil.ghtml) , R$ 933,5 milhões do total dos gastos do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil são destinados ao tratamento de doenças associadas ao consumo de alimentos ultraprocessados, como diabetes e obesidade. Lembre-se de que o SUS é financiado por impostos pagos pelos cidadãos brasileiros, logo, esse problema público de saúde é também um problema meu e seu. Contudo, vivemos rodeados de alimentos ultraprocessados, que vão desde o iogurte de morango até a pizza congelada. Diferentes fatores ocasionam o crescente consumo de ultraprocessados; entendê-los é o passo inicial para repensarmos o nosso consumo de alimentos e lidarmos, enquanto sociedade, com as diferentes questões de saúde pública causadas pelo consumo de alimentos ultraprocessados. Entre esses fatores estão o contexto no qual estamos inseridos, heurísticas usadas ao julgar alimentos, as crenças e comportamentos dos nossos pais e elementos de marketing, que propiciam ou inibem o consumo de alimentos não saudáveis. Sobre contexto, a distorção nos preços dos alimentos — com frutas e verduras mais caras que os ultraprocessados —, ocasionada por eventos como extremos climáticos e pandemias, desencoraja dietas saudáveis,  [segundo artigo publicado na ](https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.abi8807) Science Advances em 2022. Considerando que no mundo temos mais pessoas pertencentes às classes médias e baixas e menos ao grupo dos ricos e super-ricos, que são menos sensíveis ao preço, é possível concluir que tal discrepância afeta consideravelmente a alimentação da maior parte da população mundial. Pesquisas também apontam para heurísticas usadas ao avaliarmos alimentos. Um exemplo clássico, e  [comprovado cientificamente](https://academic.oup.com/jcr/article-abstract/43/6/992/2743659?redirectedFrom=fulltext) , é a associação que fazemos entre saudável e caro: quanto maior a percepção de saudabilidade de um alimento, maior a inferência de que se trata de um alimento caro, isto é “saudável = caro”. Isso pode inibir o consumo de alimentos mais saudáveis, especialmente quando vivenciamos restrições de recursos financeiros. Outro importante fator associa-se à infância. Nossos pais são figuras cruciais na adoção de uma alimentação mais ou menos saudável quando somos crianças, o que se refletirá também em nossa vida adulta. Um  [estudo publicado no mais influente periódico acadêmico](https://doi.org/10.1093/jcr/ucad048)  em Comportamento do Consumidor demonstra que a crença dos pais de que quanto mais saboroso um alimento é, menos saudável ele é, possui efeito negativo na alimentação das crianças. O mesmo ocorre quando pais oferecem recompensas extrínsecas às crianças a fim de as incentivarem a comerem alimentos saudáveis, como exemplo, temos o “se você comer a salada, poderá assistir ao desenho”. Por fim, elementos de marketing como características do produto — atributos do produto, informação nutricional, rótulo e embalagem — funcionam como  [atalhos na decisão de compra e consumo de alimentos](https://doi.org/10.1177/00222429231152181) . Tais elementos são utilizados pela indústria alimentícia, especialmente fabricantes de alimentos ultraprocessados, para atrair consumidores, conforme destaca o Guia Alimentar para a População Brasileira de 2024. Nesse sentido, é essencial que agências reguladoras, governos e entidades da sociedade civil estejam atentos a esses elementos de forma a, junto com a indústria alimentícia, pensarem em caminhos e soluções para desenvolvimento e promoção de alimentos que sejam mais benéficos à nossa saúde. Diante de todos os aparentes obstáculos, como podemos caminhar para um mundo onde a maior parte da população possa ter acesso a uma alimentação saudável e de fato optar pelo consumo de alimentos mais saudáveis?Acredito que um dos passos seja tornar o conhecimento científico acerca de tais obstáculos mais disseminado, acessível e claro especialmente aos consumidores, gestores públicos e profissionais da saúde. Esse conhecimento possibilita, por exemplo, a consciência individual de cada consumidor. Tal consciência pode impulsionar consumidores a modificarem suas preferências alimentares e, com isso, gerarem movimentos na indústria alimentícia — atentas às tendências do seu mercado consumidor — um exemplo é o movimento da JBS de diversificar sua produção de proteína, incorporando ao seu portfólio a produção de proteína vegetal devido à tendência do vegetarianismo e veganismo. O conhecimento científico pode ainda auxiliar na criação e implementação de programas educativos destinados a minimizar heurísticas e crenças transgeracionais que inibem a escolha por alimentos mais saudáveis; na proposição de políticas públicas visando minimizar o custo de alimentos saudáveis aos consumidores — especialmente àqueles mais sensíveis ao preço; e na regulamentação da indústria de alimentos ultraprocessados. A resposta está na ciência.   *  [Maura Ferreira](https://www.insper.edu.br/pt/docentes/maura-ferreira-rodrigues0)  é professora e pesquisadora em Marketing no Insper."},{"jcr:title":"Maura Ferreira","fileName":"Maura Ferreira.png","alt":"Maura Ferreira"}]