[{"jcr:title":"Tarifaço e política internacional redesenham os desafios do Brasil para fortalecer sua democracia e presença no mundo","cq:tags_0":"tipos-de-conteudo:acontece-no-insper","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:políticas-públicas","cq:tags_2":"area-de-conhecimento:economia"},{"richText":"Debate no Insper revela como o país enfrenta pressões externas, disputas internas e a busca por um papel mais claro no novo tabuleiro global","authorDate":"08/08/2025 14h56","madeBy":"Por","tag":"tipos-de-conteudo:acontece-no-insper","title":"Tarifaço e política internacional redesenham os desafios do Brasil para fortalecer sua democracia e presença no mundo","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"Nos últimos dias, poucas palavras despertaram tanta atenção no ambiente econômico e político brasileiro quanto “tarifaço”. A imposição de tarifas adicionais por parte dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, em meio à política comercial agressiva de Donald Trump, levou especialistas a um diagnóstico: o comércio internacional voltou a ser instrumento de poder político. Para discutir essa mudança e suas consequências, o Insper reuniu acadêmicos, executivos e analistas no evento  [Tarifaço: Implicações Comerciais, Riscos e Oportunidades](https://www.youtube.com/live/MJanaDKmTM0) , realizado em 1º de agosto em parceria com a Consulting House.   Durante uma manhã de debates, dois painéis abordaram, sob ângulos diferentes, o lugar do Brasil num mundo em transformação acelerada, no qual decisões políticas e disputas de poder se refletem diretamente na economia.     Primeiro painel: tarifas, inflação e a nova geografia do comércio   Moderado pela professora Juliana Inhasz, o painel reuniu três especialistas: Roberto Dumas, economista e professor do Insper; Marcos Jank, coordenador do Insper Agro Global; e Alberto Pfeifer,  policy fellow  do mesmo núcleo.   Dumas abriu destacando que o pacote econômico de Trump, o “Big Beautiful Bill” de 4 trilhões de dólares, tende a ampliar o déficit fiscal e, como consequência, o déficit em conta corrente dos Estados Unidos. Ele explicou que, embora o governo norte-americano tenha imposto tarifas pesadas a países como China, Coreia do Sul e Índia, a economia dos EUA opera próxima ao pleno emprego. Isso reduz os efeitos positivos esperados sobre a produção e gera outro efeito colateral: a importação de inflação.   Segundo o economista, o cenário resultante pode ser uma estagflação — crescimento baixo combinado com inflação alta — caso Trump mantenha uma política econômica errática. “Esse tipo de política comercial gera incerteza e pode prolongar tensões comerciais globais pelos próximos anos”, alertou Dumas. Para contextualizar, ele citou dois momentos históricos: o Smoot-Hawley Act de 1933, que desencadeou guerras comerciais e cambiais, e o Acordo de Plaza de 1985, quando déficits fiscais elevados nos EUA acabaram levando a desequilíbrios externos. A combinação de tarifas e expansão fiscal, segundo ele, tende a repetir esse padrão.   No caso específico do Brasil, Dumas observou que, no curto prazo, a perda de mercado nos Estados Unidos pode ter até um efeito desinflacionário, se os produtos brasileiros forem redirecionados para outros destinos. No entanto, sem esse redirecionamento, a consequência seria queda de produção e, em seguida, pressão inflacionária. Ele também chamou a atenção para os riscos no câmbio, dado o histórico recente de instabilidade política e fiscal no país. “O aspecto inflacionário me assusta muito mais pela guerra comercial”, disse, acrescentando que as tarifas impostas pelos EUA ao Brasil são políticas, não técnicas.   Marcos Jank, por sua vez, ampliou o debate para além da economia, descrevendo um cenário de retrocesso na ordem internacional construída desde a Segunda Guerra Mundial. “Estamos voltando para um mundo mercantilista pré-Adam Smith”, afirmou. Para ele, Trump representa a ruptura com mais de 80 anos de construção institucional liderada pelos EUA, que funcionou com base na cooperação e nas vantagens comparativas. Ao colocar política e ideologia no centro de temas comerciais, opresidente norte-americano cria uma agenda imprevisível.   