[{"jcr:title":"Sistemas alimentares em colapso? A crise climática e o futuro da segurança alimentar","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:gestão-e-negócios","cq:tags_1":"centro-de-conhecimento:centro-de-estudos-em-neg-cios","cq:tags_2":"tipos-de-conteudo:ceneg-opina"},{"richText":"A emergência climática oferece a oportunidade de repensar como produzimos, distribuímos e consumimos alimentos em escala regional, nacional e global","authorDate":"25/04/2025 15h23","author":"Vinicius Picanço Rodrigues*","madeBy":"Por","tag":"tipos-de-conteudo:ceneg-opina","title":"Sistemas alimentares em colapso? A crise climática e o futuro da segurança alimentar","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"Há quem defenda, como o sociólogo Bruno Latour, que não se trata de  mudanças  climáticas, mas sim de  mutações  climáticas, posto o caráter estrutural e irreversível do curso de tais mudanças. Seja como for, as mudanças climáticas têm provocado alterações profundamente significativas nos padrões de precipitação, seca e temperatura. Nesse contexto, o Brasil é um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do planeta. Hoje, o país enfrenta um paradoxo alarmante: enquanto abastece mercados globais, lida com crescentes desafios relacionados à sua própria segurança alimentar. A pergunta que, então, nos ensurdece é: como garantir a segurança alimentar no Brasil diante dos efeitos devastadores das mudanças climáticas?​   Os desafios se acumulam. Eventos climáticos extremos, como secas severas, inundações e padrões de chuva profundamente alterados, têm se tornado mais frequentes e intensos. Essa coletânea de eventos compromete a produção agrícola, afetando diretamente a disponibilidade e o acesso a alimentos (particularmente das camadas mais vulneráveis de uma já sofrida população).  [Um estudo da Organização Meterológica Mundial](https://wmo.int/es/publication-series/estado-del-clima-en-america-latina-y-el-caribe-2024)  apontou que, em 2024, a Amazônia e o Pantanal enfrentaram secas históricas, com chuvas entre 30% e 40% abaixo da média, enquanto o Rio Grande do Sul sofreu com enchentes sem precedentes. Não é preciso detalhar muito o quanto esses fatos impactaram tanto as grandes produções mecanizadas quanto as pequenas propriedades da agricultura familiar. Tais eventos reduzem a produtividade agrícola e desafiam a previsibilidade sobre a qual os sistemas alimentares se alicerçam.    No setor privado, a conta começa a chegar com maior intensidade e com juros altos. Empresas do setor agroalimentar estão se vendo forçadas a repensar seus modelos operacionais, de negócio e de risco. Grandes exportadoras de grãos, por exemplo, passaram a  [considerar cenários climáticos extremos](https://agroadvance.com.br/blog-retrospectiva-2024-perspectivas-2025-agronegocio-brasileiro/)  em seus planejamentos de logística, enquanto redes varejistas estão buscando  [ampliar parcerias estratégicas com produtores locais](https://www.supervarejo.com.br/varejo/supermercados-apostam-em-parcerias-com-pequenos-produtores-para-trazer-frescor-qualidade-e-impacto-nas-vendas)  para diversificar suas fontes de abastecimento. Ao mesmo tempo, startups de agricultura digital e  [empresas de bioinsumos](https://croplifebrasil.org/publicacao/desafios-e-oportunidades-para-o-mercado-de-bioinsumos/)  inovam em uma velocidade alta, trazendo ao mercado soluções ancoradas em dados para mitigar riscos, maximizar o uso de recursos e adaptar as práticas agrícolas à nova realidade climática e a um desafiador contexto de sustentabilidade.   