[{"jcr:title":"Os caminhos para financiar a adaptação climática no Brasil","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/sustentabilidade","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/urbanismo","cq:tags_2":"centro-de-conhecimento:laborat-rio-arq--futuro-de-cidades","cq:tags_3":"tipos-de-conteudo:acontece-no-insper"},{"richText":"Especialistas de bancos e da academia debateram soluções financeiras para enfrentar os impactos de um mundo 2°C mais quente","authorDate":"15/08/2025 10h13","madeBy":"Por","tag":"centro-de-conhecimento:laborat-rio-arq--futuro-de-cidades","title":"Os caminhos para financiar a adaptação climática no Brasil","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"No terceiro painel do  [evento](https://www.insper.edu.br/pt/eventos/2025/08/cidade-2c-adaptacao-urbana-risco-climatico-e-financiamento-em-um-mundo-em-aquecimento)  Cidade +2°C, realizado em 5 de agosto no Insper, especialistas discutiram os caminhos para financiar a adaptação urbana às mudanças climáticas — uma pauta ainda incipiente no debate público, mas cada vez mais urgente. Moderado por Adriano Borges da Costa e Sérgio Avelleda, ambos do [Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro](https://www.insper.edu.br/pt/pesquisa/centro-de-estudos-das-cidades) do Insper, o  [painel](https://www.youtube.com/live/h64smLB5GPM)  contou com quatro vozes de referência: Luciana Costa (BNDES), Milton Maluhy Filho (Itaú Unibanco), Andrea Minardi (Insper) e Juliano Assunção (PUC-Rio e Climate Policy Initiative).   Adriano Borges abriu o painel enfatizando que a adaptação climática, historicamente tratada como secundária frente à mitigação, precisa agora ocupar o centro das políticas públicas, já que os efeitos do aquecimento global são realidade. “Já vivemos em um cenário mais quente. Não se trata mais apenas de mitigar, mas de adaptar — e precisamos de um plano concreto para isso”, afirmou. Ele defendeu a criação de um guia nacional de ações prioritárias para adaptação — nos moldes de uma ODS — com metas, estimativas de custo e definição de responsabilidades, como sugerido na COP30. Para Borges, a questão central é como financiar essa adaptação, entender quais recursos estão disponíveis e identificar os atores — públicos, privados ou comunitários — que devem arcar com os custos, sobretudo diante dos impactos desiguais das mudanças climáticas sobre diferentes grupos sociais e raciais.     Adaptação como investimento estratégico   Luciana Costa, diretora do BNDES, falou sobre o papel do banco no financiamento da transição energética e da adaptação climática, destacando as vantagens comparativas do Brasil no cenário global. Com matriz energética majoritariamente renovável e vastos recursos naturais, o país já avançou em áreas onde outras economias ainda pretendem chegar. “O Brasil está onde países como Índia, China, Estados Unidos e Europa querem estar a partir de 2040”, disse. No entanto, Luciana alertou que, por ser um país tropical, o Brasil é mais vulnerável aos impactos do aquecimento global e precisa agir com rapidez e estratégia. Segundo ela, a transição energética é uma oportunidade de desenvolvimento econômico, mas também intensiva em capital — o que exige soluções financeiras inovadoras e coordenação entre setor público e privado.   Luciana também explicou como o BNDES vem ampliando sua atuação, dobrando o volume anual de aprovação de crédito para infraestrutura e energia e desenvolvendo novos instrumentos financeiros. “O BNDES atua como um selo de qualidade, o que atrai o mercado e dá segurança aos investidores”, destacou. Ela enfatizou que, enquanto os novos projetos de infraestrutura já podem nascer com critérios de adaptação embutidos, o grande desafio está na readequação da infraestrutura já existente. Para isso, será necessário combinar diferentes fontes de financiamento, incluindo recursos públicos, capital privado e aportes concessionais. “A conta precisa fechar, e muitos projetos de adaptação ainda não têm como se sustentar sozinhos. Esse é o nosso maior desafio hoje.”     