[{"jcr:title":"O planejamento urbano como pacto social","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/urbanismo","cq:tags_1":"centro-de-conhecimento:laborat-rio-arq--futuro-de-cidades"},{"richText":"Em  Arquitetura e urbanismo: um percurso coletivo , Nadia Somekh revisita sua trajetória passada e monta um guia analítico para o futuro das cidades brasileiras","authorDate":"29/05/2026 14h33","author":"Rebecca Dantas*","madeBy":"Por","tag":"centro-de-conhecimento:laborat-rio-arq--futuro-de-cidades","title":"O planejamento urbano como pacto social","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"Em diferentes pontos do planeta, as cidades concentram as maiores urgências do nosso tempo: a crise climática, o déficit habitacional, a desigualdade que se inscreve no próprio chão das metrópoles. É nesse cenário que a arquitetura e o urbanismo são convocados a ir além do mero projeto — e é também nesse contexto que o livro  Arquitetura e urbanismo: um percurso coletivo , de Nadia Somekh, encontra sua razão de ser. Mais do que um registro de trajetória, a obra propõe uma leitura da cidade contemporânea a partir de quem a habitou em suas múltiplas dimensões: como gestora, como pesquisadora e como líder institucional. Desde as primeiras linhas, Nadia Somekh delimita o território que os leitores irão percorrer. “Este é um livro-manifesto”, ela declara — e essa clareza de intenção atravessa cada página. A obra compartilha mais de cinco décadas de atuação no campo da arquitetura e do urbanismo brasileiro, organizadas em torno do que a autora chama de três chapéus: o primeiro, na gestão pública — na presidência do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), na direção do Departamento do Patrimônio Histórico de São Paulo (DPH-SP), na presidência da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb) e em diversos cargos na gestão pública; o segundo, na pesquisa e na vida acadêmica, sobretudo na Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie; o terceiro, na valorização profissional da categoria, no Instituto de Arquitetos do Brasil (IABsp), na União Internacional de Arquitetos (UIA) e na presidência do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR), cargo que ocupou como primeira mulher eleita para a função. Três campos distintos que o livro trata não como divisões, mas como dimensões complementares de um mesmo projeto. Não é detalhe biográfico que Somekh tenha sido a primeira mulher a presidir o CAU/BR — é dado estrutural. Em um campo no qual as mulheres arquitetas e urbanistas são maioria nas salas de aula, porém ainda ocupam com sub-representação os espaços de liderança institucional, cada um dos cargos que ela exerceu carrega um significado que vai além da trajetória individual.  A obra não trata esse fato como conquista pessoal e sim como sintoma de um campo que precisa se transformar, e como argumento para que novas vozes — diversas, plurais — ocupem os lugares onde as decisões sobre a cidade são tomadas. "Embora o texto esteja, na maioria das vezes, na primeira pessoa do singular, sempre produzi dentro de um coletivo", escreve Somekh na introdução. O coletivo, aqui, não é retórica — é método e é condição. É a partir dele que a autora constrói sua defesa do protagonismo de uma profissão que a contemporaneidade ainda subestima. A formação generalista da arquitetura e do urbanismo, que tantos tratam como limitação, Somekh apresenta como virtude estrutural. "A nossa formação, ainda generalista, propõe visões desfragmentadas, na contramão do que estamos assistindo", observa ela. E desdobra: "Nós sabemos produzir edifícios que constroem cidades mais sustentáveis e menos desiguais. Nós sabemos promover a saúde das moradias e, portanto, das populações residentes. Nós sabemos produzir espaços públicos democráticos e acessíveis e ainda preservar a memória da sociedade para a construção de um futuro sustentável." A formação que empresta da economia, da sociologia, da geografia e da filosofia para compor seu instrumental é a mesma que permite enxergar a cidade como totalidade — e essa capacidade, o livro argumenta, se torna cada vez mais necessária. Uma segunda camada do percurso diz respeito à relação