No agronegócio, explicou Jank, o impacto imediato do tarifaço tende a ser limitado: o Brasil exporta cerca de 170 bilhões de dólares por ano, dos quais apenas 12 bilhões vão para os Estados Unidos. Setores como café, açúcar, etanol e frutas foram atingidos, mas outros, como suco de laranja e celulose — com presença forte de empresas americanas — ficaram de fora. Ele ressaltou, no entanto, que a medida mostra a falta de uma presença mais ativa do Brasil em Washington. “Falta articulação política e empresarial do Brasil nos EUA. Essa ausência contribuiu para que fôssemos incluídos na lista de tarifas mais altas.”   Em seguida, Alberto Pfeifer trouxe uma visão ainda mais abrangente, destacando que o tarifaço é apenas um sintoma de uma disputa muito maior. “Analisar apenas a microcontabilidade das tarifas é enxugar gelo”, afirmou. Segundo ele, o que está em jogo é uma competição estrutural entre Estados Unidos e China por ativos estratégicos e influência global. Essa disputa, que não é episódica nem limitada ao governo Trump, já remodela alianças, cadeias de suprimentos e fluxos de investimento.   Pfeifer destacou que o Brasil ocupa uma posição estratégica nesse tabuleiro, seja pela importância dos recursos naturais, seja pela relevância do país na segurança alimentar global. “Nós não entendemos direito o que está acontecendo”, disse Pfeifer. Para ele, a análise interna ainda se restringe a tarifas e política doméstica, enquanto a competição por influência no Cone Sul e no Atlântico Sul torna difícil manter uma postura neutra.   Na segunda parte do painel, os debatedores trataram do papel da moeda nesse novo contexto. Dumas afirmou que a desdolarização preocupa Trump, mas é inviável no curto prazo: “O yuan não é conversível. Por isso, não tem como substituir o dólar agora”. Ele criticou a estratégia brasileira de anunciar uma agenda de desdolarização em público, o que chamou de “cutucar onça com vara curta” e gerar mais atrito com Washington.   Jank completou que as tarifas são apenas uma das ferramentas disponíveis para Trump. Outras barreiras não tarifárias — como exigências ambientais, sanitárias e técnicas — já têm impacto importante sobre o comércio internacional e tendem a crescer. Pfeifer reforçou que o mundo está se reorganizando em redes de interdependência variáveis, e que a tradicional neutralidade brasileira pode ser insuficiente. Para enfrentar essa nova fase, empresas e governo precisam desenvolver capacidades de análise de cenários e planejamento de longo prazo.  "},{"text":"Segundo painel: política no centro da tempestade   O segundo painel abordou as raízes políticas do tarifaço e suas consequências de médio e longo prazo. Mediado por Carlos Melo, professor e cientista político do Insper, contou com dois convidados: Ricardo Sennes, diretor da Prospectiva Public Affairs Lat.Am, e Natalia Fingermann, professora da ESPM.   Melo abriu o bate-papo ressaltando que o Brasil carrega “todos os problemas do mundo agravados pelos seus próprios problemas”. Ele lembrou que, durante muito tempo, autores como Samuel Huntington e Francis Fukuyama acreditaram que as instituições maduras dos EUA e da Europa conseguiriam se antecipar às mudanças sociais e políticas. No entanto, a revolução tecnológica e social das últimas décadas mostrou o contrário: vivemos na “era do imprevisto”, com crescente instabilidade.   Para Melo, a política falhou em apresentar respostas a essas transformações, e a democracia se tornou uma das principais vítimas desse processo. A falta de visão de longo prazo e de projetos consistentes cria um vácuo onde florescem lideranças autocráticas. Sobre o cenário brasileiro, Melo resumiu: “O presidente Lula é um homem de ontem. A sua sorte é que os seus adversários são homens da Idade Média”. Ele argumentou que o país, sem um diagnóstico claro de seus desafios, tem atuado de forma errática desde o fim dos grandes projetos nacionais e perdeu parte de sua força diplomática.   