[{"jcr:title":"Consórcio Brasil-Holanda vai transformar escola de Heliópolis em espaço verde frente ao desafio climático","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/urbanismo","cq:tags_1":"centro-de-conhecimento:laborat-rio-arq--futuro-de-cidades"},{"richText":"Pesquisadores do Centro de Estudos das Cidades estão colaborando com o projeto que busca reduzir os impactos das ondas de calor sobre a saúde humana","authorDate":"29/06/2026 08h38","author":"Leandro Steiw","madeBy":"Por","tag":"centro-de-conhecimento:laborat-rio-arq--futuro-de-cidades","title":"Consórcio Brasil-Holanda vai transformar escola de Heliópolis em espaço verde frente ao desafio climático","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"A literatura científica mostra que os extremos de calor são uma ameaça silenciosa à saúde pública. Quase 40% das mortes na estação quente estão associadas às mudanças climáticas causadas pelas atividades humanas, muito mais que eventos de deslizamentos. O impacto, no entanto, não é homogêneo para todas as populações. Eles são maiores em territórios densos e vulnerabilizados, onde a falta de áreas verdes e de infraestrutura de resfriamento aprofunda as desigualdades ambientais e a injustiça climática. Parte da resposta de adaptação à nova realidade climática está na aplicação da tríade “verde, saúde e clima” no ambiente escolar, uma das motivações da pesquisa-ação que será feita na EMEF (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, lançada no dia 8 de maio, em Heliópolis, na capital paulista. Pesquisadores do  [Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper](https://www.insper.edu.br/pt/pesquisa/centro-de-estudos-das-cidades)  (Insper Cidades) integram a iniciativa do consórcio GreenCare4Health, liderado pelos professores Luiz Fernando Ferraz, da USP (Universidade de São Paulo), e Víctor Muñoz Sanz, da Universidade de Tecnologia Delft, da Holanda. Como já é característico nos projetos do Insper Cidades, o consórcio reúne uma variedade de atores do território, terceiro setor e poder público: a Unas (União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região), a prefeitura de São Paulo através das Secretaria Municipal de Educação (SME), a DRE de Educação e Secretaria Executiva de Mudanças Climáticas (Seclima), a associação Iclei (Governos Locais pela Sustentabilidade),  o Hospital Sírio-Libanês e, da Holanda, a Escola de Políticas e Gestão da Saúde e o Centro Médico da Universidade Erasmus de Roterdã, o Laboratório de Calor da Universidade de Ciências Aplicadas de Roterdã, a plataforma Veldacademie e a província da Holanda do Sul. O financiamento é do NWO (Conselho Holandês de Pesquisa) e da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). A diversidade e a quantidade de atores refletem a complexidade do desafio e de traduzir pesquisa em impacto real nas cidades. O projeto inclui um piloto em territórios de alta vulnerabilidade socioambiental que vai transformar a EMEF mediante o uso de Soluções baseadas na natureza (SbN), com a intenção de fortalecer as comunidades escolares na gestão de espaços verdes saudáveis e adaptados ao clima. Simultaneamente, a equipe avaliará os impactos na saúde em diferentes escalas, da macroescala na cidade à microescala na escola, e desenvolverá ferramentas de replicabilidade autossustentáveis, ampliando a qualidade de vida e a resiliência urbana. O Centro de Estudos das Cidades poderá contribuir com toda a sua experiência de trabalhos de campo. Segundo Paulina Achurra, coordenadora institucional do Insper Cidades e pesquisadora do consórcio, esse é o primeiro projeto de pesquisa do Laboratório patrocinado pelas grandes agências financiadoras do Brasil e da Holanda. Em 2022, a Fapesp selecionou o projeto Making Green Work for Health (Criando verde urbano para a saúde, em tradução livre) para um Sprint, subsidiando o intercâmbio entre acadêmicos de instituições paulistas de ensino e pesquisa e parceiros do exterior. O projeto tinha como pesquisador responsável Paulo Saldiva, coordenador da Iniciativa Saúde Urbana do Centro de Estudos das Cidades e professor da Faculdade de Medicina da USP. Nos dois anos seguintes, três sessões de Sprint foram realizadas na USP, na Universidade Delft e no Insper, embasadas na ideia de que não basta plantar árvores nos centros urbanos — precisamos garantir que, ao mesmo tempo, o verde urbano seja saudável e promova a saúde humana. Disso decorre a pergunta: “Quem cuida do verde?” E também a necessidade de pensar em novos modelos de governança que deem conta do desafio. O foco do debate foi a consolidação de uma proposta de políticas públicas, com abordagem transversal e baseada na ciência de implementação. A pesquisa-ação que será feita em Heliópolis nasceu dessa intenção. Combate a doenças crônicas Os pesquisadores entendem que o acesso a espaços públicos verdes e saudáveis atua como prevenção e suporte no combate a doenças crônicas, beneficiando tanto a saúde humana quanto a do planeta. A questão a responder é esta: “Como criar espaços verdes em territórios já adensados onde não existem espaços livres?” E na sequência dela: “Quem cuida desses espaços e qual é o valor social, ambiental e econômico do cuidado do verde público, acessível e equitativo?” Desde então, o GreenCare4Health aborda os impactos do calor extremo na saúde em bairros densos e vulnerabilizados, promovendo conhecimento e ferramentas para transformar a infraestrutura escolar em lugares verdes, refúgios climáticos e espaços de aprendizagem com a natureza. Paulo Saldiva lembra que diversos estudos demonstram que os extremos de temperatura comprometem a saúde das pessoas, oscilando desde o desconforto até a necessidade de intervenção médica, e influenciam as taxas de mortalidade. As ondas de frio e calor ajudam a espalhar doenças infecciosas e a contaminar o ambiente depois dos desastres climáticos, por exemplo. Há também o efeito psicológico sobre as vítimas dos eventos extremos. “Pessoas falecem de infarto do miocárdio ao perceber que perderam tudo numa enchente, e o impacto dessas tragédias também pode culminar em doenças psiquiátricas”, diz Saldiva.  