[{"jcr:title":"Entre memória, realidade e imaginação","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/urbanismo","cq:tags_1":"centro-de-conhecimento:laborat-rio-arq--futuro-de-cidades","cq:tags_2":"area-de-conhecimento:comunicação/cultura"},{"richText":"As cidades invisíveis , clássico de Italo Calvino, convida a uma reflexão sobre como olhamos o mundo urbano","authorDate":"30/04/2026 13h45","author":"Heloisa Loureiro Escudeiro*","madeBy":"Por","tag":"centro-de-conhecimento:laborat-rio-arq--futuro-de-cidades","title":"Entre memória, realidade e imaginação","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"azul marinho / vermelho / turquesa"},{"@stringArray@variations_0":"azul_marinho_rosaturquesa"},{"jcr:title":"azul marinho / rosa / turquesa","name":"azul_marinho_rosaturquesa","jcr:description":"azul marinho / rosa / turquesa"},{"synchronizeWithVersion_0":"themeName:e1d1d653-cff0-4cbb-bae9-7676f42d5f08","synchronizeWithVersion_1":"titleFontColor:e1d1d653-cff0-4cbb-bae9-7676f42d5f08","synchronizeWithVersion_2":"titleBackgroundColor:e1d1d653-cff0-4cbb-bae9-7676f42d5f08","synchronizeWithVersion_3":"thinLineFontColor:e1d1d653-cff0-4cbb-bae9-7676f42d5f08","synchronizeWithVersion_4":"additionalDataFontColor:e1d1d653-cff0-4cbb-bae9-7676f42d5f08","synchronizeWithVersion_5":"linkFontColor:e1d1d653-cff0-4cbb-bae9-7676f42d5f08","synchronizeWithVersion_6":"linkHoverFontColor:e1d1d653-cff0-4cbb-bae9-7676f42d5f08","synchronizeWithVersion_7":"backgroundColor:e1d1d653-cff0-4cbb-bae9-7676f42d5f08","synchronizeWithVersion_8":"gradientColor:e1d1d653-cff0-4cbb-bae9-7676f42d5f08","synchronizeWithVersion_9":"buttonFontColor:e1d1d653-cff0-4cbb-bae9-7676f42d5f08","synchronizeWithVersion_10":"buttonBackgroundColor:e1d1d653-cff0-4cbb-bae9-7676f42d5f08","synchronizeWithVersion_11":"tagFontColor:e1d1d653-cff0-4cbb-bae9-7676f42d5f08","synchronizeWithVersion_12":"tagBackgroundColor:e1d1d653-cff0-4cbb-bae9-7676f42d5f08"},{"themeName":"azul marinho / vermelho / turquesa"},{"themeName":"azul marinho / rosa / turquesa"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"Publicado originalmente em 1972, na Itália, e lançado pela primeira vez no Brasil em 1990, com tradução de Diogo Mainardi,  As cidades invisíveis , de Italo Calvino (1923-1985) atravessa gerações como uma obra que se renova a cada leitura. Não por acaso, tornou-se presença constante em cursos de arquitetura, urbanismo, filosofia, literatura e história. Mais de meio século depois de chegar às livrarias, o livro permanece, elevado à condição de um clássico que desafia definições, mobilizando interpretações diversas.   Partindo de personagens históricos reais, Calvino — há décadas considerado um monumento das letras italianas — constrói uma narrativa ficcional e profundamente imaginativa. O veneziano Marco Polo e o mongol Kublai Khan existiram; o diálogo entre eles, no entanto, é fruto da criação literária do autor. É justamente nessa tensão entre história e fantasia que reside uma das forças da obra, atravessado por imagens, tecnologias e inquietações que o aproximam muito mais de nós do que do século XIII, período em que seus personagens viveram.   Em  As cidades invisíveis , Kublai Khan surge como o imperador que busca compreender os territórios sob seu domínio. Marco Polo, em contraponto, é aquele que viaja, observa, imagina e narra esse território. Sua tarefa é apresentar ao imperador cidades que ele governa politicamente, porém jamais conheceu de fato. Para isso, em vez de mapas ou descrições objetivas, Marco Polo oferece relatos que misturam cenários físicos, hábitos, símbolos, afetos e lembranças.   