[{"jcr:title":"Preços de commodities e produtividade no agro: o que explica o salto dos anos 2000?","cq:tags_0":"tipos-de-conteudo:pesquisa-na-graduação","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:agronegócio","cq:tags_2":"centro-de-conhecimento:centro-de-agroneg-cio-global","cq:tags_3":"area-de-conhecimento:economia"},{"richText":"Pesquisa de iniciação científica de Victor Martins   Cardoso analisa a relação entre o boom de commodities e a Produtividade Total dos Fatores na agropecuária brasileira","authorDate":"14/04/2026 11h45","madeBy":"Por","tag":"tipos-de-conteudo:pesquisa-na-graduação","title":"Preços de commodities e produtividade no agro: o que explica o salto dos anos 2000?","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"Nos anos 2000, a agropecuária brasileira apresentou um desempenho “fora da curva” em produtividade — um contraste marcante com outros períodos e com o restante da economia. Essa percepção foi o ponto de partida de uma  [pesquisa](https://repositorio-api.insper.edu.br/server/api/core/bitstreams/38b6f4d0-4a5d-4b0b-80f3-eb5e9463803e/content)  desenvolvida no âmbito do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica ( [PIBIC](https://www.insper.edu.br/pt/pesquisa/pesquisa-na-graduacao/pibic) ), que buscou entender por que a década se destaca e até que ponto o boom internacional das commodities pode ter contribuído para esse avanço. “Quando analisamos a trajetória da agropecuária brasileira, a década de 2000 se destaca de maneira muito clara em relação aos demais períodos”, afirma Victor Martins Cardoso, formado em  [Economia](https://www.insper.edu.br/pt/cursos/graduacao/economia)  no Insper no final de 2024. Após desenvolver o tema no Trabalho de Conclusão de Curso, ele aprofundou a investigação na iniciação científica, com aprimoramento metodológico e um olhar voltado a um fator menos explorado em estudos sobre produtividade: o efeito dos preços internacionais das commodities. O interesse pelo agronegócio não veio de uma tradição familiar no setor. Victor conta que sua mãe se formou na Esalq, em Piracicaba, o que o aproximou do tema desde cedo, mas sua motivação principal foi econômica. “No Brasil, é difícil discutir crescimento econômico sem considerar a relevância do agronegócio”, diz. Para ele, o setor chama atenção por combinar desempenho relativamente superior em produtividade com uma cadeia produtiva mais “visível” e integrada. “É um setor em que conseguimos acompanhar melhor a dinâmica: de onde vêm os insumos, como a produção se organiza e para onde os produtos são direcionados”, explica. Preços internacionais explicam a produtividade? A pergunta central da pesquisa foi direta: o boom de commodities de meados dos anos 2000 — impulsionado pela forte demanda chinesa e por condições específicas do mercado internacional — ajudou a explicar o aumento expressivo da produtividade no período? Ao revisar a literatura, Victor observou que a maior parte dos trabalhos atribui os ganhos de produtividade a fatores como crédito, investimento em pesquisa e desenvolvimento, adoção de tecnologia e expansão produtiva. “O papel dos preços costuma receber menos atenção nesse debate”, afirma. É justamente nessa lacuna que o orientador do trabalho, o professor e pesquisador Leandro Gilio, situa a contribuição do estudo: “O agronegócio teve um grande crescimento em produtividade nas últimas décadas e vários fatores vêm contribuindo com isso. O trabalho do Victor contribui em avaliar o quanto as fortes altas de preço no mercado de commodities têm influência sobre esse crescimento, lançando foco sobre a discussão do quanto os mercados internacionais influenciam no agro brasileiro”. Para medir esse movimento, Victor optou pela Produtividade Total dos Fatores (PTF), indicador que considera, de forma agregada, a relação entre produção e diferentes insumos (como capital, trabalho e tecnologia). Victor explica que medidas parciais, como produtividade por hectare, são úteis para determinados recortes, mas não capturam toda a complexidade do setor. “Quando dizemos ‘tantas toneladas por hectare’, estamos descrevendo um resultado específico. A PTF, por outro lado, permite observar como a eficiência no uso dos fatores de produção evolui ao longo do tempo”, afirma. Além disso, a PTF possibilita avaliar conjuntamente agricultura e pecuária, evitando restringir a análise apenas a uma parcela da agropecuária. O