[{"jcr:title":"A responsabilidade humana sobre as tragédias climáticas","cq:tags_0":"centro-de-conhecimento:laborat-rio-arq--futuro-de-cidades","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/urbanismo"},{"richText":"As chuvas que caíram em Juiz de Fora reforçam o alerta relativo às consequências do aquecimento global e indicam a importância de tirar o planejamento do papel e realizar ações preventivas ","authorDate":"30/03/2026 10h06","author":"Tiago Cordeiro","madeBy":"Por","tag":"centro-de-conhecimento:laborat-rio-arq--futuro-de-cidades","title":"A responsabilidade humana sobre as tragédias climáticas","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"Enquanto lamenta as 65 mortes registradas em decorrência das chuvas intensas dos últimos dias de fevereiro, a cidade de Juiz de Fora trabalha na reconstrução. Mais de mil moradias foram completamente destruídas, e outros 928 imóveis foram interditados. O total de desalojados e desabrigados, que ultrapassou 8.500 pessoas, representa cerca de 1,5% da população do município, o quarto maior de Minas Gerais e o principal da região da Zona da Mata. Num primeiro momento, 83 vias ficaram interditadas, e as atividades escolares acabaram interrompidas. Foi o maior volume de chuvas já registrado na história da cidade em um único mês: 763,8 milímetros, mais de três vezes a média para o período, medida pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet): 173 milímetros. O recorde anterior, de 455 milímetros, havia sido identificado em 1988. Como resultado, o rio Paraibuna saiu da calha — e bairros inteiros ficaram ilhados. A dimensão do desastre levanta uma questão inevitável: seria possível prevenir essas ocorrências ou, ao menos, evitar parte de seu impacto? Faltou planejamento urbano, ou a quantidade de água que se abateu sobre a cidade torna o acontecimento incontrolável? Para Tomas Alvim, coordenador-geral do  [Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper](https://www.insper.edu.br/pt/pesquisa/centro-de-estudos-das-cidades) , muitas vezes, não falta planejamento; o desafio está na execução. “As políticas públicas não costumam ter continuidade, e as questões relativas aos impactos climáticos, em geral, são tratadas setorialmente. Não está no modus operandi dos gestores públicos do Brasil convergir metas. Cada secretaria entrega as suas”, observa. Daí a importância, aponta ele, de desenvolver ações amplas, convergentes e de longo prazo. “Precisamos pensar as mudanças climáticas de forma integrada, nos eixos de segurança, mobilidade, moradia, saúde urbana e infraestrutura.” Não faltam dados Se a fragmentação das políticas é um problema, a falta de informação não é. Ao contrário do que se costuma dizer, informações existem, reforça Élcio Batista, coordenador do programa Cidade +2ºC do Laboratório Arq.Futuro do Insper. “Em geral, quando acontecem esses incidentes, o mesmo ciclo se repete: os gestores são acusados, inclusive na imprensa, e, em resposta, alegam que o evento climático não podia ser previsto, quando, na verdade, não falta planejamento, e muitas vezes ele já incorporou a lente climática.” Sabe-se, por exemplo, que quase 5 milhões de pessoas moram em áreas de risco no Brasil. O dado é resultado de um  [mapeamento](https://geoportal.sgb.gov.br/portal/apps/dashboards/c338199dee3a4d4bb0e43738b424a298)  realizado pelo Serviço Geológico do Brasil, que identificou aproximadamente 12 mil áreas de alto risco e outras 5.500 de perigo muito elevado. Ao todo, são mais de 4,6 milhões de pessoas e 1,7 milhão de domicílios em risco de sofrer com deslizamento, inundação, erosão, enxurrada, quedas de barreira e enchentes. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden)  [acompanha](http://www2.cemaden.gov.br/municipios-monitorados-2/)  a situação de 958 municípios brasileiros e aponta, inclusive, aqueles onde há mais pessoas vivendo em situação de risco. Pela ordem, são: Salvador (BA), São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG), Recife (PE), Jaboatão dos Guararapes (PE), Ribeirão das Neves (MG), Serra (ES), Juiz de Fora (MG) e São Bernardo do Campo (SP). Tema sensível Juiz de Fora figurava nessa lista — e não por acaso. “O caso da cidade é paradigmático”, afirma Élcio. “Sabe-se que 25% da população local mora em áreas de risco. É um município que faz mapeamento constante, tem um planejamento proposto. Contudo, falta priorizar investimentos relacionados à adaptação climática e à remoção de pessoas de áreas vulneráveis — um tema sobre o qual é muito difícil falar no Brasil.” Não é simples, de fato, retirar moradores dos locais onde vivem. Por outro lado, diz o coordenador do Cidade +2ºC, o risco de adotar uma postura de inação é muito maior. “Como é injusto remover, removemos pouco; como removemos pouco, morremos muito; como morremos muito, chamamos de tragédia; como é tragédia, é exceção; como é exceção, seguimos sem política.” Diante desse cenário, a prefeitura do município tem declarado que trabalha para concluir uma série de ações antes do próximo período chuvoso, com o objetivo de preparar a cidade para eventos extremos e reduzir riscos. Entre as prioridades estão acelerar obras estruturantes de drenagem e contenção, buscar soluções para famílias desalojadas e transformar áreas de risco em zonas ambientais protegidas. O desafio vai além das obras. “As pessoas que vivem em áreas de risco se instalaram nesses locais por falta de alternativa. Esses espaços deveriam ser destinados à preservação, e as comunidades precisariam contar com alternativas de moradia”, pontua Tomas. “Somos um país urbano, porém nossas cidades, que são produtoras de riqueza, não souberam acolher as demandas que a própria sociedade gerou. Ainda temos 90 milhões de pessoas sem saneamento básico.” Já na área da educação de líderes e gestores públicos, é importante focar em profissionais com capacidade de atuar multissetorialmente, sublinha Tomas. “Como dizia o arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, precisamos formar mais generalistas e menos especialistas.”   Decisão política Ainda assim, a urgência da pauta pode impulsionar novas práticas na gestão pública, na avaliação do coordenador-geral do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper. “As mudanças climáticas vão ser um indutor da necessidade de trabalhar de maneira multissetorial. As cidades que o fizerem serão mais competitivas. Quem não se adaptar vai se tornar menos atrativa”, acredita Tomas, que cita o exemplo de Porto Alegre (RS), uma capital de 1,3 milhão de habitantes, com um dos dez maiores PIBs do país, que, em decorrência das enchentes de maio de 2024, ficou 168 dias sem poder contar com seu aeroporto. O custo da omissão, portanto, é concreto e mensurável. “Falta executar ações de prevenção para evitar catástrofes”, analisa Élcio. “Esses episódios deixam desdobramentos profundos: pessoas perdem a vida, famílias ficam desalojadas, crianças ficam sem escola, cidadãos ficam sem acesso a serviços de saúde ou passam a viver com problemas de saúde mental.” O Brasil tem algumas iniciativas em prevenção, utilizando infraestruturas verdes, baseadas na natureza, menciona ele. “O Parque Barigui, em Curitiba (PR), representa um ótimo exemplo de ação que reduz impactos”, destaca Élcio, fazendo menção ao equipamento urbano de 1,4 milhão de metros quadrados, inaugurado em 1972, em cuja obra o rio Barigui foi represado, formando um lago que ainda hoje recebe as águas das chuvas e protege os bairros do entorno. “Os eventos extremos vão acontecer, cada vez com mais frequência. Mas é possível agir de modo preventivo para reduzir ou evitar seus impactos. Sabemos o que é preciso fazer. O que falta, muitas vezes, é decisão política.”"}]