[{"jcr:title":"Centro de Estudos das Cidades analisa os impactos socioeconômicos do Porto Maravilha, no Rio","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/urbanismo","cq:tags_1":"centro-de-conhecimento:laborat-rio-arq--futuro-de-cidades"},{"richText":"Pesquisadores do Laboratório Arq.Futuro do Insper apresentaram os resultados parciais do trabalho que investiga a transformação da Operação Urbana Consorciada iniciada em 2009","authorDate":"29/05/2026 10h22","author":"Leandro Steiw","madeBy":"Por","tag":"centro-de-conhecimento:laborat-rio-arq--futuro-de-cidades","title":"Centro de Estudos das Cidades analisa os impactos socioeconômicos do Porto Maravilha, no Rio","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"O estudo “Reabilitação urbana e impactos socioeconômicos: uma análise da Operação Urbana Consorciada do Porto Maravilha, Rio de Janeiro”, produzido pelo  [Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper](https://www.insper.edu.br/pt/pesquisa/centro-de-estudos-das-cidades)  (Insper Cidades), entrou em sua segunda fase de produção. Em abril, os pesquisadores Rodger Campos, Júlia Linhares e Leonardo Melendez, do Núcleo Habitação, Real Estate e Regulação, apresentaram os resultados parciais em eventos no Insper, em São Paulo, e na construtora Cury, no Rio. A Operação Urbana Consorciada (OUC) é um instrumento definido no Estatuto da Cidade (2001) como o conjunto de intervenções e medidas coordenadas pelo poder público municipal, com a participação da sociedade, para transformação urbanística estrutural, melhoria social e valorização ambiental. O Porto Maravilha abrange os bairros Saúde, Gamboa, Santo Cristo e São Cristóvão, na região portuária da capital fluminense. O trabalho opera em quatro frentes de discussão: o próprio instrumento de operação urbana consorciada (como falhas de coordenação afetam o instrumento de OUC no Porto Maravilha), a mobilidade (o efeito da expansão da infraestrutura de transporte na dinâmica de acessibilidade e deslocamento da nova população), o mercado de trabalho (a nova estrutura produtiva e os novos perfis de trabalhadores, além do impacto sobre os salários) e o mercado imobiliário (os efeitos sobre os preços de mercado dos imóveis residenciais). Cada frente vai gerar um caderno de pesquisa, sendo que os três primeiros estão em produção. Conforme Rodger Campos, pesquisador líder do estudo, a transformação de orlas e áreas portuárias — pano de fundo da pesquisa — é uma das estratégias de requalificação adotadas mundo afora. O estaleiro e as docas de Roterdã, na Holanda, o Puerto America’s Cup, em Valência, na Espanha, e o Puerto Madero, em Buenos Aires, na Argentina, são alguns dos casos emblemáticos. Tais regiões de orla podem ser requalificadas a partir de estratégias de serviços, lazer, habitação, consumo, megaeventos, mercado de aluguéis e atrações culturais. Essa última é a âncora da operação urbana do Porto Maravilha, onde foram construídos o Museu do Amanhã e o Museu de Arte do Rio (MAR), por exemplo. Em geral, são áreas que entraram em processo de abandono à medida que perderam relevância no cenário econômico. O declínio pode ocorrer por diversos motivos, como a decadência da infraestrutura e a concorrência de outros portos mais modernos. Foi o caso da operação urbana no Rio, iniciada em 2009. “No Porto Maravilha, havia um legado de baixa produtividade, ausência de amenidades para a região e fuga de uma parcela relevante da população por conta dessa perda de participação relativa e pela própria perda de expressão do porto e da pujança econômica que se tinha antes”, explica Rodger. Com a Lei Complementar 267 de 2023, o projeto carioca consolida uma mudança importante de diretriz, passando a incentivar a construção de moradias em detrimento de edifícios corporativos. Essa alteração ocorreu depois que várias obras do setor público já haviam mexido na estrutura e no dinamismo da região, como os dois museus, a demolição do Elevado da Perimetral, os túneis Rio 450 e Prefeito Marcello Alencar, o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) e a reinauguração da Praça Mauá. Para Rodger, a nova proposta de habitação foi uma decisão acertada e promissora para o futuro do Porto Maravilha. Os dados do trabalho mostram que, comparando os Censos de 2010 e 2022, a população no perímetro da OUC caiu 19,52%, enquanto na capital fluminense o decréscimo foi