[{"jcr:title":"Roslyn High School: o Anel de Frank Tassone","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:economia","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:gestão-e-negócios","cq:tags_2":"programas:graduacao"},{"richText":"O poder da invisibilidade moral e os limites da ética sob o olhar público","authorDate":"16/12/2025 13h30","author":"Gilberto Dai Pra Filho","madeBy":"Por","tag":"programas:graduacao","title":"Roslyn High School: o Anel de Frank Tassone","variant":"image"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"Dizem que o verdadeiro caráter de alguém se revela quando nenhuma consequência o ameaça. No conto do Anel de Giges, narrado por Platão, um simples pastor descobre, após um terremoto, um cadáver gigante portando um anel misterioso. Ao colocá-lo no dedo, Giges percebe que se torna invisível aos olhos humanos. Diante desse poder absoluto, ele cede à tentação: infiltra-se no palácio, seduz a rainha, assassina o rei e assume o trono. Nesse sentido, A narrativa lança uma provocação atemporal: agiria o homem com justiça se tivesse a certeza da impunidade? O anel simboliza a liberdade sem responsabilidade, e questiona aquilo que realmente nos impede de cometer injustiças: a consciência, ou o olhar alheio? Se, no mito platônico, Giges encontra na invisibilidade a permissão para agir de forma inconsequente, na modernidade essa invisibilidade assume formas mais sutis: prestígio, reputação e autoridade. O caso de Frank Tassone, ex-superintendente do distrito escolar de Roslyn, em Nova York, ilustra essa tese com clareza. À cargo de superintendente, Tassone foi aclamado por conduzir a Roslyn High School ao ranking das instituições que mais aprovavam alunos em universidades de elite. Sob sua gestão, os indicadores acadêmicos ascendiam, pais e alunos o faziam de referência, e sua imagem pública tornara-se sinônimo de excelência educacional. No entanto, por trás dessa fachada exemplar, operava-se um esquema silencioso de corrupção: por anos, ele desviou milhões de dólares em verbas públicas, utilizando o orçamento escolar para financiar luxos pessoais. Diferente de Giges, Tassone não precisou desaparecer fisicamente, bastou ocultar-se moralmente, protegido por uma reputação que o tornara inquestionável. Eis o anel moderno: uma aura reputacional capaz de anestesiar a vigilância coletiva. Porém, o caso revela um aspecto ainda mais perturbador: não apenas a transgressão de um indivíduo, mas o silêncio cúmplice de coordenadores do conselho estudantil que, temendo a ruína do prestígio conquistado por anos, transformaram convicções em conveniências, cedendo ao pacto de invisibilidade. Escolheram ver, mas não enxergar. Assim, a injustiça deixou de ser apenas um ato e tornou-se uma escolha compartilhada. Em contraste com essa omissão, a aluna que atuava como jornalista no jornal estudantil, Rachel Bhargava, rompeu o véu. Movida não por poder, mas por inquietação, investigou registros financeiros e trouxe à luz o esquema. Sua atitude devolveu ao cenário a pergunta platônica em sua forma mais humana: o que fazemos quando a verdade ameaça aquilo que admiramos? Enquanto muitos temeram a ruína que o escândalo traria a instituição, ela, mesmo relutante, não se permitiu confundir lealdade com silêncio. Sua coragem moral mostrou que a justiça não se limita a denunciar o crime, mas a recusar o conforto da conveniência. Assim, Tassone replica Giges pela via do ocultamento e manipula administradores a realizarem a troca de suas convicções por conveniências. Já a estudante, ao expor o invisível, representou o oposto do anel - a consciência que não admite a impunidade. Esse contraste revela algo essencial: o mesmo talento que constrói reputações pode esconder ambições invisíveis, mas a vigilância ética nasce justamente daqueles que não tem nada a proteger além da verdade. A linha entre virtude e conveniência é tênue quando o poder oferece sombras, e por isso muitos acreditam permanecer intocáveis. O verdadeiro julgamento, porém, não está no aplauso público, mas na capacidade de enxergar, mesmo quando todos preferem desviar o olhar. Por fim, tanto o mito de Giges quanto o episódio em Roslyn expõem a fragilidade moral diante da liberdade sem testemunhas. A verdadeira ética não se prova na obediência pública, mas na lealdade silenciosa aos próprios princípios. É nesse ponto que surge o ideal de Eudaimonia: a realização plena não depende do reconhecimento alheio, mas da integridade preservada até o fim. Quem cede ao anel, antigo ou moderno, pode conquistar poder, mas jamais alcançará dignidade. Assim, diante do estigma das ambições humanas, permanece a pergunta fundamental: quem seríamos, se ninguém pudesse nos ver? A resposta define não apenas o caráter de um homem, mas o destino ético de toda uma sociedade.  Bibliografia: - The slippery slope of getting away with small stuff  [https://www.bbc.com/worklife/article/20140806-the-slippery-slope](https://www.bbc.com/worklife/article/20140806-the-slippery-slope) - Bad Education is a class act on ethically-grey educators  [https://deconrecon.asia/bad-education-is-a-class-act-on-ethically-grey-educators-review/](https://deconrecon.asia/bad-education-is-a-class-act-on-ethically-grey-educators-review/) - The high school in “Bad Education” rings true. I know because I taught there myself  [https://qz.com/1837891/hbos-bad-education-reviewed-by-a-former-roslyn-high-teacher](https://qz.com/1837891/hbos-bad-education-reviewed-by-a-former-roslyn-high-teacher) -Filme: Bad Education (2019)   "}]