[{"jcr:title":"Quando o crime entra na cadeia (de suprimentos)","cq:tags_0":"tipos-de-conteudo:ceneg-opina","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:economia","cq:tags_2":"area-de-conhecimento:gestão-e-negócios"},{"richText":"Em países como o Brasil, onde o roubo de carga é recorrente, a criminalidade redefine como as empresas pensam o risco, a segurança e até as relações institucionais","authorDate":"30/04/2026 17h54","author":"Kenyth Freitas*","madeBy":"Por","tag":"tipos-de-conteudo:ceneg-opina","title":"Quando o crime entra na cadeia (de suprimentos)","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"A criminalidade nas cadeias de suprimentos deixou de ser um fenômeno periférico para ocupar o centro das discussões sobre gestão de operações em diversos países. Em contextos marcados por fragilidade institucional e baixa confiança entre atores econômicos, o roubo de cargas (que inclui também desvios e fraudes) integra um ecossistema complexo que conecta mercado ilegal, falhas regulatórias e, em alguns casos, até a participação de agentes internos.  [De acordo com o FBI](https://archives.fbi.gov/archives/news/stories/2006/july/cargo_theft072106)  , esse tipo de crime é responsável por perdas financeiras superiores a US$ 30 bilhões por ano em todo o mundo. No entanto, os impactos vão muito além das perdas financeiras diretas. Empresas enfrentam aumento de custos operacionais, interrupções no fluxo de mercadorias, queda no nível de serviço e danos à reputação. Mais grave ainda, a criminalidade logística acarreta consequências humanas significativas, como a exposição de trabalhadores a situações de violência, sequestros, traumas psicológicos e até mortes. Um dos aspectos mais críticos dessa dinâmica é a erosão da confiança. Em ambientes em que as instituições regulatórias são frágeis, a previsibilidade das relações diminui e a cooperação entre os diferentes atores da cadeia se torna mais difícil. Muitas vezes, a criminalidade não atua apenas de fora para dentro; mas se infiltra nas próprias estruturas organizacionais. Uma pesquisa recente, da qual fiz parte ao lado de Ely Paiva, Barbara Flynn, Amrou Awaysheh, aponta que o envolvimento de funcionários, parceiros logísticos e até agentes públicos evidencia que o risco não está apenas nas rotas ou nos produtos, mas também nas operações das empresas e nas relações com os parceiros da cadeia de suprimentos. Esse fator adiciona uma camada de complexidade à gestão, pois combater o crime passa a exigir não apenas controle operacional, mas também mecanismos sofisticados de governança e de construção de confiança. Estratégias para mitigar o roubo de cargas Diante desse contexto, as empresas não respondem de forma uniforme. Observa-se a adoção de diferentes estratégias, que variam conforme o nível de risco, o valor dos produtos e os impactos potenciais da criminalidade nas operações. Em linhas gerais, três abordagens principais emergem: a aceitação do risco, o uso intensivo de tecnologia e a construção de soluções colaborativas. A estratégia de aceitação do risco é adotada sobretudo por empresas com produtos menos atrativos no mercado ilegal ou com prejuízos relativamente limitados em caso de roubo. Nesses casos, o custo de combater o crime pode ser maior do que o próprio prejuízo que ele causa. Assim, as organizações optam por transferir o risco para seguradoras, parceiros logísticos ou consumidores, incorporando as perdas ao modelo de negócio. Trata-se de uma decisão racional do ponto de vista econômico, mas também revela uma adaptação a um ambiente em que a eliminação do risco não é viável. Já as empresas mais expostas ao risco, especialmente aquelas que lidam com produtos de alto valor ou de alta demanda no mercado ilegal, tendem a investir fortemente na estratégia do uso intensivo de tecnologia. Sistemas de rastreamento em tempo real, sensores embarcados, inteligência de dados e até mesmo mecanismos que inutilizam produtos roubados são exemplos de soluções adotadas. A lógica aqui é clara: se não é possível impedir completamente o crime, é possível reduzir sua atratividade econômica e aumentar a capacidade de controle sobre a operação. A tecnologia permite maior visibilidade, identificação de padrões e resposta mais rápida a incidentes. No entanto, o uso intensivo de tecnologia também apresenta limitações. Em contextos em que o crime organizado atua em territórios controlados, o controle tecnológico, por si só, não garante a recuperação de cargas nem a eliminação do risco. É nesse ponto que emerge a terceira estratégia, a de construção de soluções colaborativas. Empresas que operam em ambientes de alto risco começam a reconhecer que o enfrentamento da criminalidade não pode ser feito de forma isolada. Elas passam, então, a construir redes de cooperação que envolvem outras empresas, instituições públicas e até comunidades locais. O compartilhamento de informações sobre rotas, padrões de ataque e modus operandi de grupos criminosos se torna um recurso estratégico. Ao mesmo tempo, a colaboração com as forças de segurança permite ampliar a capacidade de investigação e de resposta. Essa abordagem está diretamente relacionada ao conceito de capital social, ou seja, aos recursos que emergem das relações de confiança, de reciprocidade e de troca de informações entre os atores. Em ambientes de baixa confiança, construir esse capital não é trivial. Exige mecanismos que combinem controle (como contratos e monitoramento) com relacionamento (como alinhamento de objetivos e cooperação contínua). Empresas que conseguem desenvolver esse equilíbrio se tornam mais capazes de antecipar riscos, responder a incidentes e reduzir os impactos da criminalidade. Cadeias de suprimentos resilientes Um ponto fundamental que emerge dessa análise é que a resiliência não é resultado de uma solução única, mas de um processo evolutivo. Empresas mais resilientes são aquelas que aprendem com experiências passadas e ajustam continuamente suas estratégias. Esse aprendizado permite identificar padrões, aprimorar processos e fortalecer tanto os mecanismos tecnológicos quanto as relações colaborativas. Em vez de buscar eliminar completamente o risco (algo inviável em muitos contextos), essas empresas passam a operar de forma mais eficaz dentro dele. Essa mudança de perspectiva tem implicações profundas para a gestão. Em primeiro lugar, exige que os líderes abandonem a ideia de controle absoluto e passem a lidar estrategicamente com a incerteza. Em segundo lugar, reforça a importância de integrar as diferentes dimensões da gestão de risco: tecnológica, organizacional e relacional. Por fim, destaca a necessidade de repensar o papel das instituições públicas e das parcerias público-privadas, já que o enfrentamento da criminalidade logística depende, em grande medida, da articulação entre diferentes setores. Em última instância, a criminalidade nas cadeias de suprimentos expõe um paradoxo: quanto mais as empresas tentam controlar o sistema de forma isolada, mais evidentes se tornam os limites desse controle. A verdadeira vantagem competitiva, nesse contexto, não está na eliminação do risco, mas na capacidade de gerenciá-lo de forma inteligente, adaptativa e integrada. Em um mundo onde a incerteza é permanente, operar bem sob risco pode ser mais valioso do que tentar, sem sucesso, eliminá-lo por completo. * [Kenyth Freitas](https://www.insper.edu.br/pt/docentes/kenyth-alves-de-freitas) é professor assistente do Insper na área de Operações."},{"jcr:title":"Kenyth Freitas","fileName":"Kenyth Freitas.png","alt":"Kenyth Freitas"}]