[{"jcr:title":"A reforma tributária é boa, mas não vai baratear o Brasil","cq:tags_0":"tipos-de-conteudo:ceneg-opina","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:economia","cq:tags_2":"area-de-conhecimento:gestão-e-negócios"},{"richText":"É preciso dizer que a simplificação do sistema corrige distorções importantes, embora não garanta alívio imediato de custos","authorDate":"29/05/2026 16h00","author":"Juliana Inhasz*","madeBy":"Por","tag":"tipos-de-conteudo:ceneg-opina","title":"A reforma tributária é boa, mas não vai baratear o Brasil","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"Depois de anos de tentativas frustradas, o Brasil concluiu, em janeiro de 2026, a regulamentação da reforma tributária mais abrangente e ambiciosa de sua história. A mudança veio em etapas, desde a aprovação constitucional em 2023 até a criação do Comitê Gestor do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) agora em 2026, e chegou acompanhada de uma promessa sedutora: a de que o país finalmente ficaria mais simples e, assim, mais barato. A primeira parte é verdadeira. A segunda, no mínimo, duvidosa. A reforma aprovada é, de fato, um avanço institucional importante. Substituir cinco tributos confusos por um imposto sobre valor agregado (IVA) moderno corrige distorções graves, reduz litígios e aproxima o país de práticas internacionais consolidadas. Ainda assim, há um equívoco na narrativa dominante que precisa ser enfrentado. A simplificação, neste caso, não é sinônimo de redução de carga tributária. O que a reforma efetivamente faz é redistribuir o peso dos impostos dentro da economia. Alguns setores pagarão menos, outros mais. No agregado, não há evidência plausível de que o sistema ficará de fato mais leve, apenas diferente. Isso não é um defeito em si, mas uma característica. O problema é quando se omite essa distinção. Do lado dos beneficiados pela reforma estão principalmente a indústria e o agronegócio, setores que hoje carregam uma tributação em cascata especialmente perversa e que, com a não cumulatividade plena do IVA, devem ver sua carga efetiva cair. Exportadores também ganham, já que o novo modelo desonera exportações de forma mais consistente do que o sistema atual. Do lado dos que pagarão mais, o quadro é diferente. Há setores, especialmente serviços intensivos em mão de obra, que hoje operam com carga tributária relativamente baixa e devem ver seus impostos subir. Isso ocorre não por penalização, mas porque o novo sistema elimina exceções e amplia a base tributária. Uma longa lista de atividades enquadradas em regimes simplificados vão sentir o ajuste, e o tamanho da conta não é trivial. Estimativas do Ministério da Fazenda apontam alíquota de referência do IVA dual em torno de 26,5%, uma das mais altas do mundo entre países que adotam o modelo. A não cumulatividade plena pode neutralizar parte desse impacto para quem consegue aproveitar créditos ao longo da cadeia, mas setores com poucos insumos tributáveis não têm essa saída. Para esses setores, o período de transição não é apenas uma questão burocrática, e sim uma equação financeira que já deveria estar sendo modelada. Quando a carga tributária aumenta, as empresas têm algumas saídas, como reduzir margens, aumentar produtividade ou, ainda, repassar preços. Na maioria dos casos, as empresas farão um pouco de cada. Em outros, quando a concorrência permite, o repasse será inevitável. Aqui entra uma responsabilidade que o setor privado não pode terceirizar, que é traduzir os ganhos de eficiência em investimento real e aumento de produtividade. As empresas que fizerem isso sairão na frente. As que esperarem a reforma "acontecer primeiro" provavelmente engrossarão o lado perdedor da equação. Mas se para as empresas o desafio é de gestão, para o consumidor a conta é mais direta: os preços sobem. A promessa implícita de queda generalizada de preços é mais marketing do que impacto econômico. O mais provável é uma reorganização de preços relativos, com alguns bens mais baratos e vários serviços com tendência de alta. Para o consumidor, caberá absorver parte desse ajuste. Também há o impacto federativo, que merece menos celebração e mais debate. Durante décadas, estados usaram o ICMS para competir entre si, atraindo empresas com benefícios fiscais. Esse modelo gerou distorções evidentes e uma avalanche de disputas judiciais, mas também funcionou, na prática, como uma política regional implícita para regiões com menor atratividade espontânea para o capital produtivo. A reforma desmonta esse sistema. Do ponto de vista econômico, faz sentido. Do ponto de vista regional, o país troca um modelo imperfeito, porém benéfico para a redistribuição de recursos entre regiões, por mecanismos mais centralizados e menos flexíveis, com risco real de concentrar ainda mais a atividade econômica no eixo Sul-Sudeste. Pouco se fala nisso, e talvez esse seja um dos impactos mais relevantes num país que viu, nos últimos anos, o aumento da desigualdade em diversos indicadores socioeconômicos. Há, porém, um limite ainda mais fundamental que a reforma não tem como cruzar sozinha, que é a responsabilidade fiscal. De pouco adianta um sistema tributário mais eficiente se o Estado continuar expandindo gastos em ritmo incompatível com a capacidade de financiamento da economia. Num cenário de desequilíbrio fiscal persistente, os ganhos de eficiência proporcionados pela reforma serão cobrados indiretamente, na forma de juros mais altos, prêmio de risco elevado e deterioração ainda maior do ambiente de negócios. A taxa Selic não é mero acaso. Ela reflete, entre outras coisas, a percepção do mercado sobre a trajetória das contas públicas. E juros altos são, por si só, um imposto sobre o investimento produtivo, talvez o mais perverso de todos. Os ganhos de eficiência da reforma são reais, mas de longo prazo. Já as pressões de custo são imediatas. Há vencedores e perdedores como em qualquer política estrutural, e não há nada de anormal nisso. O problema é vender uma mudança estrutural como se fosse um alívio econômico imediato e homogêneo. Isso não é verdade neste caso. A reforma é necessária e representa um avanço real. Avanço, no entanto, não é sinônimo de alívio imediato, e confundir os dois tem custo. Para gestores, esse custo aparece nas margens. Para consumidores, nos preços. Para o país, na frustração de uma promessa que o desenho técnico nunca fez, mas a narrativa política fez questão de vender. A reforma merece ser compreendida pelo que é: um passo importante numa direção certa. Não um atalho para um Brasil mais barato. * [Juliana Inhasz](https://www.insper.edu.br/pt/docentes/juliana-inhasz) é Professora Assistente do Insper na área de Economia e coordenadora do programa Insper One."},{"variantCarousel":"cards","buttonText":"Ver bio","noPhotoText":"Sem foto","variantGroup":"docentes"},{"title":"Centro de Estudos em Negócios"},{"linkUrl":"https://www.insper.edu.br/pt/pesquisa/centro-de-estudos-em-negocios","linkIcon":"icon-insper-return-arrow","linkText":"Conheça o Ceneg e seus núcleos de pesquisa"},{"jcr:title":"cinza / turquesa / amarelo"},{"themeName":"fundo cinza / botao turquesa / tag amarela"},{"newsSeeAllNewsText":"Ver todas notícias","newsLoadMoreText":"CARREGAR MAIS","allNewsTabText":"Ceneg Opina","newsTypeSelectorTextItem":"Todos os tipos","newsResultsTextPlural":"resultados","title":"Ceneg Opina - todas as edições","newsResultsTextSingular":"resultado","tagsToFilter_0":"tipos-de-conteudo:ceneg-opina","newsTypeSelectorText":"Selecione o tipo de conteúdo"}]