Nesse sentido, os trechos dedicados aos encontros entre os dois personagens são fundamentais. No início, Marco Polo e Kublai Khan sequer compartilham a mesma língua, e a relação entre eles é marcada por desconfiança e incompreensão. Aos poucos, entretanto, passam a se entender melhor, transformando a descrição das cidades em um diálogo sobre memória, desejo e imaginação — cada um com suas perspectivas e limitações.   Ainda assim, embora a construção dessa relação seja fundamental, certamente o corpo principal do livro é dedicado às cidades. As 55 narradas por Marco Polo estão organizadas em categorias como memória, desejo, trocas, cidades contínuas e cidades ocultas. Cada uma recebe um nome fictício e uma descrição singular, que pode partir tanto de sua forma física e concreta quanto de seus habitantes, costumes ou acontecimentos. Apesar disso, existe algo de “borrado” em todas elas. As descrições lembram sonhos dos quais guardamos apenas fragmentos: uma ponte, um mercado, uma escada, uma sensação de medo ou encantamento. Ao final, as cidades acabam se parecendo um pouco, ou compartilhando certa generalidade, ou ainda múltiplas facetas de uma mesma experiência urbana.   Talvez por isso  As cidades invisíveis  permita modos tão diversos de leitura. Pode-se acompanhar linearmente o desenvolvimento do diálogo entre Marco Polo e Kublai Khan junto à narrativa das cidades. Mas, ao mesmo tempo, pode-se retornar às cidades por sua categoria ou mesmo ler a narrativa aos poucos, como uma obra de cabeceira. Em qualquer caso, a experiência é profundamente subjetiva: cada leitor será atravessado por cidades distintas, identificando nelas referências próprias — boas ou não.   Essa abertura vem da sensibilidade que estrutura o livro. Ao narrar suas cidades, Marco Polo fala sempre, em alguma medida, de Veneza. Sua cidade de origem aparece dispersa nas descrições, mesmo quando não é nomeada. Com o leitor acontece algo semelhante. A cada cidade descrita por Calvino, reconhecemos um pouco da cidade de onde viemos, daquela em que vivemos ou daquela que gostaríamos de encontrar. Pode ser São Paulo, Cidade do México, Lisboa ou nenhuma delas em particular — de qualquer maneira, algo nos toca.   Não é difícil compreender o porquê. Afinal, a cidade de onde viemos dita muito a forma como observamos as outras, o que nos chama atenção, o que nos causa desconforto ou encantamento. Quanto mais ampliamos nossos repertórios urbanos, mais transformamos também nossa maneira de sentir e interpretar os lugares. Assim, As cidades invisíveis talvez seja menos uma obra sobre cidades imaginárias e mais um livro sobre como aprendemos a ler as cidades.   Talvez esteja aí uma de suas contribuições mais bonitas: dar flexibilidade e poesia ao modo como enxergamos a vida urbana. Saber ler as cidades é fundamental para viver melhor nelas. Ao final da obra, Calvino — nascido circunstancialmente em Cuba, onde seus pais, italianos, trabalhavam e permaneceram apenas por pouco tempo mais — sugere que, diante do “inferno dos vivos”, há quem simplesmente o aceite e deixe de percebê-lo. Todavia, há também quem tente reconhecer, em meio a ele, o que não é inferno, preservando-o e abrindo-lhe espaço. A formulação é poderosa porque lembra que, mesmo em meio ao caos, às durezas e às contradições urbanas, ainda há brechas de beleza e sentido — desde que se aprenda a olhar. * Heloisa Loureiro Escudeiro é coordenadora-adjunta do Núcleo Arquitetura e Cidade do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper. "},{"fileName":"Capa livro_As cidades invisíveis.png","alt":"Capa do livro"},{"text":"AS CIDADES INVISÍVEIS , de Italo Calvino Companhia das Letras 152 páginas R$77,90."}]