[{"jcr:title":"Desvendando o Vale do Silício: reflexões sobre A Inventora (HBO) e a Farsa de Theranos","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:comunicação/cultura","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:economia","cq:tags_2":"area-de-conhecimento:gestão-e-negócios"},{"richText":"Talvez, e só talvez, Sócrates se decepcionaria com o triste espetáculo de superficialidade do século XXI, baseado na premissa “ter para ser”","authorDate":"17/12/2024 15h26","author":"João Guilherme Sulinscki","madeBy":"Por","tag":"area-de-conhecimento:comunicação/cultura","title":"Desvendando o Vale do Silício: reflexões sobre A Inventora (HBO) e a Farsa de Theranos","variant":"image"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":" [Uma mentira dá meia volta ao mundo antes que a verdade tenha tempo de vestir as calças.]  Winston Churchill     O mantra  “finja até conseguir”  ecoa pelos frios corredores de escritórios modernos — com um conceito minimalista que exala pouca ou quase nenhuma personalidade — e se apega às tão veneradas mentes empreendedoras, imersas na cultura clichê de vaidade e idealização do sucesso no Vale do Silício. No "mundo ideal" aqui descrito, o valor é determinado não pela substância, mas pela percepção. Ora,  Elizabeth Holmes  não poderia escapar do roteiro.    Em  A Inventora: À Procura de Sangue no Vale do Silício , a máxima que meu avô repetia ao assistir ceticamente a discursos de políticos finalmente fez sentido. Sim, vô,  “de boas intenções, o inferno está cheio.”  A proposta era revolucionária, de fato: o teste  Edison  quebraria as barreiras convencionais dos exames de sangue, prometendo realizar mais de 200 testes com apenas algumas gotas e a um custo reduzido. A promessa carregava consigo um ar de grandeza de espírito, digna de  Prêmio Nobel : democratização dos exames médicos, uma alternativa menos invasiva e mais acessível.    À primeira mão, pensei estar lendo um tema de redação do  ENEM , recheado de  marketing  persuasivo com um posicionamento de marca ímpar. Tudo isso orquestrado por uma flautista mágica que, como em um desenho animado, conseguiu enganar as pessoas para que dançassem ao seu ritmo. Os “dançarinos”, neste caso, eram investidores de grande porte que elevaram a  startup Theranos  a uma valorização de 9 bilhões de dólares. Nesta sinfonia de desventuras, o que parecia uma promissora invenção no setor médico revelou-se, ao fim e ao cabo, uma farsa teatral, cujo ato final desmoronou com a mesma rapidez e intensidade que fora encenado — e, para ser sincero, faltaram, no mínimo, alguns ensaios —, com direito a documentário no  HBO  e de estudos de caso em aulas de  Pensamento Crítico e Ética .    Seguindo a analogia teatral, confesso que a personagem de Elizabeth não me pareceu tão original. Além da falta de personalidade e da obsessão em emular  Steve Jobs  — no estilo de vestir, agir e falar de seu declarado ídolo —, o retrato da inventora no documentário evocou uma sensação de  déjà vu , remetendo-me ao roteiro de  O Talentoso Ripley (1999) , onde a manipulação do protagonista se manifesta na imitação ao comportamento e às características daqueles que ele deseja imitar. De maneira análoga, Holmes recorreu à retórica e à imagem de Jobs para forjar sua própria  persona  de sucesso. A diferença, porém, é que, enquanto Ripley é produto de uma ficção que explora a complexidade da identidade no cinema, a inventora, na realidade, promoveu uma ideia falsa que iludiu investidores e a mídia — não se viu Ripley posando na capa de revistas como  Forbes  ou  Vanity Fair . Sua história assemelha-se ao mito do  Anel de Giges  descrito por Platão e refletido na trilogia de  Tolkien , onde um anel confere invisibilidade e corrompe seu portador. Similarmente, Holmes, revestida na invulnerabilidade da imagem que construiu, não apenas negligenciou a transparência e honestidade intelectual, como também evitou a fiscalização, violando, assim, princípios  deontológicos da ética .    Platão descreve Sócrates em  Apologia de Sócrates , como o único que, ao contrário dos outros, não presume saber o que não sabe, já que compreende que o verdadeiro conhecimento começa com a aceitação da própria limitação; ao abraçar sua ignorância e expor as fragilidades da opinião por meio da maiêutica, torna-se o mais sábio de todos (que dizia nada saber). Holmes, intoxicada pela fama e pautada pelos devaneios de infância, demonstra que sua ignorância, ao invés de levar ao crescimento, conduz ao fracasso; sua ascensão, embora imponente à primeira vista, é na verdade um trono de pó: um castelo de areia, uma construção efêmera que, quando confrontada com a realidade e submetida ao escrutínio público, se desintegra rapidamente.    Talvez, e só talvez, Sócrates se decepcionaria com o triste espetáculo de superficialidade do século  XXI , baseado na premissa  “ter para ser”,  que permitiu a muitas  Elizabeths  (e  Ripleys ), envoltos em mentes empreendedoras de frios escritórios minimalistas, comerem de garfo e faca enquanto se portam dentro da etiqueta de um sucesso ilusório, arrotando frases de efeito e soluções mágicas que, lamentavelmente, enganam desavisados. Ah, se tivéssemos mais “Sócrates” para desafiar as falsas certezas! Seria como um antídoto… eureca! Mas esta é apenas a opinião de um estudante.    Referências Bibliográficas:    GIBNEY, Alex.  A Inventora: À Procura de Sangue no Vale do Silício.  [ Documentário ]. EUA: HBO, 2019.    MINGHELLA, Anthony.  O Talentoso Ripley.  [ Filme ]. Produção de William Horberg e Tom Sternberg. EUA: Miramax Films, 1999.    PLATÃO.  A República.  Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. 2. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2007.    PLATÃO.  Apologia de Sócrates.  VirtualBooks, 2003. 32 p. Disponível em:  [https://domainpublic.wordpress.com/wp-content/uploads/2022/01/plataoapologia.pdf](https://domainpublic.wordpress.com/wp-content/uploads/2022/01/plataoapologia.pdf) . Acesso em: 27 ago. 2024.  "}]