Bancos como motores da transição   O CEO do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, destacou que a transição climática é uma agenda estratégica não apenas para o setor financeiro, mas para toda a sociedade. Segundo ele, o sistema financeiro tem o papel central de mobilizar capital e acelerar soluções sustentáveis. Desde 2019, a instituição busca se posicionar como um “banco da transição climática” e já destinou R$ 400 bilhões a setores de impacto positivo, meta atingida antes do previsto. Agora, o Itaú ampliou seu compromisso para R$ 1 trilhão até 2030, reforçando seu envolvimento com pautas ambientais, sociais e de governança (ESG), que, segundo Maluhy, “não são modismo — nunca foram”.    Apesar dos avanços na mitigação, o executivo alertou para a urgência de incorporar a adaptação ao centro dos debates e políticas. “A adaptação não é um tema simples, mas se não a enfrentarmos, não vamos evoluir como deveríamos”, afirmou. Maluhy ressaltou que, embora ainda seja difícil medir a eficácia e a viabilidade de projetos adaptativos, o sistema financeiro já contribui para essa agenda ao financiar setores como agronegócio, transporte e energia, que incluem elementos de resiliência. Para ampliar esse impacto, ele defendeu o fortalecimento de políticas públicas, o desenvolvimento de taxonomias climáticas e um plano nacional de adaptação. O executivo também destacou a importância da COP30 e da colaboração entre setores: “Essa não é uma corrida com vencedores; o inimigo é o mesmo. Precisamos trabalhar de mãos dadas, setor público e privado.”     Papel da academia na geração de soluções   A professora Andrea Minardi, por sua vez, ressaltou o papel fundamental da academia na formação de profissionais capazes de enfrentar os desafios da adaptação climática com criatividade e visão sistêmica. Para ela, é essencial formar pessoas com sólida base técnica em finanças tradicionais e, ao mesmo tempo, sensibilidade para questões ambientais, sociais e de governança. A docente defendeu a transversalidade do tema nas grades curriculares e a necessidade de produzir conhecimento prático, por meio de casos reais e modelagens baseadas em dados, que permitam simular soluções antes de implementá-las. “É muito mais barato experimentar com dados do que esperar o problema estourar”, alertou, reforçando que a adaptação ainda é pouco discutida até mesmo nos fóruns globais de finanças sustentáveis.   Andrea também compartilhou experiências de projetos em andamento, como o mapeamento de estruturas  blended  e uma iniciativa de resiliência hídrica no Cerrado, voltada para cafeicultores e financiada com recursos concessional. Segundo a professora do Insper, esses projetos podem ser multiplicados ao incorporar fontes alternativas de financiamento, como receitas municipais (por exemplo, IPTU), para viabilizar pagamentos por serviços ambientais. Ela também mencionou instrumentos inovadores como os  cat bonds  (títulos de catástrofe), que poderiam ser utilizados por municípios e estados como forma de garantir liquidez diante de eventos climáticos extremos. Para Andrea, a academia tem o espaço e os recursos para testar essas ideias, construir soluções interdisciplinares e contribuir diretamente para o avanço da adaptação climática no país.     Adaptação como prioridade inevitável   Juliano Assunção, economista da PUC-Rio e diretor executivo do Climate Policy Initiative, foi enfático ao afirmar que a adaptação deve ser a principal pauta climática do presente. “A meta de 2°C já ficou para trás. Estamos em trajetória de 2,7°C. A questão central hoje é como vamos conviver com esse novo mundo”, declarou. Ele propôs organizar a agenda climática em três dimensões: mitigação, adaptação e perdas e danos — sendo esta última a motivação real por trás das demais. Defendeu que estruturas para lidar com eventos extremos precisam estar pré-estabelecidas, e que a adaptação deve ser integrada desde já às políticas públicas e aos projetos de infraestrutura.   