Laura Janka, pesquisadora do consórcio, conta que o grupo constatou a necessidade de descobrir o impacto efetivo do verde sobre a saúde — o qual, embora conhecido, não é mensurado com dados na microescala, como se pretende fazer na EMEF Gonzaguinha, a escola de Heliópolis. Outra condição considerada pelo consórcio é que o acesso ao verde e à saúde é desigual nos centros urbanos, o que exige soluções específicas para cada região. As escolas e os postos de saúde são equipamentos que criam proximidade entre as pessoas nos territórios, explica Laura. Dessa forma, transformar uma escola num ponto verde é estrutural e estratégico. “A grande novidade do GreenCare4Health é tratar como laboratório essa transformação das escolas em espaços verdes”, destaca a especialista. “Será um laboratório porque vamos criar infraestruturas verdes e inovadoras e medir o impacto sobre a saúde. Também porque queremos mudar a governança desse espaço. Não se trata de apenas retirar o pavimento e plantar árvores, mas permitir que essas árvores estejam disponíveis para toda a comunidade.” Uma das novidades do projeto está na riqueza de dados sobre mortes e autópsias na cidade de São Paulo, que vão ajudar a estabelecer vínculos entre óbitos e ondas térmicas. De acordo com Saldiva, a capital paulista — onde cerca de 180pessoas morrem de causa natural por dia — tem o maior serviço da autópsia médica do mundo. Esse serviço de verificação de óbitos funciona na Faculdade de Medicina da USP. “A gente recebe um contingente de vulneráveis, que compulsoriamente, por ordem da polícia, tem que ter o seu atestado de óbito determinado por autópsia”, comenta o professor da USP. Saldiva complementa: “A autópsia é o meio mais preciso para se identificar as doenças. Porque você não obtém só a causa imediata do óbito, mas sabe se a pessoa era obesa ou não, se era diabética, se tinha câncer, se era idosa, se estava acamada etc. O laudo da autópsia registra ainda o código de endereçamento postal da residência e uma entrevista com o familiar. Você pode, portanto, desenhar uma cartografia da vulnerabilidade térmica a partir dessa qualidade de dados de mortalidade”. Política pública do futuro A EMEF Gonzaguinha é uma das cerca de 500 escolas de ensino fundamental espalhadas pela capital de São Paulo, cada qual com propriedades físicas, geográficas, topográficas e socioeconômicas distintas. Por meio do Urban Living Lab (Laboratório Vivo Urbano), os pesquisadores esperam determinar as propriedades que mais vulnerabilizam o território frente a ondas de calor e frio. Conforme Paulina, sensores vão medir parâmetros físicos relacionados ao conforto térmico (temperatura, umidade e vento, por exemplo) antes, durante e depois da intervenção. O projeto durará cinco anos. A participação da Seclima (Secretaria Executiva de Mudanças Climáticas), da Secretaria Municipal de Educação e da Diretoria Regional de Educação Ipiranga abre a perspectiva de escalar o projeto e levar os aprendizados para outras áreas da cidade. Laura prospecta: “Acreditamos que o verde vai unir a comunidade e causar grande impacto na comunidade. As métricas desse projeto piloto poderão conduzir uma política pública do município no futuro. Talvez várias ou todas as escolas se transformem em microflorestas”. Essa é a expectativa de Marília de Santis, diretora da EMEF Gonzaguinha e integrante da Iniciativa Mulheres e Territórios do Insper Cidades. “Imagino que todo esse acúmulo de informações obtido nos territórios populares com o apoio da academia vai significar muitas mudanças, porque a gente está finalmente conseguindo fazer ciência e construir conhecimento dentro da favela com a participação das pessoas do território”, diz Marília. “Estamos olhando para os territórios não só como lugares carentes, mas também potentes de saberes.” A diretora ressalta que a EMEF Gonzaguinha é uma escola municipal com 35 anos de idade, logo tem uma construção bastante obsoleta em conforto para os seus 1.200 estudantes. Em contrapartida, está dentro de Heliópolis, uma comunidade de alta vulnerabilidade social reconhecida pela capacidade de mobilização e organização. No decorrer dos anos, para enfrentar os desafios na gestão do espaço e na logística de atendimento, a escola aproximou-se da sociedade civil organizada, das lideranças comunitárias e da academia. “Junto com esse combo de universidades e secretarias, esse processo de pesquisa-ação será muito importante para a gente entender melhor os nossos desafios e superar alguns deles”, sublinha Marília. Para Laura, Heliópolis é um território com muitas lutas e muitos ganhos. A própria escola é apenas um dos equipamentos públicos que surgiram por parte do histórico de engajamento comunitário. “Heliópolis se reconhece como um território educador, então queremos que o verde possa ser também um meio nesse processo de criar uma sociedade mais engajada, segura e colaborativa”, afirma Laura. A experiência do Centro de Estudos das Cidades terá um peso importante para o Insper, reforça Paulina, pois vai gerar bolsas técnicas e de doutorado, pós-doutorado e iniciação científica. Assim, o trabalho do GreenCare4Health vai impactar positivamente na educação dos alunos da escola que se envolverem na pesquisa-ação."},{"jcr:title":"EMEF (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Gonzaguinha, em Heliópolis","alt":"EMEF (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Gonzaguinha, em Heliópolis"}]