Apesar desse dinamismo do setor privado, políticas públicas ainda desempenham um papel insubstituível na construção de uma resposta sistêmica e estruturante para os riscos alimentares que se desenham no horizonte. O  [III Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Plansan) 2024–2027](https://www.gov.br/mds/pt-br/noticias-e-conteudos/desenvolvimento-social/noticias-desenvolvimento-social/iii-plano-nacional-de-seguranca-alimentar-e-nutricional-e-aprovado) , aprovado em fevereiro de 2025, é um exemplo concreto. Ainda que amplo e com muitas incertezas em sua real implementação e desdobramento operacional, o plano estabelece 18 estratégias e 219 iniciativas intersetoriais. O texto aprovado é inequívoco ao enfatizar que a segurança alimentar e nutricional não será atingida sem o desenho de sistemas alimentares que sejam, de fato, resilientes à crise climática. Ao priorizar o apoio à agricultura familiar e modelos sustentáveis de produção e consumo, o plano reconhece que garantir o direito humano à alimentação adequada requer uma profunda e elaborada coordenação entre áreas historicamente fragmentadas, que vão desde a saúde até o desenvolvimento agrário, passando de forma incontornável por educação e meio ambiente.   Outros exemplos, como o programa de  [Zoneamento Agrícola de Risco Climático](https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/riscos-seguro/programa-nacional-de-zoneamento-agricola-de-risco-climatico)  (ZARC), de 2019, buscam apoiar amparar decisões mais robustas ao desenvolver sistemas mais resilientes nas cadeias agrícolas, orientadas por um grande volume de dados de qualidade. O ZARC reduz as perdas e orienta investimentos de forma mais assertiva e baseada em evidências, incluindo a concessão de crédito por parte dos bancos públicos e privados. Se bem articulados, esses e outros instrumentos podem e devem se tornar uma ponte concreta entre o setor público e o privado, garantindo previsibilidade e segurança para agricultores, processadores e distribuidores de produtos agrícolas e alimentícios.   Há ainda uma dimensão invisível aos olhos nus, porém vital:  [a diversidade genética dos cultivos agrícolas](https://cop30.br/pt-br/noticias-da-cop30-amazonia/a-mudanca-do-clima-e-os-conflitos-sao-razoes-que-provocam-a-inseguranca-alimentar-declara-diretor-da-fao) . Cultivos antes considerados de menor importância e viabilidade para algumas regiões, como a mandioca em áreas semiáridas ou o feijão-caupi na região Norte, podem se tornar peças-chave da resiliência alimentar. Estudos da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) indicam que mais de  [75% da diversidade genética das culturas alimentares tenha sido perdida no último século](https://brasil.un.org/pt-br/62289-fao-preservar-variedade-gen%C3%A9tica-dos-alimentos-%C3%A9-fundamental-para-combater-fome-e-desnutri%C3%A7%C3%A3o) . Uma vez que as cadeias agrícolas apresentam baixíssima variedade, elas acabam por se concentrar em poucos cultivos de alto rendimento. Isso enfraquece nossa capacidade de adaptação. Desenvolver e fomentar bancos comunitários de sementes e estimular pesquisas agronômicas focadas em espécies nativas são políticas estratégicas diante de um futuro climático incerto e altamente instável, que vai exigir cooperação entre agentes públicos e privados em uma escala nunca vista antes.   É nesse ponto que a visão de negócios deve se integrar fundamentalmente à agenda pública. Empresas de toda a cadeia, investidores, seguradoras e cooperativas agrícolas devem incorporar critérios climáticos em suas métricas de avaliação de risco, retorno e mensuração de impacto. Essa ação deve ultrapassar as fronteiras da pura filantropia ou da gestão de reputação e se tornar uma pedra fundamental para a continuidade operacional das complexas cadeias agroalimentares, a estabilidade de preços e a garantia de fornecimento sustentável. Programas de compras públicas, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), são exemplos bem-sucedidos dessa articulação entre política pública e mercado. Eles viabilizam renda para pequenos produtores e entregam alimentação saudável a milhões de estudantes Brasil afora, ao mesmo tempo, em que estimulam ações estratégicas para o  [desenvolvimento de cadeias locais e a inserção de alimentos de base agroecológica no programa](https://www.comidadoamanha.org/post/pnae-agroecol%C3%B3gico-projeto-impulsiona-a-transi%C3%A7%C3%A3o-agroecol%C3%B3gica-por-meio-da-alimenta%C3%A7%C3%A3o-escolar-em) . Há muito espaço aqui para sacramentar a união entre o poder da inovação privada e o alcance da escala pública.   