[{"jcr:title":"As “pequenas tentações” que sustentam a vida urbana","cq:tags_0":"centro-de-conhecimento:laborat-rio-arq--futuro-de-cidades","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/urbanismo"},{"richText":"Um livro para todos que habitam cidades — e para quem deseja compreendê-las de dentro para fora","authorDate":"18/12/2025 11h30","author":"Heloisa Loureiro Escudeiro*","madeBy":"Por","tag":"centro-de-conhecimento:laborat-rio-arq--futuro-de-cidades","title":"As “pequenas tentações” que sustentam a vida urbana","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"“Pequenas tentações: cidades, arquitetura e outros passeios”, de Eduardo Andrade de Carvalho, desloca o olhar para aquilo que muitas vezes se perde na pressa do dia a dia: a vida urbana em sua dimensão concreta, sensorial e política. Talvez porque o autor não seja arquiteto — assim como Raul Juste Lores, em “São Paulo nas alturas”, também já discutido  [aqui](https://www.insper.edu.br/pt/noticias/2024/5/uma-fotografia-do-passado-recente-da-capital-paulista---e-suas-l)  —, a perspectiva escapa às amarras do discurso técnico e se aproxima da experiência de todos que vivem (n)as cidades, com suas ruas, calçadas, encontros, desconfortos, muros e os gestos repetidos que, somados, estruturam o cotidiano. Esse ponto de vista, externo ao ofício, porém interno à urbanidade, é o que dá consistência à obra.   Reunindo textos publicados ao longo de pouco mais de uma década, a coletânea se organiza entre reflexões sobre cidades, arquitetura e o que Carvalho chama de “outros passeios” — por história, literatura, música e, sobretudo, por memórias que atravessam sua relação com os lugares. Ainda que estejam em blocos, a fluidez da leitura confirma o que Fernando Serapião antecipa em seu prefácio ao nomear o “espírito urbano” do livro: a capacidade de transformar situações comuns em sínteses de questões muito maiores. Em cada ensaio, Carvalho demonstra que a experiência urbana se constrói por ações discretas, rotineiras, muitas vezes invisíveis, no entanto decisivas para moldar relações, percepções e usos do território.   Ainda que alguns datem mais de dez anos, os primeiros artigos dialogam diretamente com obras muito recentes e já resenhadas neste espaço. Em várias passagens, o autor ecoa o olhar histórico-prospectivo de  [Ben Wilson em Metrópole](https://www.insper.edu.br/pt/noticias/2024/3/trama-urbana)  e a defesa de  [Carlos Moreno pela proximidade urbana](https://www.insper.edu.br/pt/conteudos/cidades/a-proximidade-como-um-horizonte-para-as-cidades-contemporaneas)  no seu A Cidade de 15 minutos: se o futuro da população global é urbano, a distância sistemática entre moradia, lazer, serviços e espaços públicos impõe um desgaste estrutural que transforma a mobilidade rotineira em exaustão. Carvalho é explícito ao defender que aproximar pessoas de seus destinos diários não é apenas uma escolha de planejamento — deveria ser uma condição.   Entre os elementos urbanos elencados ao longo da coletânea, as calçadas assumem papel central. Para Carvalho, elas não são meras superfícies e sim suportes de convivência, espaços pedagógicos onde civilidade, segurança e sociabilidade se materializam. Sua crítica aos condomínios-clube e aos muros é igualmente direta: não se trata apenas de estética, mas de uma lógica rígida de separação que empobrece o espaço público, inibe os diferentes e reduz a espontaneidade dos encontros. Quanto mais ostensiva a divisão entre o público e o privado, menor a capacidade da cidade de absorver contrastes e promover convivência; quanto mais sutis e permeáveis essas transições, mais a urbanidade se afirma.   Nos textos dedicados à arquitetura, o ensaísta apresenta algumas de suas observações mais contundentes. Ele destaca como, apesar do impacto direto na qualidade de vida, a arquitetura aparece de modo irregular nos debates públicos, quase sempre reduzida à imagem ou à autoria, enquanto aceitamos, sem reflexão, ambientes mal resolvidos, fachadas indiferentes ao pedestre e projetos que privilegiam o carro. Carvalho insiste, com clareza, que boa arquitetura não precisa ser onerosa: depende de adequação à escala humana, de inteligência no uso do espaço e de uma relação qualificada com o entorno. A funcionalidade, nesse sentido, é somente o ponto de partida; edifícios e espaços precisam também sustentar diversão, curiosidade, cuidado e fruição – algo explicitado em outras referências mencionadas ao longo da obra e que também já passaram por esta newsletter, como  [Jane Jacobs](https://www.insper.edu.br/pt/noticias/2022/11/paginas-de-ativismo-urbano)   e  [Jan Gehl](https://www.insper.edu.br/pt/noticias/2023/5/humanas--demasiado-humanas) .   Por fim, a seção final, “Outros passeios”, amplia o horizonte do livro e oferece um contraponto que o completa. São artigos que abordam escritores, músicos, conversas e lembranças que reafirmam que falamos de cidade porque, pura e simplesmente, tratamos da vida. Não há ruptura: há continuidade. As experiências que nos moldam — observar pessoas numa praça, encontrar um amigo ao acaso, ouvir sons que marcam um bairro, ficar apenas em silêncio e contemplar são aparentemente inúteis, entretanto constituem os verdadeiros prazeres da vida. As “pequenas tentações” são, assim, essas ocorrências mínimas que carregam sentido e tornam o dia a dia reconhecível.   Carvalho entrega, assim, uma obra que se dirige a qualquer cidadão no exato sentido da palavra, independentemente de familiaridade com urbanismo ou arquitetura. Ao partir de situações reais, articula diagnóstico, crítica e observação de maneira acessível, consistente e direta. Enfim, percebemos que a urbanidade não é uma abstração: manifesta-se no modo como caminhamos, nos limites que construímos, nas formas que acolhem ou afastam, na qualidade dos espaços que compartilhamos. E entendemos que, em uma narrativa de sobriedade, uma cidade, mesmo imperfeita, continua sendo o cenário onde a vida pode ser transformada.   * Heloisa Loureiro Escudeiro é coordenadora-adjunta do Núcleo Arquitetura e Cidade do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper. "},{"fileName":"Capa livro_Pequenas tentações.png"},{"text":"PEQUENAS TENTAÇÕES: CIDADES, ARQUITETURA E OUTROS PASSEIOS, de Eduardo Andrade de Carvalho BEĨ Editora 112 páginas R$65,00."},{"jcr:title":"O autor Eduardo Andrade de Carvalho","fileName":"Eduardo_Andrade_de_Carvalho_2025©Renato_Parada_AltaRes_15.jpg","alt":"O autor Eduardo Andrade de Carvalho"}]