entre arquitetura e regulação. Ao resgatar importantes marcos teóricos da Escola de Sociologia Urbana consagrada na França — Manuel Castells, Christian Topalov e Jean Lojkine —, Somekh situa o Estado como agente produtor que age normativamente e investe na infraestrutura que viabiliza ou restringe o capital. A legislação urbanística, ela sublinha, historicamente favorece o setor imobiliário — fenômeno que nomeia de “urbanismo corporativo”, em contraposição ao urbanismo social notabilizado na Colômbia e que ecoa no Brasil. Sua análise da verticalização paulistana, investigada desde os anos 1970, ilustra esse argumento com precisão. A verticalização, definida como a multiplicação do solo urbano permitida pelo elevador, não é processo tecnológico neutro: é engrenagem que, sem coordenação pública redistributiva, tende a excluir os mais pobres e a elitizar bairros por meio da própria regulação urbanística e dos coeficientes de aproveitamento. O grande aprendizado dessa trajetória, anota a autora, foi perceber como é difícil, contudo, não impossível, a mediação entre setores distintos — o imobiliário, o dos ecologistas e o dos movimentos populares — na construção de um ideário comum. Esse quadro dialoga diretamente com o dado mais urgente do manifesto: são 26,5 milhões de moradias precárias no Brasil, muitas delas sem banheiro. Enquanto o mercado sofistica suas ferramentas, a imensa maioria do tecido urbano nacional se autoproduz na informalidade, à margem da assistência técnica e vulnerável às mudanças climáticas. Pesquisa encomendada ao Datafolha e publicada em 2022, durante a gestão de Somekh no CAU/BR, revelou que 82% das habitações no Brasil são construídas sem a presença de arquitetos ou engenheiros. A resposta que a obra defende é concreta: a implementação efetiva de uma Política Nacional de Assistência Técnica, a partir da Lei de Assistência Técnica em Habitação de Interesse Social (Lei nº 11.888/2008) — que garante a famílias com renda de até três salários mínimos que recebam assistência técnica pública e gratuita para a elaboração de projetos, acompanhamento e execução de obras necessárias para construção, reforma e regularização fundiária de suas residências —, como contraposição ao modelo excludente. O livro abriga também uma dimensão temporal e memorial. A valorização da memória coletiva, destaca a autora, pode reconstituir nossa história em busca de um futuro de melhor qualidade urbana — reconstituindo o patrimônio histórico como elemento de inclusão social diante dos desafios de uma contemporaneidade líquida. Sua preocupação com a transformação de áreas em reestruturação produtiva, que surgiu com o Eixo Tamanduatehy em 1998, permanece atual: a cidade que muda de função exige leituras que articulem passado e futuro. A saída para a crise, defende a obra, requer esforço institucional que articula poder público, sociedade civil e iniciativa privada em torno da questão urbana. Somekh aponta a escala local como terreno fértil — cerca de 70 a 80% do PIB é produzido localmente, seja em nível subnacional, regional ou municipal. E nomeia o urbanismo cooperativo como horizonte, em oposição ao corporativo: um urbanismo voltado à mobilização social para efetivar as mudanças que o Brasil e o resto do mundo demandam com urgência. Para quem atua na interseção entre habitação, regulação e desenvolvimento urbano, a leitura deste livro ressoa como convocação: o território não é apenas desenhado — ele é pactuado.  Arquitetura e urbanismo: um percurso coletivo  funciona, assim, não como um olhar sobre um percurso passado. Seu papel é o de um guia analítico para o futuro das metrópoles brasileiras — e de um lembrete de que o planejamento das cidades não deve ser visto como um produto finalizado e sim como um pacto, uma concertação surgida do encontro de diferentes camadas da sociedade, em direção ao bem comum. * Rebecca Dantas é coordenadora-adjunta do Núcleo Habitação, Real Estate e Regulação do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper"},{"fileName":"Capa livro_Arquitetura e urbanismo_Nadia Somekh.png"},{"text":"ARQUITETURA E URBANISMO: UM PERCURSO COLETIVO, de Nadia Somekh Romano Guerra Editora, 272 páginas, R$ 110,00."}]