O cenário global também exige respostas focadas, precisas e muito bem articuladas. Durante sua presidência do G20 em 2024, por exemplo, o Brasil lançou a  [Aliança Global contra a Fome e a Pobreza](https://globalallianceagainsthungerandpoverty.org/pt-br/) , que busca coordenar ações focadas entre governos, setor privado e organizações multilaterais para encorajar e fortalecer as políticas de combate à insegurança alimentar e nutricional. A aliança ganha ainda maior relevância em um cenário geopolíticos complexo, em que  [cortes nos orçamentos da cooperação internacional](https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/programa-alimentar-mundial-cortara-ajuda-a-um-milhao-de-pessoas-em-mianmar/) comprometem o alcance e o impacto de programas alimentares emergenciais já consolidados, como os do Programa Mundial de Alimentos (PMA) da Organização das Nações Unidas, do qual milhões de pessoas em extrema vulnerabilidade dependem. Enquanto isso, os efeitos da guerra na Ucrânia e os choques internacionais de preços de fertilizantes, grãos e outros insumos continuam exercendo uma pressão exacerbada sobre os sistemas alimentares, particularmente aqueles dos países emergentes e com infraestrutura crítica de baixa qualidade.   Assim, torna-se cada vez mais claro que enfrentar a crise climática e a insegurança alimentar e nutricional demanda uma mudança profunda em nossa lógica operacional. Simplesmente aumentar nominalmente a produção não será suficiente. Precisamos operar em uma nova lógica de transformação dos sistemas alimentares de forma sistêmica, contemplando a interdependência entre a reconfiguração de cadeias logísticas, o redesenho direcionado de subsídios agrícolas, o fortalecimento de mercados locais e o investimento em tecnologias regenerativas e de baixo carbono. Porém, visão sistêmica não se sustenta com a nossa atuação confortável em silos. Talvez o elemento mais desafiador dessa complexa equação de transformação seja estabelecer um diálogo inequívoco entre atores que historicamente operaram em silos. Precisamos trazer para a mesma mesa, abraçar as divergências e buscar consenso entre agricultores, ambientalistas, agrônomos, empresários e gestores públicos. O nosso alento imediato é que tal convergência talvez já esteja em curso, ainda que aconteça de forma desigual, concentrada e incipiente.   É difícil discordar de que a crise climática representa um dos maiores desafios à segurança alimentar e nutricional no Brasil e no mundo. No entanto, esse novo cenário de instabilidade e incerteza oferece uma oportunidade que os novos tempos nos trazem: repensar profundamente como produzimos, distribuímos e consumimos alimentos em escala regional, nacional e global. Se conseguirmos unir a ambição das políticas públicas com o motor avassalador da inovação dos negócios, ouvindo e respeitando atentamente a ciência de ponta, ainda podemos evitar um potencial colapso irreversível dos sistemas alimentares e construir um presente e um futuro alimentar mais justo, equitativo, sustentável e resiliente. Se levarmos Latour a sério (e acredito que deveríamos), não é suficiente então mitigar impactos ou retificar falhas. É o nosso próprio projeto de desenvolvimento socioeconômico que precisa ser repensado (e talvez reinventado). E é provável que os sistemas alimentares sejam o ponto de partida mais urgente e promissor para isso. O tempo, porém, é curto. E a responsabilidade é muito grande, e ela é de todos nós.  "},{"jcr:title":"*Vinicius Picanço Rodrigues é professor assistente do Insper, lecionando o curso de Graduação em Administração e no Mestrado Profissional em Administração","alt":"Vinicius Picanço Rodrigues é professor assistente do Insper, lecionando o curso de Graduação em Administração e no Mestrado Profissional em Administração."}]