Ricardo Sennes procurou contrapor a visão mais pessimista, lembrando que, apesar das tensões atuais, o período pós-Segunda Guerra trouxe avanços inéditos em termos de cooperação e inclusão econômica. “Não podemos jogar o bebê com a água suja do banho”, disse. Para ele, mesmo com líderes disruptivos como Trump, existe um padrão de relações internacionais civilizadas, e o Brasil precisa reagir sem desmontar instituições e regras que foram construídas ao longo de décadas.   O consultor alertou também para a importância de entender a interdependência assimétrica com grandes potências. Ele afirmou que o Brasil não tem poder de barganha de “peso pesado”, mas dispõe de alguns instrumentos de média relevância. “A nossa narrativa diplomática é cinco, seis vezes acima da nossa capacidade”, disse, reforçando que o país deve calibrar expectativas e atuar com realismo.   Em seguida, Natalia Fingermann destacou a forte influência histórica dos Estados Unidos na formação das instituições brasileiras, como a separação de poderes e o modelo federativo. “Os Estados Unidos nunca foram vistos como inimigos, mas como inspiração”, afirmou. Ela alertou para o enfraquecimento recente de instituições internacionais — como a OMC — que sempre deram voz a países médios, como o Brasil, em disputas comerciais e políticas.   Para Fingermann, a posição intermediária do Brasil no cenário global — “não somos o Panamá, mas também não somos a China” — exige defesa firme dessas instituições multilaterais. Ela também destacou os riscos da crise institucional norte-americana: “Hoje temos nos Estados Unidos um Judiciário sem controle e um Congresso arredio”. Para a professora, se líderes autoritários continuarem a fragilizar as instituições, os retrocessos não serão apenas para os EUA, mas para todo o mundo.   Na sequência, Melo apontou que a transformação econômica da China e o avanço da tecnologia criam tensões semelhantes às do início do século 20. Citando o embaixador Rubens Barbosa, ele destacou: “Talvez a gente esteja vivendo o começo de um pós-Ocidente”. A dúvida, segundo ele, é se o futuro será de adaptação do Oriente às instituições democráticas ou do Ocidente a práticas mais autoritárias.   Sennes reforçou que a entrada da China na OMC, no início dos anos 2000, foi uma estratégia de incluir a potência emergente para evitar um sistema paralelo. No entanto, com a revolução digital, surgiram novas vulnerabilidades. “Quase 40% dos nossos data centers estão nos Estados Unidos. Se alguém desliga a chave, você desmonta o país”, alertou.   Ele avaliou ainda que essas vulnerabilidades e a ausência de alianças internacionais deixam o Brasil exposto a retaliações políticas. “Materialmente, a gente está numa situação para ser o bode expiatório perfeito do Trump”, disse. Essa dependência é particularmente alta em serviços digitais, telecomunicações e tecnologia.   Sobre os efeitos políticos internos, Sennes ressaltou que, em curto prazo, o tarifaço aproximou Lula do centro e do setor privado, fortalecendo sua articulação política. “O Lula é um maximizador de eleição presidencial. Ele sabe como mexer na máquina e tem uma equipe muito profissionalizada do ponto de vista eleitoral.” Mas alertou para os riscos: “Se esse cachorro louco resolver brincar com a gente, o dano para o Brasil é gigantesco”.       O papel do Insper   Encerrando o evento, o presidente do Insper, Guilherme Martins, destacou a importância de encontros como este, afirmando que a escola busca sempre promover debates amplos e diversos para enriquecer a visão dos participantes. “Creio que todos saem daqui com a cabeça cheia de variáveis e de cenários possíveis, em um contexto de grande incerteza na economia e na política. O nosso grande objetivo é que toda a plateia saia daqui melhor do que entrou.”"}]