de apenas 1,14%, e na Região Metropolitana do Rio, de 0,14%. Nota-se que o processo de requalificação tirou muitas pessoas da região, principalmente do bairro da Saúde. Desde a mudança de foco para habitação, cerca de 11 mil unidades entraram em construção na área, de acordo com a Caixa Econômica Federal, com projeção de atrair 20 mil a 30 mil novos moradores. Rodger observa que, nesse processo de evasão brusca, saíram as pessoas com rendas mais altas e ficaram as com menor renda, um indicador típico de regiões que estão passando por transformação. Afinal, as obras causam transtornos à vida cotidiana, e são os moradores com maior renda que dispõem de mais mobilidade para deixar o local. Na opinião de Rodger, um desafio da requalificação é encontrar instrumentos que garantam que as moradias sejam ocupadas por moradores perenes e não apenas periódicos (o chamado “short stay”, associado ao componente turístico, que sofre de sazonalidade). O tipo de imóveis construídos desde então, com preços absolutos que variam de 300 mil a 900 mil reais, gera uma recomposição dos bairros a partir da renda. Os novos moradores provavelmente pertencem a famílias de classe média. Outro efeito percebido pelo pesquisador é a pouca oferta de comércio e serviços no Porto Maravilha, um sinal de falta de vitalidade urbana. Os empreendedores costumam pisar no freio, pois têm uma visão esparsa da nova configuração do local e do tempo que levará para surgir a demanda por esses serviços.   Trabalhadores mais qualificados Em relação ao mercado de trabalho formal, a quantidade de firmas caiu em aproximadamente 24,9% entre 2002 e 2021, ou seja, a proposta de revitalização ainda não atraiu empresas para o Porto Maravilha. Esse número cresceu 10% em média no município do Rio no mesmo período. “Quem está perdendo espaço na economia da operação urbana são as micro e as pequenas empresas”, diz Rodger. “Em contrapartida, a quantidade de empresas de porte grande, que vão ocupar aqueles grandes escritórios, aumentou cerca de 40% no Porto Maravilha.” A quantidade de trabalhadores na OUC, que caiu 0,5% (estabilidade considerada ruim neste indicador) entre 2002 e 2021, revela outra tendência na contramão do município, onde o crescimento foi de 37,4%. Os trabalhadores no Porto Maravilha concentram-se agora em atividades administrativas e, a partir de 2021, em financeiras — consequência do perfil das empresas que se instalaram desde a requalificação. Houve também algum efeito sobre os salários médios das principais ocupações. Com a instalação do polo de arte e cultura, a remuneração média do setor passou de R$ 1.871 a R$ 7.170 no período. Nos denominados KIBS (serviços intensivos em conhecimento, como tecnologia da informação, consultoria e jurídico), o salário médio subiu de R$ 3.148 para R$ 6.326. “A remuneração média dos trabalhadores no Porto Maravilha é quase R$ 1.000 superior à do município”, comenta Rodger. “Nesse processo, houve retirada de pessoas com qualificações mais baixas e concentração em atividades mais sofisticadas e de maiores empresas.” Da mesma forma, o nível de instrução demonstra a modificação no perfil das ocupações na OUC, considerando que nas atividades portuárias predominavam as profissões com menos anos de estudo. De 2002 a 2021, registra-se uma diminuição de 64,7% e de 4,2%, respectivamente, do número de trabalhadores com ensino fundamental e médio. Ao mesmo tempo, a quantidade de trabalhadores com nível superior ou maior subiu 166%. Outro indicador que reforça a alteração de perfil ocupacional é o crescimento, acima da média do município do Rio, de trabalhadores com habilidades cognitivas e sociais no perímetro em transformação. São ocupações que requerem maior nível de instrução. Em compensação, caiu a participação de pessoas com habilidades motoras, que tendem a ter menos anos de estudo. Os dados indicam que o Porto Maravilha vive uma transição ainda inconclusa. A região recebeu investimentos expressivos em infraestrutura, cultura e mobilidade, mas segue diante do desafio de atrair moradores permanentes, estimular comércio e serviços e recompor sua vida urbana cotidiana. Nesse sentido, a nova aposta na habitação será central para avaliar se a operação conseguirá converter a requalificação física em desenvolvimento urbano mais amplo, com efeitos duradouros para a população, o mercado de trabalho e a própria dinâmica da cidade."}]