percurso da pesquisa também exigiu disciplina. Victor aponta como principal desafio a conciliação entre o projeto, o último ano da graduação e o trabalho. “A iniciação científica exige constância: é um compromisso semanal que precisa ser acomodado em uma rotina já intensa”, relata. Boa parte do desenvolvimento ocorreu enquanto atuava no centro de pesquisa  [Insper Agro Global](https://agro.insper.edu.br/) , onde entrou em meados de 2023 e permaneceu por dois anos e meio. No ambiente do centro, diz ter desenvolvido gosto pela pesquisa aplicada: leitura sistemática de literatura, testes de metodologia e construção de análises. “Foi um espaço em que aprendi muito, com rapidez, e no qual fui incentivado a transformar o trabalho em algo publicável”, comenta. Resultados, limites e próximos passos Os resultados encontrados dialogam com a intuição econômica sobre ciclos de preços. Victor observa que, quando os preços sobem, produtores tendem a registrar ganhos e, em muitos casos, direcionam parte dessa renda para investimento, o que pode favorecer ganhos de produtividade no curto prazo. No entanto, a dinâmica pode se inverter: com a expansão da oferta e a acomodação da demanda, os preços recuam e os efeitos positivos se reduzem. “O que identifiquei foi uma resposta compatível com essa lógica: um impulso inicial seguido de reversão ao longo do tempo”, explica. Ele acrescenta que períodos de bonança também podem induzir decisões menos eficientes. “Em ciclos de alta, há espaço para investimentos; o risco é que parte deles não seja bem calibrada quando o cenário muda”, afirma. Ao final, porém, Victor chama atenção para um ponto importante: a pesquisa o levou a relativizar o papel do preço como explicação principal para o salto observado na produtividade dos anos 2000. “Após refletir sobre os resultados e revisar a literatura, passei a considerar que os preços, isoladamente, não explicam a maior parte do aumento de produtividade”, avalia. Em sua interpretação, fatores estruturais — entre eles a maior integração comercial e a necessidade de atender a padrões competitivos internacionais — podem ter sido determinantes para o desempenho do agronegócio. “A inserção em mercados mais exigentes tende a pressionar por eficiência, algo que nem sempre ocorre em setores mais protegidos”, argumenta. A própria identificação do boom de commodities, do ponto de vista econométrico, apareceu como um dos limites do trabalho. Victor explica que não conseguiu delimitar o período de boom “de forma endógena”, isto é, a partir das próprias relações internas do modelo, sem impor recortes previamente. Esse desafio, afirma, orienta seus próximos passos acadêmicos. Com ingresso previsto no mestrado na Escola Politécnica da USP, ele pretende estudar métodos quantitativos mais avançados para detectar ciclos e antecipar variações relevantes de preços. Em paralelo, Victor iniciou uma nova etapa profissional na Olam Agri, trading de grãos, onde atua na análise de dados para apoiar decisões de mercado. “Meu papel é organizar informações sobre estoques, plantio, colheita e fluxo de vendas, transformando esses dados em insumos para a equipe”, diz. Para Leandro Gilio, além do tema, o trabalho se destaca pelo modo como foi conduzido. “O trabalho do Victor chama atenção pelo esforço em utilizar metodologias modernas, ampla pesquisa bibliográfica e um grande esforço para o entendimento de um aspecto importante de um dos setores econômicos mais importantes do país”, afirma. O orientador também ressalta o engajamento do aluno ao longo do processo e o efeito formativo da experiência: “Victor também mostrou grande engajamento com o tema, tanto que também realizou uma iniciação científica na área, que eu pude também orientar. O processo certamente contribuiu muito para a formação dele como economista”. Para estudantes que consideram seguir o caminho da iniciação científica, Victor destaca o valor formativo da experiência — independentemente da escolha por uma carreira acadêmica. “O principal é se dedicar de fato ao tema, com profundidade. O processo de pesquisa ensina a construir raciocínio, testar hipóteses e aprender com mais rigor”, afirma. Em um contexto de respostas rápidas e automatizadas, ele reforça a importância de insistir na compreensão. “Quando algo não está claro, vale investir tempo para entender. Esse hábito faz diferença em qualquer área profissional”, conclui.  "}]