O economista também enfatizou que, diferentemente da mitigação — que exige ação coordenada global —, a adaptação e os impactos climáticos são essencialmente locais. Por isso, os recursos financeiros necessários devem ser mobilizados internamente, por meio de políticas públicas e orçamentos nacionais. Para ele, investir em adaptação é também uma forma de reduzir o impacto fiscal futuro decorrente de desastres climáticos. Além disso, políticas de adaptação nem sempre exigem novos recursos: mudanças regulatórias, como elevar padrões de construção, podem ser suficientes em muitos casos. Assunção destacou também a importância de mapear riscos e capacidades locais antes de pensar em soluções e financiamento, sugerindo uma lógica de ação em três etapas — diagnóstico, soluções e implementação — na qual o financiamento aparece apenas na etapa final.     Desafios, oportunidades e soluções   Na segunda parte do painel, os moderadores abriram espaço para perguntas e aprofundaram pontos sensíveis. Sérgio Avelleda questionou Luciana Costa sobre as barreiras enfrentadas pelo BNDES para operar com municípios e inovar em estruturas financeiras. Ela explicou que o banco precisou reverter décadas de práticas consolidadas, como o uso exclusivo do modelo Finem (financiamento a empreendimentos), para incorporar instrumentos mais flexíveis como debêntures e  project finance . “Hoje, nosso desafio não é apenas técnico, é institucional. Precisamos convencer órgãos de controle, prefeituras e procuradorias a saírem do modelo tradicional”, afirmou.   Adriano Borges perguntou a Juliano Assunção o que motivaria, de fato, ações de adaptação em escala. Ele respondeu que o incentivo está na gestão de riscos e no impacto orçamentário futuro. “É um investimento preventivo que evita perdas humanas, econômicas e fiscais. Mas a motivação precisa vir da política pública, não só do mercado.”    Andrea Minardi ressaltou a importância da prestação de serviços ambientais como instrumento para apoiar comunidades e gerar renda, especialmente quando associada a créditos de carbono e atividades econômicas sustentáveis. Ela mencionou que já existem iniciativas nesse sentido, mas acredita haver espaço para maior criatividade e inovação no uso desses mecanismos. Segundo a professora do Insper, esses pagamentos por serviços ambientais podem ser incorporados às estratégias de financiamento como forma de reduzir custos ou até mitigar riscos, ampliando a atratividade dos projetos. “Vamos ter que cada vez mais pensar fora da caixa”, afirmou, reforçando a necessidade de soluções inventivas para enfrentar os desafios da adaptação climática.   Luciana Costa destacou que o BNDES já integra critérios de adaptação climática na estruturação de novos projetos e concessões, o que facilita a entrada do capital privado desde o início. O banco tem hoje cerca de R$ 300 bilhões em projetos em estruturação, incluindo obras novas e ampliações. Ela também ressaltou o potencial da mobilidade urbana como vetor de transformação, com estudos apontando espaço para até R$ 800 bilhões em investimentos em sistemas de alta capacidade. Compartilhando sua confiança no papel do Brasil nessa agenda, afirmou: “Eu ouvi um gestor dizer o seguinte: quem está no business de fashion tem que estar na França, e quem está no business de clima tem que estar no Brasil”.   Milton Maluhy apontou que os bancos não podem ser os únicos agentes dessa transformação: “O que precisamos agora é execução. Já temos projetos, marcos legais, metas. É hora de implementar, e precisamos fazer isso de forma coordenada, pública e privada, sem perder o foco”.   Ao final do painel, os participantes concordaram que a adaptação climática deve deixar de ser um tema periférico e passar a ocupar o centro do planejamento urbano, econômico e financeiro do país. Os painelistas também enfatizaram a necessidade de colaboração entre governos, empresas, universidades e sociedade civil para financiar a adaptação climática em escala. Como resumiu Juliano Assunção: “Adaptar-se é inevitável. A escolha que temos é se vamos fazer isso de forma planejada ou às pressas, depois da próxima catástrofe”.  "}]